quinta-feira, 4 de maio de 2017

Vitalidade do texto


O saudoso escritor mineiro Otto Lara Resende – amigo íntimo e um dos heróis do não menos saudoso e controvertido jornalista (chamado de “o anjo torto”) Nelson Rodrigues – em artigo publicado no jornal “Folha de S. Paulo”, negou que o brasileiro esteja lendo cada vez menos. Admitiu que o número de leitores pode não ter crescido na mesma proporção do aumento populacional. Mas tranqüilizou os que vivem desse espinhoso ofício de escrever, provando que não há razões para alarme.

E não há mesmo. Prova disso, é o sucesso das seguidas bienais do livro promovidas em São Paulo, Rio de Janeiro, Porto Alegre e em outras importantes cidades do País. Outra demonstração da vitalidade do texto é o crescente sucesso dos vários blogs, em especial os de caráter literário, na internet.

Otto demonstrou, há uns vinte e cinco anos (se não me falha a memória) que o descaso pelo hábito da leitura não era coisa apenas do Brasil. E que, portanto, não tínhamos que ficar nutrindo complexos a respeito. Escreveu: “E vamos deixar de bobagem: o desapego ao livro não é coisa de brasileiro”.

Otto Lara deu alguns exemplos reveladores. Informou, entre outras coisas, que os jovens na Alemanha, que tinham o costume de ler jornais, diminuíram de 11% para 7%. Certamente, hoje, essa redução é ainda mais expressiva. Destacou que, na Espanha, pesquisa do “El País” havia comprovado que 50% dos adultos espanhóis nunca liam nada. E que na Inglaterra, entre 1984 e 1991, os empréstimos de livros nas bibliotecas caíram em cerca de 100 milhões.

Eu acrescentaria que, outro mito, muito difundido de uns anos para cá, o de que o brasileiro não sabe escrever, igualmente não é verdadeiro. Claro que a maioria não sabe mesmo, dado o número elevado de analfabetos (contando, aí, os “funcionais”, que apenas conseguem “desenhar” os nomes e mais nada) que ainda existe no País.

E há, também, não se pode negar, mesmo entre os profissionais do texto, os que assassinam o vernáculo ou que, a pretexto de mostrarem erudição, escrevem de maneira tão confusa e complicada, que nem eles mesmos entendem o que escreveram. São os que praticam a anticomunicação.

Uma prova de que os brasileiros, e especialmente os jovens, sabem escrever, é o livro “Charges e Crônicas”, reunindo textos de alunos de um tradicional colégio da cidade em que resido, Campinas. A coletânea contém trabalhos de adolescentes entre 13 e 14 anos, que cursavam a 7ª série. Dá gosto de ver a criatividade e o poder de comunicação dessa moçada, além do aguçado senso crítico desses “projetos de escritores”.

E não se trata de caso único. Há alguns anos, prefaciei, ou editei e revisei, pelo menos mais três livros semelhantes, de outras escolas da cidade. Uma delas promoveu uma oficina literária, que resultou em um romance coletivo. Cada participante escreveu um capítulo, sem que a continuidade da história ficasse comprometida nem o suspense do enredo fosse quebrado.

O que esses escritores, jornalistas e comunicadores do futuro não têm é incentivo e, acima de tudo, divulgação. Mas isso pode ser sanado, não é mesmo? Vai ser! O espaço “Literário” que edito é uma excelente oportunidade para desmentir os pessimistas e os derrotistas, que só veem coisas ruins no País. Pelo menos é o que me proponho a fazer enquanto tiver paciência e disposição.

Boa leitura!


O Editor.

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Um comentário:

  1. Que a paciência persiste, pois disposição sei que sempre terá.

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