quinta-feira, 4 de maio de 2017

Lembranças do garotinho que um dia fui


* Por Pedro J. Bondaczuk


A memória, não raro, atua sem muita lógica. Guarda fatos aparentemente banais, corriqueiros e nada decisivos em termos de futuro e descarta acontecimentos que de fato foram importantes em nossa vida. Sei que estou sendo repetitivo a esse propósito, mas reiterarei isso sempre que escrever a respeito, por se tratar de algo cuja razão nunca consegui entender. A lembrança mais antiga que tenho remonta a quando eu tinha, somente, dois anos de idade. Há, portanto, mais de setenta anos. É uma recordação compreensivelmente confusa, diáfana, meio que apagada, sem contornos definidos e muito menos detalhes, o que é, convenhamos, compreensível. Recordo-me de um dia especial, não sei qual e nem de quando, cujo cenário era um vasto pátio cimentado, que soube depois que era usado para secar café. Nele eu corria, leve e solto, chutando, com entusiasmo, uma laranja e gritando gol!!!

Não sei, repito, onde ficava este “campo de futebol” da minha memória. Deduzo, no entanto, que não era na minha Horizontina natal. Nem poderia ser. Afinal, a cidade em que nasci não era e nem é região cafeeira. E por que tenho essa lembrança específica, sem a menor importância em minha vida, e não tenho nenhuma outra de então que realmente importe? Sim, por que? Não vejo a menor lógica nessa recordação. Mas é do que me lembro dos meus verdes e esperançosos dois anos de idade. O curioso é que eu nunca vira, em lugar algum, nenhuma partida de futebol. Nem poderia! Era o ano de 1945, quando a televisão sequer chegara ao Brasil. Além do que, eu nunca estivera em um estádio e nem mesmo em um tosco campinho de várzea. No entanto… já tinha noção de gol. Como? Sei lá!!! Isso nunca me ficou claro. Mas a lembrança é esta: eu chutando uma laranja e gritando, a plenos pulmões: GOL!!!!

O período de infância que mais se fixou na minha memória, óbvio, não foi este. Foi o de quando eu tinha cinco anos. São tantas as lembranças dessa época que dariam, sem nenhum exagero, para preencher todo um livro, dos mais alentados e volumosos, caso me propusesse a relatá-las. O curioso é que não se trata de nada que tenha influenciado, de fato, minha vida e determinado o que sou e o que penso. São recordações até banais, corriqueiras, sem importância (será?) mas que envolvem todos os meus sentidos. Fechando os olhos, consigo visualizar os cenários, alguns com bastante detalhes. E mais, recordo-me do canto de pássaros, do zumbir de abelhas, do sussurro do vento e de outros tantos sons. Sinto o perfume da flor de laranjeira (na verdade, das flores de um pé de bergamota que ficava ao lado de uma escada de madeira, bem próximo à grade de proteção que fazia as vezes de corrimão), um aroma que nunca mais pude sentir nestes mais de setenta anos. Sinto a fluidez acariciante de um punhado de areia fininha que escapava por entre os meus dedos quando, brincando, enchia a mão com ela. Como se vê, banalidades, trivialidades, coisas sem importância. Todavia, é o que a memória registrou e que recordo com carinho, com ternura e com saudade.

Claro que não é somente isso de que me lembro daquele período de tantos sonhos que vivi em minha Horizontina natal. Lembro-me, por exemplo, dos meus pais (óbvio), da minha irmã então recém-nascida, dos meus avós paternos, dos tios e primos, e todos em plena flor da idade. A vida encarregou-se de me separar dessas pessoas tão queridas – a maioria para sempre, ou por já terem falecido ou por viverem em outras cidades (algumas, em outros países), com ínfimas chances de reencontro. Uma das lembranças recorrentes que tenho desse período é a do meu avô, “trabalhando” madeira, em sua oficina de carpintaria. Não era sua profissão. Tratava-se de um hobby dele. Essa figura tão querida contava com uma habilidade incomum para fabricar móveis, mas não para vender e sim para uso da própria família. E fazia isso por puro gosto e com inusitada habilidade.

Com quanto gosto e saudade me lembro do meu avô aplainando madeiras, lixando-as, serrando-as, envernizando-as e tudo com ferramentas toscas, já que não dispunha nem mesmo de serra elétrica (e nem poderia dispor, pois em sua propriedade não havia, então, sequer eletricidade). Na verdade não contava com nenhuma dessas tantas máquinas, hoje corriqueiras nas mais humildes oficinas de marcenaria. Tudo o que fazia (e fazia de tudo) era na base da puríssima habilidade de habilíssimo artesão. Era um artista da madeira!! Lembro-me, particularmente, quando meu avô usava alguma plaina (tinha-as de vários tamanhos) para desbastar as peças que elaborava. Recordo-me, sobretudo, das tiras que delas saíam, parecendo serpentinas, as quais eu adorava manipular. E os formões que ele utilizava para desbastar peças, com uma habilidade de artista pintando uma tela, dando-lhes formas absolutamente prporcionais e perfeitas!!! E o cheiro de madeira!!! Meu Deus, que delícia que era!!! É outro perfume que nunca mais me saiu da memória olfativa!

Há outras tantas lembranças desse período que a memória registrou e que me veem cada vez com maior frequência à mente. São incríveis poemas de intensa beleza, que nem precisam ser escritos para me encantar (e que nem sei se conseguiria descrever, mesmo com relativa perícia). E o que dizer da imagem dos trigais maduros, de se perderem de vista, ondulando ao vento quando próximos da época de colheita?! E do lago, em cuja margem eu gostava de brincar, atirando pedras na água, para ver os círculos concêntricos que ela formava! E o riozinho que passava perto de nossa casa, onde nos banhávamos, minha mãe lavava roupa e meu pai pescava a mistura do jantar?! E a parelha de bois, batizados de Gaúcho e Gigante, presente de meu avô no meu quarto aniversário e que ajudavam meus pais nas rudes tarefas da propriedade rural?! Bem, a rigor, nem mesmo posso dizer que se tratam de lembranças banais, como afoitamente afirmei acima, de coisas que não influenciaram em minha vida. Por que? Porque influenciaram sim, e muito. Afinal, fizeram de mim poeta para o resto da vida! E isso não tem importância?!


* Jornalista, radialista e escritor. Trabalhou na Rádio Educadora de Campinas (atual Bandeirantes Campinas), em 1981 e 1982. Foi editor do Diário do Povo e do Correio Popular onde, entre outras funções, foi crítico de arte. Em equipe, ganhou o Prêmio Esso de 1997, no Correio Popular. Autor dos livros “Por uma nova utopia” (ensaios políticos) e “Quadros de Natal” (contos), além de “Lance Fatal” (contos), “Cronos & Narciso” (crônicas), “Antologia” – maio de 1991 a maio de 1996. Publicações da Academia Campinense de Letras nº 49 (edição comemorativa do 40º aniversário), página 74 e “Antologia” – maio de 1996 a maio de 2001. Publicações da Academia Campinense de Letras nº 53, página 54. Blog “O Escrevinhador” – http://pedrobondaczuk.blogspot.com. Twitter:@bondaczuk



Um comentário:

  1. Invejo o prodígio da sua memória. Não a tenho assim tão marcada.

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