Mentalidade coletiva
O
homem, como todos os animais, é um ser social. Só prospera, de
fato, quando age de conformidade com o grupo em que está inserido.
Ao contrário do leão, do tigre ou do urso, não demarca (e nem
luta) pelo território (pelo menos não ostensivamente) e nem se
digladia com outro macho pela fêmea de sua escolha. Submete-se a
leis, teoricamente universais e iguais para todos, e é sancionado
por elas caso as viole. Essa é a regra, pelo menos teórica, do
“jogo” social. Na prática...
Por
mais que o indivíduo busque desenvolver (e resguardar) a
individualidade, é sempre condicionado pelo grupo a que pertence.
Teme, por exemplo, entre outras coisas, as sanções sociais (e
também as legais, claro) caso não proceda de acordo com os ditames
a que se submete, tacitamente, mesmo que secretamente esteja em
desacordo com eles. Em contrapartida, sente-se compensado com os
aplausos e aprovação gerais aos seus atos quando tidos e havidos
como positivos e construtivos.
Cada
indivíduo compõe, pois, (com a respectiva parcela de contribuição),
o que chamo, grosso modo, de “mentalidade coletiva”. Temos,
todos, inúmeras atividades mentais, certa sabedoria, emoções e
pensamentos próprios, de acordo com nossa personalidade,
circunstâncias e experiências. As sociedades, contudo, também
contam com essas mesmíssimas características, às quais nos compete
nos adaptar quando estivermos em desacordo com elas.
Via
de regra, somos condicionados, pela educação que recebemos no lar,
na escola, na igreja etc. a essa adaptação. Porém, se tivermos
visão, valores e idéias melhores do que os da sociedade em que
atuamos, temos como (e devemos fazê-lo) transmitir essas
características (se forem, comprovadamente, melhores). Contudo, só
podemos fazer isso mediante o diálogo, o exemplo e o convencimento.
Nenhum indivíduo, isoladamente, consegue (e nem deve tentar) impor à
força seus conceitos pessoais ao seu grupo social, por melhores que
estes sejam. Será tragado e esmagado pela maioria. Fatalmente, irá
sucumbir.
A
recíproca, todavia, não é verdadeira. Se pensarmos e agirmos de
forma muito diferente da do grupo, e se não tivermos o talento de
convencer ninguém que nós é que estamos certos, só teremos uma
alternativa: ou nos enquadrarmos, ou buscarmos outra comunidade que
pense e aja como pensamos e agimos. Caso contrário... sofreremos
suas implacáveis sanções (não importa se justas ou injustas) e
seremos segregados como elementos estranhos, intrusos e nocivos,
quando não fisicamente eliminados.
O
chamado “espírito social”, ou seja, o conjunto de valores,
regras, tradições, conhecimentos, cultura etc. de determinada
sociedade, é, portanto, sempre obra coletiva. É a soma dessas
características, inerentes a cada indivíduo, que compõe a
perfeição ou a fragilidade de quaisquer comunidades, quer locais,
quer nacionais, quer regionais, quer (por extensão), planetárias.
O
líder budista, e primeiro presidente da organização Soka Gakkai
Internacional, Tsunesaburo Makiguti, observa, a propósito, com
inegável lucidez, em seu livro “Geografia da Vida Humana”: “O
cérebro da pessoa é uma célula que faz parte de um outro cérebro
mais vasto e orgânico, que é o da coletividade, e as ações
individuais estimulam umas às outras e se comunicam até que todos
os membros, trabalhando juntos, dão nascimento ao espírito social”.
Se
este é justo, humano e, sobretudo, solidário, os méritos,
evidentemente, são coletivos e têm que ser repartidos
proporcionalmente por todos os membros dessa sociedade. Caso seja
distorcido, excludente e egoísta, que privilegie o mais forte em
detrimento do mais fraco, o demérito é igualmente generalizado.
Afinal, o grupo social inteiro tem culpa por incorporar (e sancionar,
tacitamente) maus comportamentos de alguns, com a anuência ou
omissão da maioria, quando não de todos.
A
História não registra o sucesso de uma única sociedade nacional em
que imperasse a tirania. Tiranos, claro, o mundo já teve (e ainda
tem) inúmeros, que subjugaram (e ainda subjugam) povos a ferro e
fogo e tentaram (e tentam) impor, exclusivamente, suas vontades.
Conseguiram, é fato, por certo tempo. Contudo, como todos os seres
humanos, morreram (para a felicidade geral) e seus sucessores não
contaram (felizmente) com a mesma força deles – respaldada,
evidentemente, no cinismo, oportunismo ou covardia dos tíbios de
espírito – e seus reinados de terror desmoronaram como frágeis
castelos de cartas.
O
progresso dos povos, portanto, não depende nem de líderes
carismáticos e muito menos de verdugos que se imponham, somente,
pelas armas, quando não de paranoicos megalomaníacos que se julguem
“salvadores da pátria” e apregoem agir em nome de ideologias
supostamente igualitárias e nobres, na verdade fundamentadas em
dogmas falsos e em contestáveis sofismas.
Só
ocorre como conseqüência de um espírito social sadio e de uma
visão coletiva consensual e justa, em que as ações individuais
estimulem umas às outras pela excelência e se comuniquem até que
todos os membros trabalhem, espontaneamente, juntos, por aquilo que
melhor convém à sociedade e a cada um dos seus integrantes. Utopia?
Busquemos, pois, essa utopia!!!
Boa
leitura!
O Editor.
Acompanhe o Editor pelo twitter: @bondaczuk
Este tenho de reler.
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