quarta-feira, 31 de maio de 2017

A natural inconstância


As palavras soem ser sumamente ambíguas e dificilmente podemos tomá-las rigorosamente ao pé da letra para expressar o que quer que seja. Se você quiser ser bem entendido, sem que restem dubiedades e nem “n” interpretações ao que declara, explique tudo muito bem. Se for por escrito, não se preocupe com a extensão do seu texto, desde que seja objetivo e não fique pulando de um assunto para outro.

A escrita sintética pode servir a caráter ao editor (embora nem sempre), que tem que preencher espaços determinados de páginas de jornais e revistas, sem que haja letras a mais e nem a menos. Mas para o melhor entendimento do que se quer abordar, é a pior das medidas.

Tomemos como exemplo a palavra “constância”. Em primeiro lugar, os dicionários lhe emprestam vários significados, e não um único, o que a torna, liminarmente, “inconstante”. Isso, de cara, leva-o, ao abordar essa atitude, a se explicar bem, para deixar claro o que exatamente pretende dizer. Além dos significados que o termo de fato tem, há outros tantos que não tem, mas que sugere ter. Por exemplo, o constante nos remete ao que é “imutável”, ou seja, o que sempre ocorre de um mesmo jeito.

Nada, mas nada mesmo, todavia, tem essa imutabilidade. Pode haver algo que demore a mudar, mas que um dia muda, disso não tenham dúvidas. Nós mudamos, mesmo que não nos apercebamos disso, e não de um dia para outro, mas de um minuto (ou menos) para outro. Desconhecemos o que se passa no interior do nosso organismo e, notadamente, das nossas células, que estão sempre se alterando: nascendo, crescendo, se reproduzindo e morrendo.

Os dicionários (com ligeiras variações de um para outro), definem assim a palavra “constância”: “qualidade do constante, firmeza de ânimo, perseverança, coragem, duração, persistência, paciência”. Notaram quanta ambigüidade? Como falar, pois, sobre esse conceito, sem deixar as coisas muito bem explicadinhas?

Como ser constante, no que quer que seja, se as circunstâncias estão sempre mudando? Como deixar de acompanhar a volubilidade da natureza e da própria vida? Impossível. Podemos, sim, agir com constância, mas a relativa. A absoluta, posso dizer, sem nenhum receio de incorrer em exagero, simplesmente não existe.

A natureza é constante? De forma alguma. Não há dois seres vivos (e não me refiro somente a humanos ou a animais) rigorosamente iguais, nos mínimos detalhes. Tome uma espécie de árvore qualquer. As variações de espécimes serão infinitas. Escolha uma, aleatoriamente. Você não encontrará nela duas folhas que sequer se pareçam idênticas, quanto mais iguais. A natureza, pois, é inconstante. Absoluta e rigorosamente inconstante.

Reitero que me refiro, aqui, exclusivamente, à acepção de imutabilidade. Os educadores recomendam, por exemplo, que sejamos constantes em nosso processo de aprendizado. Embora não expliquem, claro que só podem estar se referindo à constância relativa, ou seja, à perseverança, à persistência de ação, à paciência.

Você jamais poderá, em todos os dias da sua vida, aprender de forma igual, pois você será diferente. O ambiente ao seu redor, embora lhe pareça o mesmo, estará modificado. As circunstâncias estarão. O tempo estará. A vida estará. Tudo, absolutamente tudo, estará.

Foi nesse sentido que Aldous Huxley afirmou, no ensaio “Sobre a democracia e outros estudos”: “A constância é contrária à natureza, contrária à vida. As únicas pessoas completamente constantes são os mortos”.

Porém, como as palavras são ambíguas, esta declaração requer, igualmente, explicações, para não gerar dubiedades e múltiplas interpretações. O autor de “Admirável mundo novo” não se referiu, aqui, à constância relativa, mas à absoluta, ou seja, à imutabilidade (daí eu ter recorrido a ele para ilustrar estas considerações).

Se quisermos evoluir, quer mental, quer moral, espiritual e até materialmente, devemos ser constantes, sim. E muito. Mas no sentido da perseverança (quando o que estivermos fazendo for positivo e, sobretudo, construtivo), persistentes (se possível às raias da teimosia) e pacientes. Como se vê... tudo é relativo.

Boa leitura!


O Editor.


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Um comentário:

  1. O cadáver é mutante, e muito, até se desfazer e virar pó.

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