terça-feira, 30 de maio de 2017

Imagens enganadoras


A fotografia é um milagre, embora seja tão comum, trivial e corriqueira, hoje em dia, ao ponto de não nos damos conta da maravilha que é. Não houvesse eu nascido muitos anos após a sua invenção, certamente consideraria impossível a mágica de captar paisagens, pessoas e coisas, num determinado momento do tempo, e eternizá-las. Hoje tudo pode (e é) fotografado, desde estrelas, constelações e galáxias, tão distantes que já estão extintas há milhões de anos, mas cuja luz só está chegando agora à Terra, até o interior de um átomo.

Mais miraculosos, ainda, são os filmes, que nos permitem não somente ver imagens estáticas, mas, principalmente, as em movimento, eternizando ações. E podemos não somente “ver” pessoas agindo, em uma representação ficcional ou na realidade (quando se trata de notícia), mas ouvi-las, como se estivessem ali, à nossa frente, agindo em tempo real, mesmo que já tenham, até mesmo, morrido há muito tempo e delas só restem alguns fragmentos de ossos e os cabelos, se tanto.

Esses processos são ou não miraculosos? Hoje em dia, qualquer pessoa pode captar a imagem que quiser, com sofisticadíssimas câmeras digitais e até com seus inseparáveis celulares, que se tornaram multiuso, sem que isso cause admiração em ninguém. Admirados os outros ficam se nos admirarmos desse milagre. Suspeito que até os mais rudes silvícolas, com escassíssimos contatos com o que chamamos de “civilização”, já disponham desses equipamentos. E se não dispuserem, disporão a qualquer momento.

Mesmo valorizando esse “milagre” da modernidade, não posso, porém, e não devo me esquecer que imagens podem ser sumamente enganosas e, por extensão, enganadoras. Com os equipamentos disponíveis, são facílimas de serem manipuladas e fraudadas. E as fraudes, não raro, são tão perfeitas, que enganam aos mais ilustres e competentes peritos.

O leitor talvez se lembre de um caso emblemático, que provocou muito bochicho em meados dos anos 70 do século XX – em plena efervescência da chamada Guerra Fria – na extinta União Soviética. Tratava-se de uma fotografia do então homem forte do império soviético, Leonid Brezhnev, com seu secretariado.

Parcos anos após, a mesma foto foi divulgada, se não me engano, no “Pravda”, mas sem a presença de um dos colaboradores do ditador, que havia caído em “desgraça política” (e isso porque “pravda”, em russo, significa “verdade”. Imaginem se significasse “mentira”!)..

A imagem foi tão bem fraudada, que parece que o sujeito se “evaporou” da fotografia sem deixar o menor vestígio. O erro dos fraudadores foi o de não destruírem a foto original. Bastou comparar as duas, a que de fato foi tirada num determinado dia e a fraudada, para descobrir a manipulação. E olhem que naquele tempo a informática ainda engatinhava. Não havia, por exemplo, um Photoshop ou outro dos fantásticos programas atuais de tratamento de imagens quaisquer.

Se então essa enganação foi possível – tanto que foi praticada – imaginem hoje. Quem sabe lidar bem com o instrumental existente, pode manipular qualquer fotografia, sem que haja condições de alguém comprovar a fraude. Nada me impede, por exemplo, de colocar-me no solo lunar, deixando a marca das pegadas dos meus pés em sua superfície, vestindo trajes de astronauta, como se houvesse um dia viajado para o satélite natural da Terra. Nem é preciso destacar que sequer em meus mais delirantes sonhos participei desse tipo de odisseia. Estou longe de ser lunático!

Mas a fotografia não foi inventada para que pilantras mal-amados e corruptos convictos a utilizassem para enganar quem quer que seja. Essa miraculosa capacidade de fixar imagens tem, atualmente, serventias muito mais nobres e úteis do que as meramente informativas ou reminiscentes. Entre tantas utilidades, tem servido de precioso instrumental, por exemplo, para médicos, em sua incansável faina de salvar vidas.

É possível fotografar, por exemplo, nos mais variados ângulos que se precise, qualquer parte do corpo humano. Essas fotos, digitalizadas, podem ser salvas em computador. Programas recentes permitem que sejam exibidas em três dimensões. E assim, se corretamente trabalhadas, tendem a ser mais úteis e informativas aos cirurgiões do que as velhas radiografias. Assisti, não faz muito, um documentário a respeito no canal de televisão a cabo “Discovery Science”.

Muitos médicos, mundo afora, já substituem as “velhas chapas” de raios-x, e o equipamento que lhes permitia visualizá-las, na sala de cirurgia, pelo computador, obviamente com vantagens. Com isso, limitam a quase zero a possibilidade de cometerem erros ao operarem algum paciente.

Recentemente, escrevi uma crônica, contestada por alguns, destacando que a visão é um dos órgãos mais enganadores que nós, humanos, temos, e expliquei as razões. Ressaltei, em especial, a questão do ponto de vista. Se as imagens, em tempo real e ao vivo, nos induzem a esmagadores enganos e, muitas vezes, fatais, imagine, amigo leitor, o que não acontece com fotografias e filmes, passivos de manipulação e fraude tão bem-feitas que se aproximam da perfeição?!


Boa leitura!


O Editor.


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Um comentário:

  1. Não podemos mais acreditar em nossos olhos. Nem em nossos ouvidos.

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