D.
Pedro e sua corte: uma crônica nua e crua
* Por
José Ribamar Bessa Freire
Para
Carmen e Betty, eternas gatinhas.
O
ex-quase-futuro ministro Carlos Marun (PMDB-MS vixe vixe), puxa-saco
rebolativo da tropa de choque do Temer-Cunha e o deputado presidiário
Celso Jacob (PMDB/RJ vixe), contrabandista de queijo provolone na
cueca, deviam ser tema desta coluna semanal. Felizmente nos livramos
de figuras tão abjetas graças a dois livros. Um deles, da
antropóloga Betty Mindlin, acaba de ser publicado – Crônicas
Despidas e Vestidas.
O outro, da escritora e jornalista Ana Helena Tavares, está quase no
prelo e só sai em 2018. Quem faz a ponte entre eles é o nosso D.
Pedro.
D.
Pedro I ou II? Nenhum dos dois. O Pedro, que é “nobre”, não nos
pertence. O nosso é o “pobre”: Pedro, o único. Pedro
Casaldáliga, bispo emérito de São Felix do Araguaia, de 89 anos.
Sua biografia – Um
bispo contra todas as cercas –
está sendo finalizada pela autora, que me procurou por causa da
entrevista que fiz em julho de 1979 para o jornal Porantim.
O título, em plena ditadura, berrava: “SÓ O SOCIALISMO PODE
SALVAR OS POVOS INDÍGENAS”. Lá, D. Pedro propõe “destruir as
estruturas do pecado e criar novas formas de fraternidade e
igualdade”.
Compartilhei
com Ana Helena o livro de Betty Mindlin, dividido em duas partes.
As crônicas
despidas “dedicadas
a povos que não cobriam o corpo em tempos antigos”, contêm
narrativas míticas, reflexões sobre formas de circulação da
memória e de preservação do patrimônio,depoimentos
sobre a luta indígena, umas travessuras cometidas em favor dos
índios e textos sobre a música dos Wari –
os Pakaa-Nova e
sobre a melodia amorosa dos Ikolen de
Rondônia, conhecidos como Gavião.
As
travessuras
Entre
as traquinagens, Betty conta a audiência que teve, em 1984, com o
então presidente da Funai, Jurandyr Fonseca, para solicitar que
examinassem juntos o laudo antropológico elaborado por Ana
Lange – um dossiê com farta documentação que justificava a
demarcação da terra nambiquara e que lhe havia sido entregue no mês
anterior.
-
Ainda não recebi o laudo e nem sabia de sua existência. Teremos que
esperar até que me seja enviado – mentiu o Jurandyr Fonseca, perna
fina e boca seca.
Nisso,
a secretária o chamou para que atendesse um telefonema na outra
sala. Betty aproveitou para abrir a gaveta do "Boca Seca" e
lá estava o volumoso dossiê. Ela não contou com conversa: retirou
o catatau de papel e quando o mentiroso chegou lhe disse:
-
Presidente, que pena não estar na Funai o documento.Mas
eu trouxe uma cópia. Vamos examiná-la?
Outra
crônica reproduz um depoimento desgarrador de Pedro Arara Karo, que
faz parte do Arquivo Sonoro Aramirã, da autora, em parte
digitalizado, com registro de vozes indígenas, cuja cópia merecia
estar no Museu do Índio/RJ. OArara
narra como achou no meio da floresta o cadáver do jornalista e
indigenista Possidônio Cavalcanti, um menino alegre e sorridente com
quem trabalhei no jornal O PAIZ, morto com três flechadas e dois
tiros: “a cabeça dele, você pegava, parecia milho no papo da
galinha. Ficou todo moído”.
O
que interessa, porém, à biógrafa de D. Pedro está nas crônicas
vestidas, que
falam de personagens marcantes na vida de Betty, especialmente aquela
em que relata como conheceu D. Pedro e D. Tomás Balduíno, pilares
do Conselho Indigenista Missionário (CIMI) e da Comissão Pastoral
da Terra (CPT). Foi num curso de indigenismo ministrado, em 1976, em
Goiás Velho, pela antropóloga Carmen Junqueira, que então era sua
orientadora de doutorado na PUC/SP e que a convidou para
acompanhá-la.
Crônicas
vestidas
Com
invejável experiência de trabalho de campo, Carmen havia defendido,
em 1967, sua tese de doutorado sobre Os
Kamaiurá e o Parque Nacional do Xingu e
estava comprometida incondicionalmente com a luta em defesa dos
direitos indígenas. Presa em 1969 pela Operação Bandeirantes
(OBAN), de nome sugestivo, ela foi trabalhar depois com os Cinta
Larga, no Parque Indígena do Aripuanã, onde viviam também os Suruí
e os Zoró. Agora, sua missão, no curso do CIMI, era
contribuir para a construção de uma pastoral indígena
antropologicamente responsável.
Do
curso faziam parte índios, indigenistas, agentes de pastoral, padres
e freiras:
-
O dia começava cedíssimo, com sinos e horários para o café da
manhã. As reuniões eram subdivididas em grupos. As pessoas,
sentadas em círculo, em bancos de madeira, à sombra de árvores
generosas, expunham sua situação, as ameaças e violência
sofridas, a luta pela terra, as tradições e os rituais. Foi
um impacto ouvir a miríade de nomes dos povos, em línguas tão
estranhas, que a maioria dos brasileiros não sabia serem nossas. –
escreve Betty.
Ela
conta que na sessão da noite, ao entrar na sala, faltou energia na
região e as luzes se apagaram. Quando as lâmpadas se acenderam,
quase desmaia de emoção. Seu vizinho de carteira “era nada mais
nada menos que D. Pedro Casaldáliga, magro, nariz aquilino, cabelos
lisos e esbranquiçados, os “olhos sacis” e um sorriso de
simpatia”.
O
trio elétrico
Betty
descreve como os bispos libertários D. Pedro e D. Tomás “se
agasalharam de imediato no manto sedutor de alegria de Carmen, em sua
sede de justiça, em seu fascínio feminino. Formaram um trio
divertido: os dois bispos e a batalhadora passional, a libertária
destemida, a grande amiga e conhecedora dos Kamaiurá. Passaram a
sentar juntos
às refeições, a conversar nos intervalos”. Num dos almoços,
Betty ouviu os dois bispos brincarem com Carmen, afirmando que ambos
gostariam, não fossem os graves impedimentos, de se casar com ela,
cada um disputando a primazia. Risadas deliciosas enfeitaram a
brincadeira.
O
que os bispos não sabiam, mas podiam imaginar, era que os candidatos
proliferavam. Carmen chegou até a ganhar de um grande pajé do Xingu
um colar de garras de onça, colar de noivado. Entrariam na disputa,
não fossem os impedimentos, certo chefe da Aldeia Kamaiurá, toda a
torcida do Rio Negro, além de professores e alunos da Universidade
do Amazonas que, em 1978, participaram do Curso de Antropologia
Amazônica ministrado em Manaus por ela, que passou por lá como um
furacão. Os participantes anotavam até seus suspiros. Se fosse
possível, teríamos feito com ela o que fizemos com seu texto: uma
xerox de sua pessoa para cada um ficar com uma cópia.
Um
aluno de letras e ator do Teatro Experimental do Sesc/Amazonas,
Herbert Braga, hoje professor da UFAM, no último dia de aula, com
voz trêmula que não escondia seu fascínio, perguntou:
-
Mestra, se tivesse que indicar um único livro para a formação de
um bom antropólogo, qual obra recomendaria?
Carmen
que havia desfilado no curso todos os Boas, os Malinowski, os
Pritchard, os Mauss e os Lévi-Strauss, olhou para um lado, para o
outro, como querendo se certificar que não havia nenhum policial na
escuta. Com gestos de Giulietta Masina, que tanto encantaram Federico
Fellini, foi conclusiva:
-
Vá ler O Capital, de Marx. Lá está o essencial.
Não
sei se o Herbert leu. Mas essa era a Carmen, que encantou D. Pedro e
D. Tomás. Betty, que lhe faz homenagens no livro, pede desculpas à
sua ex-orientadora “pelas inconfidências e imprecisões dessas
notas”. Mas foi precisa na descrição:
-
“Sua figura era um mimo: mocinha de olhos azuis, com um movimento
corporal que nunca vi em ninguém, feminino e firme como os
dançarinos da Ópera de Pequim, mestra, modelo, companheira,
guerreira engajada nas causas sociais, conferencista ímpar, sedutora
e magnética”.
Pedro
e Tomás tinham razão em se render a esses encantos...
P.S.
- A montagem da foto acima foi feita por José Amaro Jr. das Ugagogo.
*
Jornalista e historiador.
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