Daniel
Cabixi, o sábio, na cova dos leões
* Por
José Ribamar Bessa Freire
O
sábio Pareci, Daniel Matenho Cabixi, falecido na madrugada desta
quinta-feira (16), foi homenageado pela Universidade do Estado do
Mato Grosso (UNEMAT), que guardou um minuto de silêncio durante a
plenária do seu 3º Congresso, em Cuiabá. “Ele viajou ao encontro
de Enore,
o Criador” – disse no velório celebrado na aldeia Wazare, em
Campo Novo, um dos seus filhos, o cacique Rony, formado no Curso de
Licenciatura Intercultural. Nessa viagem sem volta não precisou do
passaporte que lhe foi negado para outras.
Daniel
Cabixi ficou internacionalmente conhecido quando, em 1979, a ditadura
no Brasil lhe negou o visto de saída para ir a III Conferência dos
Bispos Latino-Americanos em Puebla, no México, convidado pelo
próprio papa João Paulo II. A gritaria, porém, foi tanta que, um
ano depois, lhe permitiram ir ao Peru, mas com um passaporte amarelo.
Viajamos juntos e, por causa do bendito documento, passamos
constrangimentos no aeroporto e no hotel em Lima.
De
qualquer forma, lá no Cuzco, Daniel pôde dizer tudo aquilo que não
lhe deixaram falar em Puebla. Numa entrevista publicada na
revista Amazonia
Peruana,
com a participação de um líder Shipibo do alto Ucayali, o líder
Pareci discutiu o movimento indígena e suas lutas, a posse da terra,
o Estado e sua política indigenista, a educação bilíngue e
intercultural, a relação com igrejas e academia, que aqui resumo,
complementando com falas posteriores publicadas em outras fontes.
No
grotão dos leões
Daniel
relatou sua experiência na escola, mas não explicitou que foi
colega de sala do Gilmar Mendes no Ginásio jesuíta, em Diamantino
(MT). Ele foi. É. Desse ai mesmo, ministro do STF. O próprio Gilmar
usou recentemente o fato de ter convivido com ele e outros índios
para alegar que conhecia bem a realidade indígena e que, por isso,
tinha legitimidade para defender o agronegócio. Em reflexão
anterior, Cabixi já havia denunciado:
-
“Os
fazendeiros têm uma política bastante nojenta. Eles dizem que os
índios são preguiçosos, vagabundos. Essa é a política deles.
Dizem que o índio não trabalha e, portanto, não precisa de terra.
Mas nós nascemos nessa terra, somos filhos dessa terra e estamos
aqui antes deles, que são gananciosos, predadores e trazem
destruição”.
Órfão
de pai, Daniel foi separado ainda pequeno de sua família e internado
no Lar do Menor, mantido pelos jesuítas em Utiariti, Diamantino
(MT), sede da fazenda dos Mendes. Por isso – ele diz com
distanciamento crítico – “não
cresci na aldeia junto com a minha mãe, meus tios, meus avós e
bisavós, o que não me deixou conhecer as tradições do meu povo.
Esse padrão de escola, desestruturador, não reconhecia as culturas
e os saberes indígenas, proibia o uso da língua materna e exigia
que o português fosse a única língua”.
Além
disso, aqui pra nós, compartilhar a mesma sala com Gilmar Mendes, é
dose. As consequências foram desastrosas, mas Daniel salienta que
foi possível sair milagrosamente vivo da cova dos leões:
- “A
minha geração, que sofreu esse modelo de ensino, até hoje sente
dificuldades em restabelecer os laços com a tradição para buscar o
saber tradicional junto aos velhos, que são seus guardiões. Foi
preciso criar uma estratégia contra a desagregação cultural,
contra essa perda irreparável. Perdi, mas também ganhei alguma
coisa. A escola, apesar de alienante, me deu subsídios para entender
o contexto em que fui criado e as necessidades dos Pareci, Nambikwara
e Irantxe que habitam a região”.
Dessa
forma, Daniel tomou conhecimento da “organização do mundo branco
atual, saturado de desconfianças, ódios e ganância, onde impera a
lei do mais poderoso, daquele que tem mais bens materiais, que são
educados para explorar e destruir seus semelhantes”.
Historicamente, o território tradicional Pareci foi invadido no séc.
XVIII, quando descobriram lá dentro minas de ouro. Depois vieram os
bandeirantes, as linhas telegráficas, as igrejas, as estradas, os
gilmares, o capiroto e o diabo a quatro.
A
biodiversidade
Quando
concluiu a sétima série, em 1972, Daniel foi passar férias na
Aldeia de Rio Verde, em Tangará da Serra, e por lá ficou,
mergulhando na cultura Pareci. A vivência na região bem na
fronteira da bacia Amazônica e da bacia do Prata, permitiu que ele
usasse os saberes tradicionais e aqueles adquiridos na escola para
observar o ecossistema próprio da Chapada dos Parecis, transformado
num grande tapete de soja, arroz, milho, canavial, o que mexeu com a
vida dos índios, das árvores, dos pássaros, dos rios, dos peixes.
Daniel
Cabixi, índio Pareci, era reconhecidamente um intelectual produtivo.
Suas observações foram registradas no artigo – “As
Tecnologias dos Povos Indígenas na preservação do meio ambiente” –
que escreveu para a Conferência Mundial das Nações Unidas
realizada em junho de 1992, no Rio de Janeiro. Durante sua estadia na
Rio-92, recorreu à Clínica Odontológica da UERJ para tratamento de
problema dentário, quando nos cedeu seu artigo, editado
artesanalmente pelo Programa de Estudos dos Povos Indígenas.
Trata-se
de um texto de 40 páginas com cinco capítulos. No primeiro discute
a tecnologia dos povos indígenas da Amazônia para a preservação
dos ecossistemas e da biodiversidade. O segundo trata dos
conhecimentos etnobiológicos e etnofarmacológicos e sua
aplicabilidade na medicina ocidental. O terceiro aborda a troca de
conhecimentos entre os povos indígenas e a comunidade científica. O
quarto traz sugestões para a preservação das florestas tropicais.
Finalmente o quinto finaliza com recomendações a ONU.
Daniel
traz muitas informações valiosas como aquela que se refere aos
Mẽbêngôkre Kaiapó que classificam mais de 50 tipos de diarreia,
cada qual tratada com remédios caseiros específicos, com uma
taxonomia mais sofisticada, nesse caso, do que a da medicina
ocidental. Defende a necessidade de se ter uma compreensão efetiva
dos conceitos indígenas de saúdes e doença para que a ação
médica seja mais eficiente.
-
“A
etnofarmacologia e a etnomedicina podem, portanto, ajudar os
cientistas a compreender melhor as moléstias e seus sintomas, bem
como a validade de tratamentos diferenciais, em regiões específicas.
Novos preparados farmacêuticos e fontes adicionais às existentes
podem tornar mais acessíveis os tratamentos advindos da medicina
popular e ocidental” –
ele escreve.
Passaporte
amarelo
Daniel
Cabixi publicou artigos no Porantim, do qual foi correspondente em
Mato Grosso. Participou das assembleias indígenas e da 3ª
Assembleia Geral do Conselho Indigenista Missionário (CIMI),
realizada em julho de 1979, em Goiânia, que aprovou documento no
qual a Igreja Católica reconhece os erros históricos e se
compromete a mudar sua prática missionária. Participou de eventos
acadêmicos como o Congresso de Leitura do Brasil (COLE) na Unicamp e
deu conferências em muitas universidades, incluindo a Universidad
Nacional Mayor de San Marcos, em Lima.
Com
essa bagagem, foi chamado em 1985 pela FUNAI para ser professor,
tornando-se anos depois Coordenador de Assuntos Indígenas do Estado
de Mato Grosso. A luta indígena em defesa do conhecimento
tradicional foi um dos temas abordado por ele, em 1980, no Encontro
de Movimentos Índios da América do Sul realizado em Ollantaytambo,
no Cuzco, Peru. Para poder sair do Brasil, depois de muita pressão,
o Itamaraty lhe deu um passaporte, mas aquele amarelo, que se concede
a quem tem nacionalidade indefinida, aos refugiados e aos apátridas.
Como
o voo Lima x Cuzco foi cancelado e transferido para o dia seguinte, a
Aeroperu nos hospedou no Hotel Savoy, no centro de Lima. Lá, o
recepcionista olhou com desconfiança o passaporte amarelo e chamou o
gerente para avaliar aquele estranho documento que, na realidade,
devia envergonhar o governo brasileiro capaz de tratar como
estrangeiro um índio aqui enraizado há mais de 5.000 anos. Hoje,
aquele outro Brasil, solidário, que acompanha a luta indígena, se
despede do intelectual e combatente Pareci, que sobreviveu aos leões,
em cuja cova falta agora lançar aqueles que vocês já sabem quem
são. Nossos pêsames à família enlutada: Maria Adilis e os filhos
Rony, Selma, Nayara, Sirlene, Genilson e Evandro.
P.S.
Um pouco da produção de Daniel Cabixi:
1) La
población indígena del Brasil a través de Daniel Matenho Cabixi.
Entrevista a Nilda Guillén y José Bessa. Amazonia Peruana. N° 5,
Vol. III. Junio 1980. (Pgs. 135-141). Lima – Peru.
2) As
Tecnologias dos Povos Indígenas na preservação do meio ambiente.
Rio. Uerj. 1992. Mimeo
3) O
pensamento de Daniel Matenho Cabixi. Nimuendaju.
Boletim da Comissão Pro-Indio/RJ. Ano 1, N° 1 –
Jan-fev.1979. Bernardo Karan (org). Editor Marcelo Beraba.
4. Educação
Escolar entre os Pareci, Nambikwara e Irantxe no contexto
socioeconômico da Chapada dos Parecis – MT.
In Juracilda Veiga e Andrés Salanova (orgs). Questões de educação
escolar indígena: da formação do professor ao projeto de escola.
Brasília. Funai/Dedoc. 2001 (12° Encontro COLE – Congresso de
Leitura do Brasil. Unicamp. 1999)
*
Jornalista e historiador.
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