Deus não dá sinal de fax
* Por
Eduardo Murta
A geografia de cada um
dos degraus Agostiniano poderia descrever com familiaridade ímpar. A
falha no 18º, à esquerda. A cavidade no 63º, ao centro. O ligeiro
desnível no 207º. Se acostumara, menino, às escadas sem fim que
haviam inaugurado uma anatomia peculiar às ladeiras do velho Serro.
A criançada descendo, ele subindo. Vinha desviando dos queijos e,
contam, chegava sem gota de suor ao 241º dos passos. Dava com a
capelinha e ficava ali por horas, como esperasse um sinal.
Era com Deus, o próprio,
que pusera missão de falar. Achava que o alcançaria mais ampla
fosse sua coleção de provações. E fez história assim. Escanteava
os doces de Vó Sabrina, passava ao largo dos circos mambembes. Até
às sessões das noitinhas de quinta, em que Lucrécio alinhava casos
de assombrações pagãs, renunciara. Tudo a que, reconhecidas suas
privações, a magia do encontro se materializasse.
Ali pela sombra dos 12
anos cairia numa espécie de enclave existencial. Uma quase
enfermidade. A entender alguns dilemas como a maçã diante de Eva. E
já se decidira. Não a morderia. Começou por desviar os olhos dos
olhos insinuantes da menina Gioconda. Tangenciava diante do corpo em
pêra da professora Madu. As ancas num ondulado provocante a cada
equação que ia revelando ao quadro-negro. Sonharia com seu perfume
noites afora e, insone, na confluência entre desejo e pecado, se
refugiava no espetáculo generoso que era a transição entre
madrugadas e manhãs. Em nome do esquecimento.
Sem que se livrasse do
efeito tentador, topava com ele até nos momentos mais sagrados.
Sentia a hóstia converter-se em brasa, mesmo nos domingos em que se
enxergava fortalecido, pleno. Foi que, provocado, escolheu um caminho
ortodoxo a perder de vista. Se lhe exigiam uma costela, daria todo o
conjunto da espinha. Naquele 14 de junho, se inscreveria na cota
espontânea dos homens celibatários do Serro. Era clube sem sócio,
mas alguém haveria de fundá-lo. Fora ele. E, paradoxo, se
transformaria em agente especial de cartório. Agostiniano, mangas
sobrando ao terninho simples e desconjuntado, lendo os termos aos
noivos. Chegava a umedecer os lábios, nas urgências do corpo e do
coração.
Se resignava, porém,
crendo que encurtava os trajetos para a ceia da alegria. E começou a
ver significados de glória não nas miudezas comezinhas, mas no que
tivesse ordem de grandeza criadora. Interpretou milagre, primeiro,
nas mãos de Sá Carolina apagando a lamparina para dar-se a
escuridão. E, em seguida, o clic da chave girando. Os rostos em
círculo ganhando formas sem o sombreio da chama antiga. Fez-se a luz
e veio foi gente visitar. O mundo agora sob as bênçãos da
eletricidade.
Sacralizou, na mesma
medida, as vozes chegando assim ao léu pelas ondas do rádio. Com
aquela onisciência de que, sem conhecê-lo, saber que ele estava
ali. Anos à frente, deificaria mais ainda aquelas caixas imensas em
que faltavam tocá-lo. Surpreendia serem pessoas, das de carne e
osso, se movendo na tela da tevê. Agostiniano seguro de que em algum
lugar da agenda divina seu nome estaria bordado em fios de seda. E
dos nobres!!!
Revigorou as certezas
algumas décadas depois, pelas mãos da sobrinha Katita. Era cedinho
quando ela ligou. Tomou aos dedos o telefone negro, artigo da velha
guarda. Ela ao celular, na outra ponta. Chamava da Basílica de Nossa
Senhora Aparecida. Se aproximou da imagem e, brejeira, deu o sinal
verde: "Pode falar, que a santinha vai lhe ouvir".
Experimentou sensação de paraíso e, certo de que ela o
compreendia, foi sucinto: "Me guia". Dormiu feito fosse
passarinho. E fez planos para o dia seguinte, sem se esquecer das
provações.
É ele, cabeça alva,
lento ao 111º degrau das escadarias do Serro. O Criador que fosse
paciente e misericordioso. À tardinha, estaria aos últimos passos.
Foi já ao 240º que notou. A figura esguia, acima, lhe estendendo as
mãos. Bateu com aqueles olhos cuja lembrança com ele viajara por
anos a fio. Inconfundíveis. Sorriu para Gioconda, a dos bancos de
escola. Traduzia sentimento menino, tardio e maduro a um só tempo.
Revelador. Sentiu formigar-lhe leve o coração, jeito abobalhado.
Era amor. Era síntese. Era Deus naquelas doses singelas de querer.
*
Jornalista,
autor de "Tantas Histórias. Pessoas Tantas", livro lançado
em maio de 2006, que reúne 50 crônicas selecionadas publicadas na
imprensa e “Minhas condolências à senhora Vera”, lançado em
dezembro de 2010, com 50 contos. Publicou, também, em parceria, o
livro “Galo – uma paixão centenária”. Já teve passagens
pelos jornais Diário de Minas, Estado de Minas e Hoje em Dia, além
de Folha de S.Paulo e revista Veja. Foi um dos colunistas pioneiros,
e mais aplaudidos do Literário.
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