Paris
* Por
Laís de Castro
Era uma clara sexta-feira de
manhã quando tudo começou. Se algum dos presentes adivinhasse o
furacão que se desencadearia a partir de então, imagino, fugiria de
lá antes que houvesse sido dado o pontapé inicial. Que também foi
involuntário. Do jeito que ela vinha guiando aquele carro, devagar,
não era para atropelar o cara. E, na velocidade que foi atropelado,
ele não tinha nada que morrer depois de dois dias, com a cara toda
arrebentada, só porque bateu no pára-brisa. Não havia ninguém que
a condenasse, mas como sempre acontece, culpa-se quem não é culpado
e restam aquelas hordas de criminosos soltos por aí. Não digo por
revolta, mas, caramba. Uma mãe de família, dedicada, lutadora, que
atropela um andarilho a 20 por hora, tem que ser processada? Tudo
bem, é a lei, mas que lei é cumprida quando se trata de, por
exemplo, um ricaço? Não tem aquela coisa de arquivar tudo por falta
de provas? Não tem? Ah, tem, se tem.
Todo mundo que está aqui,
velando essa moça, que é assim que acaba esta história e eu não
consigo deixar de contar o fim antes do começo. A gente sabe que
tem um monte de gente que alimenta contas com milhões de dólares no
estrangeiro que se livra de cada crimão. Fico revoltada e me
embaralho, mas não é por isso que conto o fim da história. Eu
conto porque não tenho nenhuma vocação para escrever livros de
detetives e nem para ler, porque depois de uns três capítulos, leio
o último para saber quem é o assassino. E sempre erro. Nunca
consegui ganhar um jogo de detetive, aquele em que dois grupos
disputam quem descobre antes o criminoso. Nunca tive nenhum tipo de
dedução lógica, sempre errei. Por isso já fui contando o fim da
história.
Uma pena isso, porque acaba
com o suspense, mas tudo já é tão intricado que não há suspense
que resista. Bem, depois daquele atropelamento começaram a acontecer
fatos estúrdios e bizarros, como, por exemplo, aparecer uma camisa
velha e ensangüentada na casa dela.
Sendo sua melhor amiga fui
chamada para testemunhar o fato, ela me falou em tom de descrença e
repugnância que desde a partida do marido, nunca tinha havido uma
camisa de homem por lá. Até porque tem duas filhas. Diga-se de
passagem, partida desta para melhor, o marido tinha morrido há
poucos meses.
Depois veio a perna de uma das
meninas, quebrada no tombo da bicicleta, o processo pelo
atropelamento, a outra filha reprovada na escola, algo também nunca
dantes navegado. Não há um sem dois e nem dois sem três, diz o
ditado popular, mas ali não haveria seis sem sete, sete sem oito.
Quando o pai dela morreu, numa
cidade distante três horas (de avião) e a passagem foi comprada em
prestações para ir ao enterro as coisas ainda não tinham atingido
o limite do insuportável. As pessoas compareciam, ouviam, falavam,
havia presenças amigas na casa. Isso foi desaparecendo na mesma
medida em que o terror foi aumentando.
O raio na pia da cozinha que
mandou a empregada para o hospital foi pouco diante do caminhão de
lixo que derrubou o muro e matou o cachorro. O silêncio dos vizinhos
era também pouco considerando os olhares de espanto de todo o
vilarejo. Espanto, essa é a palavra. Todos estavam tão apopléticos
diante dos fatos, que ninguém mais reagia. Onde ela pisava, parecia
não nascer mais grama. A mesa em que ela jantava com as crianças,
no restaurante, ficava vazia por uma semana e só voltava a ser
ocupada por algum incauto vendedor vindo de fora que, acreditava-se,
então, “limpava” a maldição e liberava o local para novos
clientes.
Distraída, ela não tinha
notado ainda este tipo de comportamento. Quando apareceu com o carro
novo, todos se entreolharam, que nova desgraça viria agora? Três
meses se passaram na mais perfeita ordem e na mais perfeita paz,
porque, como diz outro ditado, não há mal que sempre dure e nem bem
que nunca se acabe. Isso é bom de ouvir. Se o fim de semana acaba,
sabemos que a semana de labuta também vai ser vencida e assim por
diante.
Como um chope vem depois do
outro, um olhar depois do outro, depois do fim vem o recomeço e
assim, recomeçaram as desditas desta pobre mulher que está aqui
agora prestes a ser levada à cremação porque deixou por escrito
essa vontade.
Um dia, conversando, ela
também me disse isso: “Quero ser cremada, nada de ficar lá
fechada, quero minhas cinzas voando por aí, assombrando todo mundo o
tempo todo e é isso que eu temo que possa acontecer e que esta
cidadezinha vire uma cidade fantasma, pois ela já anda tomada pelo
medo e ninguém mais sai à noite, a não ser os bem jovens, que não
têm vocação para ver televisão e nem tino para entender temores”.
Da segunda vez que começou
aquela onda de arrebatação negativa, as manifestações eram
diferentes, não havia mais sangue e nem ossos quebrados, mas
prejuízos do tipo contas de telefone de duzentos mil reais e avisos
de que o imposto de renda tinha encontrado um débito de quatro anos
atrás. Sem contar a explosão, sem vítimas, do motor da máquina de
lavar roupa e outros pequenos pesadelos que levam as pessoas à
loucura. Parecia haver um boicote organizado pelo destino contra ela,
pois a cada semana uma pedra de 500 quilos caía sobre sua cabeça
para amolar e desolar.
Eu, com essa minha preguiça
ancestral, se tivesse que resolver um décimo daqueles problemas, já
desistiria. Nada disso, não resolvo. Deixa que desliguem o telefone,
lavo a roupa na mão ou bato a abominável roupa no liquidificador,
pago a divida no imposto de renda, mas não ando atrás de nenhum
burocrata nesse mundo para resolver feitiçarias menores.
Não dou o menor valor para a
vida, olho em volta e acho tudo uma bobagem, o carrão bacana do
vizinho, as jóias da vizinha, detesto os intelectuais de esquerda e
de direita e abro um sorriso de dentes escurecidos pelo cigarro a
quem fica falando que vou morrer de câncer no pulmão. Nem um minuto
dessa vida pervertida e inútil eu gastaria para diminuir minhas
penas num tribunal por homicídio doloso ou culposo, sei lá, que nem
sei qual é aquele considerado de propósito ou o sem querer. Não me
formei em direito e não quero exercitar minha memória. Se não
fosse uma herdeira por natureza, viveria embaixo de uma ponte para
poder descansar.
Ela corria de cá para lá, de
lá para cá, se safando de uma por uma das perseguições vitalícias
do azar, não fala essa palavra que pega, diga falta de sorte, amém.
E me chamava para testemunhar. Meu infortúnio, ou a mais profunda de
todas as desditas, ou seja lá o que for, começou numa dessas
chamadas para testemunhar fatos incomuns. Ela inventou que, se algo
acontecesse, eu cuidaria de suas filhas. Pela primeira vez em toda a
minha porcaria de vida, não dormi bem. Tive insônia, imagine. Eu,
que não sabia o que era isso até aquele dia, que sei muito bem que
dia era, mas não vou dizer, só vou mencionar que o mês era agosto,
de cachorro louco. Fiquei ali, sentada na cama, o corpo cheio de
conhaque, acendendo um cigarro no outro, pensando no sorriso lindo
daquelas duas meninas e na alegria que elas exalavam só por viver,
invadindo minha casa seca. Garganta seca. Gole seco no conhaque
molhado. Parecia que eu tomava pó de vidro. Nem plantas e nem um
gato eu tinha, agora, que história era essa de crianças, estou me
exonerando, estou fora, peço demissão.
Aqui ninguém entra, pensei,
já imaginando como mandaria a amiga perseguida pela desdita para
longe da cidade antes que ela tomasse o golpe fatal do destino e
ficasse ali estendida, como está agora, que desgosto. Pensei a noite
inteira, conclui que ia lhe dar de presente uma casa na Birmânia,
onde mesmo ficava a Birmânia, era isso mesmo, eu não nem queria
saber. Com três passagens só de ida e dinheiro suficiente para
sobreviver um ano, para não voltar de jeito nenhum. Dormi em paz
com meus planos e uma ressaca enorme.
Como contei o fim da história,
todo mundo sabe que não deu tempo. Talvez porque eu não soubesse
onde era a Birmânia, porque minha preguiça sempre me vencesse ou
porque eu não quisesse mesmo despachar aquelas crianças. Ou ainda
também porque antes de tomar qualquer providência precisava acabar
o livro que estava lendo, cortar o cabelo, retirar a roupa na
lavanderia. Eu não vou responder porque não mexi um palito no
sentido de me livrar daquela responsabilidade e ninguém tem nada a
ver com isso.
Amanhã, quando minha ex-amiga
não passar de poeira circulando em rodamoinhos no vento da tarde,
vou entrar com o pedido de guarda provisória e depois com o de
adoção plena das duas meninas. Antes disso vou pedir ao juiz uma
autorização para viajar com elas, pode ser que elas gostem de
passear em Paris, mas, se não gostarem levo as duas até o parque do
Asterix, porque assim se distraem um pouco de tanta bordoada que o
mundo lhes deu em tão pouco tempo. Morrer a mãe também é demais.
* Jornalista, autora do
livro “Um velho almirante e outros contos”, pela Editora
Siciliano.
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