Canção
de Amor de J. Sebastião
* Por
Zemaria Pinto
Sigamos
então, tu e eu,
enquanto
Manaus se estende sob o céu
como
um paciente anestesiado sobre a mesa.
Caminhemos
pelas mesmas ruas,
quase
desertas a estas horas,
sob
uma bruma eliotiana,
contando
as fachadas dos hotéis de conveniência,
ouvindo
ao longe a doce música das sirenes.
Ah,
Manaus, Manaus,
o
mais vil de teus poetas
vomita
sua sintaxe indefinida
arrastando-se
no lodo da Cachoeira
em
busca de alguma felicidade provisória
ou
uma dose violenta de qualquer coisa
mergulhando
a alma nessa tenra madrugada de outubro.
Abraço
o poeta e o beijo que deposito em sua boca
é
amargo e fedido.
Peço
uma tangerina e mais outra
e
o cheiro que toma o ar me embriaga
mais
que toda a cerveja e toda a urina do banheiro fétido.
O
poeta sussurra alguma coisa sobre
as
moças assassinadas
da
praia da[Ponta Negra
e
fala de espectros e histórias de amor
e
eu mal consigo perceber o movimento de sua língua de chumbo.
Tomo
suas mãos nas minhas e ele adormece
murmurando
preces pelas moças assassinadas.
Ah,
Manaus, Manaus,
quanta
poesia desperdiçada
nas
flores que o rio insiste em devolver à areia
num
invólucro de espuma.
Onde
estão tuas crianças, cidade?
Onde
estão tuas mulheres, teus velhos?
E
tuas úmidas meninas túmidas?
Em
que longínqua guerra fratricida eles sucumbiram?
Ah,
maninha,
não
me curvo às urgências do teu sexo
ou
ao discurso mudo dos teus bêbados.
Seria
a poesia uma doença tropical?
A
bruma cai em flocos e tem gosto de açaí.
Precisamos
beber algo quente
que
nos anuncie a manhã,
como
um galo ou uma fábrica.
Dá-me
tua mão.
Ainda
há tempo.
* Poeta e economista
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