Leitura às avessas
A
civilização (ou, pelo menos, o que entendemos que ela, de fato,
seja), não é (nunca foi) um processo linear, contínuo, evolutivo,
sem retrocessos. Muito pelo contrário. Caracterizou-se, desde os
primórdios da história registrada, por saltos e recuos, ao sabor
das gerações.
Felizmente,
para nós, todavia, cada passo dado paras trás, pelos variados
povos, correspondeu a dois ou mais dados para a frente, anos após.
Caso isso não ocorresse, estaríamos, provavelmente, em estado de
animalidade bruta, de completa selvageria, sem escrita, ciência,
artes, filosofia etc., talvez habitando, ainda, em insalubres
cavernas, sem saber nem ao menos como produzir o fogo e à mercê,
portanto, dos elementos e dos predadores.
Em
períodos diferentes da história, surgiram mentes privilegiadas,
capazes de enxergar muito adiante do seu tempo, como astros luminosos
que iluminaram o caminho dos povos e lideraram multidões na ingente
tarefa de derrubar muralhas de preconceitos, de combater (com ideias
lúcidas) o fanatismo irracional e de vencer as barreiras da
intolerância, interpostas, via de regra, a poder da força bruta.
Nesse
processo de avanço e recuo, muitas mentes brilhantes, raridades em
todos os tempos (inclusive neste nosso, do início do terceiro
milênio da Era Cristã), tombaram, nos lamentáveis períodos de
refluxo da maré civilizatória, vítimas do obscurantismo, das
superstições e da irracionalidade. Houvessem sido ouvidos, e
acatados então, certamente o mundo seria hoje muito melhor do que de
fato é.
A
aparição desses gigantes da espécie, dessas mentes lucidamente
geniais, não se deu, infelizmente, de forma contínua e linear, em
relação ao tempo e ao espaço. Houve ocasiões em que, geração
após geração, o mundo careceu da sua benigna presença. Como
também houve épocas em que mais de um desses homens notáveis e
sábios surgiram, às vezes numa mesma região, como ocorreu, por
exemplo, no fastígio da civilização grega (ou hindu, ou chinesa
etc.).
Onde
e quando esses indivíduos especiais atuaram, os povos dos quais
emergiram conheceram períodos marcantes, de progresso material e,
sobretudo, espiritual. A Europa viveu várias dessas épocas de
“fervilhar” de criatividade. Mas, ao contrário do que muitos
ainda hoje supõem, para a infelicidade de suas populações, não
houve continuidade.
O
Velho Continente viu vários desses “saltos” de civilização e
lucidez serem sucedidos por longos períodos de trevas, não raro com
a duração de séculos, quando o fanatismo (sobretudo religioso)
ofuscou as mentes e a violência imperou, em detrimento da razão.
Basta que se analise, por exemplo, a longa era conhecida como “Idade
Média”, que pode, sem nenhum exagero, ser classificada como a
“Idade das Trevas” na Europa. Foi um prolongado espaço de tempo
em que a barbárie imperou, sob os mais variados pretextos e
disfarces, com um ou outro fugaz lampejo de luz.
Um
desses momentos de brilho, de resgate de valores então há muito
esquecidos (ou sufocados), sobretudo o da valorização do indivíduo,
foi o que se convencionou chamar de “Renascimento”. Nele,
renasceram, de fato, a racionalidade e, por conseqüência, a
criatividade, propiciando o surgimento de artistas notáveis, de
pensadores iluminados e lúcidos e de líderes políticos com clara e
progressista perspectiva de futuro.
Foi
um período de revalorização do homem, que até então se via
subjugado por dogmas pueris, sem nenhum sentido, ditados por
fanáticos de mente doentia, que lhe atribuíam a premente e
constante necessidade de “expiar” eterna culpa de um suposto
pecado original enquanto vivesse. Ou seja, a pretexto de ensinar como
conquistar o “céu”, transformavam a vida dos povos num inferno.
E ainda há quem justifique e defenda esse comportamento ilógico e
irracional!
Preconceitos
estúpidos e incompreensíveis antagonismos étnicos sempre dividiram
povos, que não compreendiam (será que hoje compreendem?) que eram
espécimes de uma mesmíssima espécie, posto que em estágios
mentais, materiais e morais diferentes. Isso impediu, entre outras
coisas (e impede ainda) que se erigisse uma civilização única,
uniforme, universal, ditada exclusivamente pela razão e pela justiça
e jamais pela força das armas.
Caso
não houvesse essa divisão, sem lógica e sem sentido, hoje a
humanidade constituiria uma única e uniforme nação: a do planeta
Terra. Talvez não existissem tantas línguas (é possível que
houvesse uma única) e nem tantos costumes diferentes, que nos levam,
às vezes, a desconfiar que os homens não integram uma única
espécie, mas várias, de origens diferentes, embora no essencial
todos guardem absoluta semelhança.
O
poeta e humanista indiano Rabindranath Tagore explica (ou tenta
explicar) a razão de tantos recuos no processo de civilização, ao
constatar: “Lemos o mundo às avessas e queixamo-nos de não o
compreender”.
Em
vez de queixas, todavia, o mais sábio e até óbvio é fazer sua
leitura correta e assegurar, por conseqüência, um progresso
contínuo, geral, irrestrito e linear da humanidade, em todos os
aspectos: material, moral, espiritual, científico e, sobretudo, com
absoluta justiça e igualdade de oportunidades. Será que
conseguiremos?
Boa
leitura!
O
Editor.
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