segunda-feira, 15 de maio de 2017

Clareza e concisão



As pessoas têm cada vez mais dificuldades de escrever com correção e clareza. Ora não cometem deslizes de grafia, sintaxe ou concordância, mas não são claras no que pretendem transmitir. Ora possuem clareza, mas cometem verdadeiras atrocidades vocabulares. Em geral, fazem as duas coisas ao mesmo tempo. E não me refiro apenas aos semialfabetizados (já que, obviamente, os analfabetos não escrevem), que mal aprenderam a desenhar seus nomes e a "garatujar" uma ou outra palavra, trocando o "s" pelo "z", suprimindo o "h" onde ele deveria constar e cometendo outras barbaridades do gênero.

O mau texto reflete, sobretudo, falta de leitura. Ninguém está exigindo que todo o mundo seja um Machado de Assis ou um Monteiro Lobato, peritos na arte de escrever e de prender a atenção dos leitores de diversos graus de cultura. O talento desses mestres (para citar somente os dois considerados consensualmente como os melhores), era inato. O que se espera da média das pessoas, da maioria dos "mortais comuns", é que sejam capazes de redigir pelo menos uma carta padrão, ou um memorando, ou um simples bilhete de recado para a mulher ou para a empregada, sem cometer atrocidades gramaticais.

É um equívoco achar que textos floreados sejam desejáveis ou mesmo aceitáveis. Nossos melhores escritores – como os citados acima – faziam da simplicidade, do despojamento vocabular e da precisão os seus segredos. Eram, sobretudo, autênticos, espontâneos, absolutamente naturais. Machado de Assis, por exemplo, nunca se deixou levar pelos modismos do seu tempo. A linguagem que reproduziu em seus romances (escritos no século retrasado, frise-se) é, sem tirar e nem pôr, a mesma que as pessoas de cultura mediana atuais se utilizam para se comunicar. E pensar que Machadão jamais freqüentou uma escola!

Monteiro Lobato, por seu turno, ao escrever para crianças, não agiu como se estas fossem "debiloides", idiotas que mal conseguem tartamudear no diminutivo, como a maioria dos escritores especializados nesse tipo de literatura age. Tratou-as com a dignidade e o respeito que elas merecem. Usou a verdadeira linguagem delas: simples, é verdade, com reduzido vocabulário, mas clara e por isso autêntica.

Lobato coloca na boca de Dona Benta a seguinte observação sobre literatura (citada por Alaor Barbosa em seu livro "O Ficcionista Monteiro Lobato"): "Meus filhos, há duas espécies de literatura, uma entre aspas e outra sem aspas. Eu gosto desta e detesto aquela. A literatura sem aspas é a dos grandes livros; e a com aspas é a dos livros que não valem nada. Se eu digo: 'estava uma linda manhã de céu azul', estou fazendo literatura sem aspas, da boa. Mas se eu digo: 'estava uma gloriosa manhã de céu americanamente azul', eu faço 'literatura' da aspada que merece pau".

Geralmente as pessoas que não sabem escrever, que não têm as ideias muito ordenadas ou segurança no que expressam, é que se valem desse tipo empolado (e imbecil) de texto. Em uma carta que escreveu ao amigo Godofredo Rangel, em janeiro de 1904, quando tinha 22 anos de idade, Monteiro Lobato definiu a sua opção pelo significado real das palavras e sobretudo pela clareza. Afirmou: "Na propriedade da expressão está a maior beleza; dizer 'chuva' quando chove – 'sol' quando soleja. É a porca que entra exata na rosca do parafuso".

O escritor voltaria a ressaltar a mesma coisa, por intermédio da personagem "Sintaxe", no livro "Emília no país da gramática": "O que quero saber nesta cidade é de clareza e mais clareza, porque a clareza é o sol da língua". Bela e original expressão. E, no entanto, verdadeira. Sobre a exatidão, o procedimento inteligente é o uso apropriado das palavras, colocadas no lugar certo, e na hora certa. Lobato enumerou-a como a regra básica número dois. Para não cometer deslizes de impropriedade, leu, releu, pesquisou e analisou todo o dicionário de Caldas Aulete.

Em agosto de 1909, escreveu o seguinte ao amigo Godofredo Rangel: "O que mais aprecio num estilo é a propriedade exata de cada palavra e para isso temos que travar conhecimento pessoal, direto, com todos os vocábulos, em demorada, pensada e meditada vocabulação dicionarística. Só pelo conhecimento exato do valor de cada um é que alcançamos aquela qualidade de estilo". Está aí um bom roteiro para quem queira escrever bem e não passar vergonha. Ser absolutamente claro no que pensa e deseja transmitir e usar as palavras certas nos lugares adequados. E, sobretudo, ler, ler e ler, concentrada e incansavelmente, bons escritores. Ou seja, os de textos diretos, claros e, sobretudo, simples.


Boa leitura!


O Editor.


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Um comentário:

  1. Paixão desde os 11 anos. Meu preferido: A Chave do Tamanho.

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