quarta-feira, 19 de março de 2014

Pra mim, isso é grego!

* Por Fernando Yanmar Narciso

Discordem de mim se puderem, mas seria correto afirmar que a Grécia foi o equivalente aos Estados Unidos na antiguidade. Ao abrir qualquer enciclopédia, livro de história ou Wikipédia podemos ver que, se há ou houve um país que fez da guerra seu hobby de final de semana, a terra do Monte Olimpo é esse país. Havia até um ditado que os deuses haviam fornecido as rochas para construir os portões de Termópilas, e os corpos dos inimigos vencidos forneceram a argamassa para mantê-las unidas. Quando não havia um império inimigo tentando invadir alguma província grega, elas simplesmente digladiavam entre si, sem nenhum objetivo claro além da carnificina. Colônia de férias, crianças!

Além da famosa guerra de Troia, que provavelmente só aconteceu na mente de Homero, a mais famosa empreitada militar da antiguidade foi o embate entre a Grécia e a Pérsia, atual Irã. Quando pequeno, o cartunista Frank Miller, conhecido por seus quadrinhos revisionistas do Batman e pela série noir sanguinária Sin City, era fascinado pelo filme Os 300 de Esparta, de 1962, do diretor Rudolph Maté e estrelando Richard Egan no papel de Rei Leônidas. Ele gosta tanto do filme que diz até hoje que, não fosse por ele e pelo personagem Dirty Harry, de Clint Eastwood, dificilmente teria seguido carreira no mundo dos quadrinhos, de tal forma que Sin City foi a resposta dele aos filmes do detetive com o revólver mais fálico já projetado e 300, de 1997, foi a sua versão “Mondo Bizarro” dos contos do filósofo Heródoto.

Em 2006, o diretor Zack Snyder, até então conhecido apenas por rodar videoclipes e filmes baratos de terror, usou tecnologia, na época, de ponta para trazer às telonas a história dos guerreiros espartanos, fazendo literalmente uma cópia quadro-a-quadro da graphic novel de Miller, criando um estouro de bilheteria e um clássico do cinema cult. Revelando ao mundo os talentos de Gerard Butler, Rodrigo Santoro, Lena Headey e Michael Fassbender, num festival em tons sépia e vermelho-sangue. Em vez de usar clichês pré-estabelecidos de filmes de ação, Snyder preferiu criar seus próprios clichês, como movimentos vertiginosos de câmera, cenas de ação com mudanças bruscas de velocidade e litros de sangue virtual jorrando na tela. Tudo isso e as falas mal escritas, que sempre foram especialidade dele.

No entanto, aquele filme já foi lançado há bons oito anos e sua tecnologia foi a muito superada. Nos dias de hoje, com séries de TV usando “Snyderismos” a torto e a direito como A Bíblia e Spartacus, qual seria a necessidade de fazer uma continuação de 300? Com Snyder ocupado demais, tentando organizar o blockbuster Superman X Batman, ele encarregou seu assistente, Noam Murro, da nobre missão de dirigir a sequência que na realidade não é uma sequência, e sim as partes 1 e 3 de uma saga, comprimidas num único filme. Eu sei... Complexo, né? O caso é que agora fizeram de 300 o “durante” da guerra e do novo filme 300: A Ascensão do Império, o “antes” e “depois”.

Anterior à famosa guerra de Termópilas, onde Leônidas liderou sua guarda pessoal de 300 homens e mais 7000 camponeses contra as forças do deus-rei Xerxes, houve a batalha de Maratona, onde o general Temístocles (Sullivan Stapleton) liderou as tropas atenienses contra uma tentativa de invasão da Grécia pelo rei Dario I. Ao contrário dos espartanos, que são treinados para o combate desde o berço, o povo de Atenas simplesmente se levanta em armas quando preciso. Durante a batalha, Temístocles percebe o rei persa desprevenido sobre sua embarcação e o mata com uma flechada, caindo nos braços de seu filho (Rodrigo Santoro).

A colérica almirante Artemísia (Eva Green), grega a serviço dos persas, influencia Xerxes a se render à morte para reerguer-se como um deus-rei (num ritual de feitiçaria muito mal explicado, por sinal) e vingar a morte de seu pai, destroçando a Grécia com o maior exército já reunido até então. Enquanto o exército de Leônidas se esforça para segurar os persas em terra, Temístocles usa de sua retórica para tentar unir e motivar as outras cidades-estado para uma defensiva marítima. A diferença entre atenienses e espartanos é gritante e bastante evidenciada com ajuda dos tratamentos gráficos: Se cada espartano possui músculos dignos de um fuzileiro norte-americano, os “filósofos e pederastas” da cidade rival são a própria definição de soldados rasos.

Mesmo assim, o eloquente general conseguiu segurar as pontas enquanto pôde e tingir os mares gregos de vermelho-persa enquanto o resto do país não vinha a socorro. Apesar de ter exatamente o mesmo visual do primeiro filme e de terem de algum jeito colocado os personagens de agora interagindo com as cenas antigas, em minha humilde opinião, A Ascensão do Impériofoi mais bem realizado que a película de Zack Snyder, com menos exageros e sem criações bizarras inexistentes na obra de Frank Miller, como o ogro azul indestrutível e o homem-porco com um machado saindo pelo antebraço.

O roteiro é menos ingênuo e as falas, surpreendentemente, não soam bobinhas como de costume nos filmes de Snyder. Ao contrário do anterior, que tinha narração da primeira à última cena, aqui, apesar de ter sua importância, a mesma não se mostra tão onipresente. A computação gráfica foi usada de um jeito menos indiscreto também, de maneira que quase nos deixamos pensar que aquelas localidades geradas em computador são reais! Mas podem ficar tranquilos, pois o bom e velho banho de sangue e órgãos internos do filme anterior, sua principal característica, continua são e salvo oito anos depois. O mesmo não pode ser dito dos milhares de persas e gregos mortos em alto mar... HAOOOOOOOOOH! HAOOOOOOOOOOH!!

*Designer e escritor. Sites:

Um comentário:

  1. Muito molho de tomate depois, o espectador ainda quer ver mais.

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