segunda-feira, 24 de março de 2014

Inconfessáveis intenções


* Por Daniel Santos


Quando o amolador de facas passava pela rua, havia um certo rebuliço entre as mulheres que, àquela hora, começavam a preparar o almoço de maridos e filhos – algo centenário ou milenar como a sujeição.

Algumas chegavam à sacada para espiar, outras desciam apressadas à rua para confiar objetos vários aos prestimosos serviços daquele técnico que sempre lhes cobrava preços módicos, mas sem nenhuma simpatia.

De fato, não havia sorrisos entre eles. O amolador trabalhava com máxima seriedade. Suas clientes traziam as facas em retalhos de algodão cru para que ninguém as visse e as desembrulhavam quase com pudor.

Depois de afiadas, eram de novo guardadas pelas mulheres que debandavam em silêncio, sem coragem de se encarar, pois a fisionomia de uma era a de todas: nos olhos sobressaltados, inconfessáveis intenções.

A pedra de amolar uivava como carpideira, e tal era tão sugestivo que as mulheres experimentavam nervosa excitação. Só ao degolarem a galinha ou trincharem o bife, acalmavam-se, mas sem saberem por quê.

* Jornalista carioca. Trabalhou como repórter e redator nas sucursais de "O Estado de São Paulo" e da "Folha de São Paulo", no Rio de Janeiro, além de "O Globo". Publicou "A filha imperfeita" (poesia, 1995, Editora Arte de Ler) e "Pássaros da mesma gaiola" (contos, 2002, Editora Bruxedo). Com o romance "Ma negresse", ganhou da Biblioteca Nacional uma bolsa para obras em fase de conclusão, em 2001.





Um comentário:

  1. Talvez o desejo seja de ferir alguém, mas não têm coragem nem de pensar.

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