quinta-feira, 27 de março de 2014

Momento do tempo

* Por Marcelo Sguassábia

- Ouvi falar que escalaram o pessoal do horóscopo pra cobrir as férias da turma da previsão do tempo.
- É verdade. Os caras que redigem o horóscopo pra peixes, áries e touro pegam a previsão da região sul. Quem faz leão, sagitário e capricórnio fica com a região centro-oeste. E assim por diante. Daqui a pouco vão passar o comunicado oficial.
- Mas vai sobrecarregar os caras. E hora extra que é bom, nada. O Financeiro não libera. Por mais que seja divertido ficar inventando o futuro dos outros e o tempo que vai fazer, o trabalho é dobrado. Só se a gente pegar uns foquinhas, pra um freelance não remunerado.
- Não precisa. A equipe do horóscopo é boa de imaginação. Eles estão costumados a se virar com 12 signos, 5 regiões não vão fazer diferença. E ninguém tem que ficar preocupado caso acabe chovendo ao invés de fazer sol. Se o CPTEC/INPE, a Somar Meteorologia, o INMET, o Cepagri, o Climatempo e o escambau, com todos aqueles satélites erram sem parar, o máximo que pode acontecer é a gente acertar uma vez ou outra.
- Espera aí que eu tive uma ideia mais inteligente. Considerando que eles erram todas, e ultimamente tem sido todas mesmo, o negócio é a gente pegar primeiro o boletim deles e prever sempre o oposto. A nossa chance de acertar será altíssima. Por esse método de inversão, eu diria que é de quase 100%.
- Boa! E quanto mais a gente acertar, mais pessoas vão passar a ouvir o nosso programa, mais audiência a gente vai ter...
- E mais anúncios vão pingar.
- Pingar, não. Sem trocadilho, vai chover publicidade no "Momento do Tempo".
- De tanto errar, nos últimos meses os institutos oficiais têm sido inespecíficos. Podem reparar. Falam em chuvas isoladas variando de intensidade "em grande parte do país", camadas de nebulosidade se formando lentamente, frente fria das Galápagos que pode ser que chegue por aqui entre quinta e sábado da semana que vem, máxima variando entre 14 e 39 graus sei lá onde, coisas assim, que não tem como errar.
- Então, quando a previsão for inespecífica, a gente também fica em cima do muro. Zona de conforto, sem instabilidades, entende?
- É, faz sentido. Acho que vale mais a pena a gente implementar essa estratégia da inversão do que botar o povo da redação pra ficar inventando previsões sem pé nem cabeça. E, além de tudo, não dá trabalho. Inverteu, tá pronto. É só botar no ar.
- Só que a Rádio corre o risco dos institutos de meteorologia começarem a acertar. E aí, como ficamos?
- Acho que desse susto a gente não morre. Mas, se acontecer isso, vamos para o inespecífico. Até eles começarem a errar de novo, então voltamos para a estratégia de inverter as coisas. Simples e seguro. Se der tudo certo, periga até a nossa Rádio virar referência.
- Já pensou? Um monte de outras emissoras indo na cola do que a gente falar, sendo que o que a gente disser será uma fraude, já que divulgaremos o contrário da previsão científica... Vixe Maria...
- É o que se pode chamar de rigor jornalístico.
- Ô.

* Marcelo Sguassábia é redator publicitário. Blogs: WWW.consoantesreticentes.blogspot.com (Crônicas e Contos) e WWW.letraeme.blogspot.com (portfólio).



Um comentário:

  1. Também vou embarcar nessa canoa, e que não tenha tempestade.

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