Personagem de um Dostoievski romântico
e poético
O escritor russo Fiodor Dostoievski caracterizou-se pela
criação de personagens no mínimo “intensos”. Quase todos os que criou são carregados
de paixões extremas. São impulsivos, desses que num repente podem cometer (e
cometem) crimes bárbaros (como em “Crime e castigo”), mas que são atormentados
pela consciência, como ocorreu com o estudante que trucidou a velhinha nessa
história. Outros tantos vivem situações igualmente conflituosas, como em “Irmãos
Karamazov” e em vários e vários de outros enredos que criou, mesmo que não
cheguem a extremos. Raramente, seus protagonistas são, sequer remotamente,
parecidos com os da maioria dos escritores da sua época.
A quase totalidade da sua obra reflete a preocupação social
que sempre o moveu, em uma Rússia tensa, miserável e com profunda divisão de
classes. Um de seus romances mais belos, todavia, foge dessa linha temática.
Nem parece que foi escrito por ele. Refiro-me a “Noites brancas”, que Dostoievski
publicou em 1848, antes de ser preso e de enfrentar os horrores dos campos de
trabalho forçado da Sibéria. Há consenso entre os especialistas de que é este
livro o que mais o aproxima do romantismo. É de uma beleza pungente, posto que
envolva também drama e solidão.
Pois é justamente deste romance que emerge a décima segunda
mulher citada na série “Catorze personagens femininas inesquecíveis”,
organizada pelo site “Homo Literatus” (WWW.homoliteratrus.com). Ela é a escolha do escritor (autor
do livro “Minha querida Aline”, publicado pela Editora Multifoco), fotógrafo e
editor da revista “Sisifo”, o baiano Marcelo Vinicius. Como a pesquisa do site
(que reúne catorze especialistas em Literatura) exige que os pesquisados escolham
apenas uma única personagem feminina que considere inesquecível, e justifiquem
a razão da preferência, ele escolheu Nástienka, justamente a protagonista de “Noites
brancas”, e explicou assim a razão:
“O Sonhador a conhece e cria um amor platônico por Nástienka.
Porém, mais do que isso, ela aponta para as imposições da vida, as quais não
podem ser ignoradas, mas, ao mesmo tempo, nos diz que é preciso sonhar. Ela é
jovem, ingênua e também sonhadora, que fica à espera de um prometido amor
durante quatro noites. Nástienka é o símbolo da discussão sobre até que ponto
as pessoas podem se esconder através de seus sonhos, para evitar o sofrimento.
Mostra a contradição entre a vida real vazia e as suas paixões. Nástienka é uma
mulher, com beleza e imperfeições como a vida, assinalando que todos nós somos
o protagonista Sonhador: podemos encarar a vida ou virar o rosto em repúdio,
mas nunca podemos negar sua pungente existência”.
Este livro requer pelo menos mais duas explicações da minha
parte, até para que o leitor entenda a felicidade da escolha de Marcelo
Vinicius. A primeira refere-se ao seu título. "Noite branca" é um
fenômeno bastante comum na Europa, notadamente em regiões próximas ao Círculo
Ártico (e também em São Petersburgo, claro, onde a história teria se passado).
É quando, mesmo com o Sol se pondo no poente, ele permanece brilhando, posto
que tenuamente, um pouco abaixo da linha do horizonte. O efeito causado é
arrasador, no sentido de admiração, encantamento, diria de arrebatamento para
quem não conhece de antemão essa característica e a testemunha pela primeira
vez. A noite permanece clara, como num dia levemente nublado, por exemplo. Ou
seja, ligeiramente clara, como se fosse
de uma lua cheia bem mais intensa do que a normal, causando uma atmosfera
mágica, diria poética, de sonho. É belíssima e inesquecível.
Outro aspecto a se destacar refere-se à história engendrada
por Dostoievski – que foi adaptada para o cinema por Luchino Visconti e recebeu
diversos prêmios, protagonizada por Marcelo Mastroianni e Maria Schell – de um
lirismo surpreendente para um escritor tão ácido e amargo, como o romancista
russo. Ao longo de quatro noites, o protagonista conhece a moça, se apaixona por
ela e cientifica-se de sua inusitada história. Ele e o leitor, claro.
Nástienka encara uma circunstância de vida das mais dramáticas
e complicadas. Seu problema maior é a solidão. Tem que cuidar da avó cega,
contando com a ajuda, somente, de uma criada surda. Ou seja, pouco ou nada pode
se comunicar com as pessoas que a rodeiam no dia a dia. Numa bela ocasião, todavia, recebe um novo
inquilino em sua casa. Isso faz com que vislumbre a possibilidade de escapar de
sua solidão. O misterioso homem, contudo, após algum tempo, vai embora, mas
promete voltar depois de um ano, tão logo estivesse em condições de casar-se
com ela. Passado exatamente um ano, na data marcada para o reencontro, o
protagonista encontra Nástienka na ponte sobre o Rio Nieva. Mas nenhum dos três
personagens – a moça, o tal inquilino e o Sonhador, apaixonado por ela – pode
prever o que o destino reservou para eles. O que? Não, leitor, não contarei
mais nada do enredo, para não estragar sua surpresa ao ler o livro, o que,
óbvio, lhe recomendo.
Dostoievski é o único escritor a ter duas personagens diferentes
incluídas nesta pesquisa informal do site “Homo Literatus”. Muitos brasileiros
conhecem bem pelo menos esse romance, quer por sua leitura, quer através da
televisão ou quer do teatro (sem falar do filme de Luchino Visconti). A adaptação de “Noites Brancas”, por exemplo,
foi exibida num Caso Especial da Rede Globo, em 1973, protagonizada por
Francisco Cuoco e Dina Sfat, nos papéis principais, sob a direção de Oduvaldo
Viana Filho. Não faz muito, essa obra foi levada aos palcos, em teatros de São
Paulo e do Rio de Janeiro, estrelada por Débora Falabella e Luís Artur, sob a
direção de Yara de Novaes. E quem a viu, se encantou. Pudera! Assim como quem
leu esse clássico de Fiodor Dostoievski jamais esquecerá da obra e da sua sonhadora
e solitária personagem central.
Boa leitura.
O Editor.
Acompanhe o Editor pelo twitter: @bondaczuk
No longinquo inicio do século XIX, quando nada havia de conforto ou suporte, menos ainda na área de lazer, viajar no pensamento era a única maneira de escapar da dureza imposta. Hoje não é preciso pensar e nem sonhar. Outros já pensaram para nós.
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