Meu baiano mestre!
* Por
Urda Alice Klueger
“A
parir de certo momento passamos a viver mais com os mortos do que com os vivos,
a ter mais amigos do lado de lá do que do lado de cá”.
“Não
vou repousar em paz, não me despeço... vou adiante, vou me divertir, axé.”
Oh! Meu mestre, quanta
emoção com “Navegação de Cabotagem”, lido nesta semana – toda a minha família
entrou no clima do livro, eu a ler e a contar os causos, a descobrir facetas
não imaginadas do grande romancista e a deliciar com elas a minha gente – o
clima ficou tão grande que acabei o livro pensando em lhe escrever a respeito.
Dei uma ligadinha para Salvador, para que sua secretária me informasse se o
senhor estaria no Brasil, e o clima explode em alegria e júbilo: o sr. mesmo
foi quem atendeu ao telefone! Deve lembrar-se, identifiquei-me como leitora de
Santa Catarina – só não pode saber da minha alegria ao ouvir a sua voz de
verdade, nítida como se Salvador estivesse a 1 km de distância!
O sr. se confessa, no
livro, como grande leitor, e então não vou me preocupar em alongar um pouquinho
esta carta. Eu também sou uma história
brasileira; por que não lhe contar? Na verdade, sou uma história onde o sr. tem
uma grande influência; por sua causa estou planejando, já há tempos, mudar até
de região no Brasil, ir-me embora do Sul
– é, pensando bem, sua influência na minha vida é enorme.
Sou uma brasileira de
Blumenau, legítima loira de olhos azuis e de muitas procedências: tenho seis
etnias misturadas, acham-me com cara de estrangeira quando saio daqui, mas sou
brasileiríssima. Tenho o vício da leitura desde que fui alfabetizada, tenho o
vício de inventar histórias desde que me lembro, desde os três anos de idade.
Depois que cresci escrevi alguns livros: continuo a escrevê-los. Uma vez, faz
alguns anos, no pique do entusiasmo com a publicação dos primeiros livros,
enviei-lhe alguns, e tive a ventura indescritível de receber um seu,
autografado: “Os pastores da noite”, que já lera quando adolescente, e que reli
com uma paixão muito maior depois de adulta. Não vou lhe mandar livros meus
agora porque sei como isso é chato: apesar de ser apenas uma pequena escritora
do interior de Santa Catarina, também recebo uma porção de livros para ler de
uma porção de lugares do Brasil, e os leio todos, aos bons e aos ruins, e os
ruins me roubam um tempo precioso, mas não sei deixar de lê-los. Creio que aos
80 anos já terei adquirido a imunidade da idade para não ler mais o que não
goste, e não vou lhe encher as medidas enviando-lhe livros de aprendiz, quando
seu tempo, agora, é um tempo de fazer só o que gosta. Chega esta carta que, se
me conheço, vai ficar bem grande.
Sem dúvida sofri
muitas influências na minha vida, de todas as coisas, de todas as pessoas, de
todas as situações, de muitos livros. Não há dúvida que os dois escritores
brasileiros que mais me influenciaram chamavam-se Érico Veríssimo e Jorge
Amado. Um dia, faz tantos anos, numa estrada, dez horas da noite, ouço no rádio
do carro que Érico Veríssimo se fora. Chorei, meu Deus, chorei como se ele
pertencesse à minha família, fiquei de luto por dias e dias – perdera um
mestre, um passarinho deixou de cantar dentro de mim por muito tempo.
Restava-me Jorge Amado
e toda uma sua galeria de heróis: Tereza Batista, para mim, é a grande heroína brasileira,
a mais comovente, a mais perfeita, a mais emocionante (pena que na série de
televisão ela ficou tão fraquinha!). Restava-me Jorge Amado, como pessoa,
alguém tão distante quanto a lua, mas alguém muito vivo no que escrevia, e por
causa dele aconteceu na minha vida um milagre: a Bahia.
Por sua causa, em
1988, resolvi passar o centenário da Abolição em Salvador e tentar encontrar os
personagens conhecidos. Vou detalhar um pouco o que aconteceu:
Acabávamos de sair do
Plano Cruzado, a grana era curtíssima, nem pensar em pegar avião para os 3.000
km de distância. Encarei 48 horas de ônibus de rodoviária para conhecer a
Bahia, sem hotel reservado, sem nenhum amigo
por lá – fui ver o que acontecia. No ônibus, amizade com a boa gente
baiana, amizade com dois moços que iam para lá a trabalho – um deles já
conhecia a Bahia, prontificou-se a ser cicerone, acabamos indo para o mesmo
hotel barato na Avenida Sete. Chegamos às sete da noite; jantamos às oito, e
depois partimos para a praça Castro Alves, para a Sé, etc. – o amigo que em
Salvador vivera soube até mostrar onde fora o Tabaris – às dez da noite, por
escolha minha, estávamos dançando na zona da Montanha, e eu já entrara em
contato com uma multidão de personagens de Jorge Amado. Gentilíssimas, as moças
e a dona da zona ficaram nossas amigas, e até nos arranjaram um táxi para
cairmos fora dali, de madrugada, pois os capitães d’ areia nos esperavam do
lado de fora da porta, a esses turistas desavisados que eles deviam estar
imaginando que nunca tinham lido Jorge Amado.
Em pouquíssimas horas
tinha me apaixonado totalmente por Salvador. Fazia turismo de dia; à
noite, me juntava com meus amigos e
fazíamos farra – foram umas férias que marcaram minha vida de vez, a ponto de,
desde então, já ter voltado à Bahia seis vezes – devo ir de novo agora em
novembro, tenho 15 dias para passar lá. Mas a coisa da Bahia é muito mais forte
para mim: pretendo ir morar lá, morar no
Pelourinho, tão logo me aposente, daqui a um ano e pouco. Sei que atualmente
está bastante difícil conseguir-se morar no Pelourinho, mas sei que vou
conseguir um cantinho para mim lá. A intimidade que eu sinto em relação a
Salvador é uma coisa única, maior, até, que a intimidade que eu sinto com a
minha cidade. Senti algo parecido quando estive em Havana, mas o Brasil é o
Brasil e Salvador é o meu lugar nele. E como foi que tudo isso aconteceu?
Aconteceu porque um escritor chamado Jorge Amado soube contar a sua gente como
ninguém mais o fez, a culpa é dele. Vê o sr. quanta influência já exerceu na
minha vida? Digamos que a mudou com radicalidade, a mim que poderia ter
continuado pequena burguesa blumenauense pelo resto da vida, a achar que a
Oktoberfest era o máximo, que as nossas praias eram a grande curtição da vida –
poderia ter vivido a vida inteira desconhecendo a magia, o mistério, o encanto
dessa sua terra que eu sinto como minha. Há que se ter sensibilidade para se
descobrir o quanto a Bahia é mágica; acho que a tenho.
Mas já me desviei um
monte do assunto: estávamos a falar de “Navegação de cabotagem” e da minha
emoção pelo livro inteiro. Volta e meia, nele, aparecia um amigo: Ascendino
Leite, Oswaldo França Júnior, Korda, o meu querido Korda que já andou aqui por
Blumenau e tomamos juntos quase todo o rum da cidade (França, antes de morrer
tão tragicamente, também andou por aqui, e tomávamos, então, cubas-libres), sei
lá, fui encontrando os amigos, fui amando cada episódio, morri de rir com as
suas safadezas, descobri o outro lado do escritor, aquele que a gente não
conhece, o livro é ÓTIMO! Não poderia, desta vez, deixar de lhe dizer isto, e
foi então que liguei para saber se o sr. estava no Brasil.
Meu querido mestre,
ainda estou toda alvoroçada por ter ouvido a sua voz sem ter sido na televisão:
quando pensei que um dia isto poderia acontecer a mim? Obrigada, muito obrigada
pela alegria que me deu. Acho que já deu para perceber como sou sua macaca de
auditório; sinto-me dispensada de falar de cada livro e cada personagem seu,
como gostaria de fazê-lo, pois senão esta carta vira um livro, e já falei antes
que não quero encher as suas medidas impingindo-lhe livros para ler. Chega o
tamanhão da carta.
Aqui em Blumenau o sr.
tem um lugar todo de ouro no meu coração. Muito, muito obrigada por me ter dado
tantas coisas lindas para ler e para viver.
Com um carinho enorme,
Urda Alice Klueger
* Escritora de Blumenau/SC, historiadora e
doutoranda em Geografia pela UFPR, autora de mais três dezenas de livros, entre
os quais os romances “Verde Vale” (dez edições) e “No tempo das tangerinas” (12
edições).
Eu também poderia dizer isso, pela admiração que tenho por Jorge Amado e pelo amor que tenho pelos seus livros e pela Bahia. "Quantas amarras, meu Capitão"? "Todas". Inesquecível livro sobre os lobos do mar, os verdadeiros e os falsos.
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