Também temos “As vinhas da ira”
* Por
Urda Alice Klueger
Chove, hoje. Fico
pensando onde eles estarão. Apesar de não ter viajado, ultimamente, sempre
acabo andando um pouco por aí: vou a Itajaí, a Joinville, fui a Jaguaruna,
todas as semanas vou até Florianópolis. Como podem ver, não tenho saído do
Estado, mas não se precisa ir longe para encontrá-los: em todas as rotas eles
estão, esses homens magros, barbados, cabelos por cortar, carregando na sua
viagem o pouco ou o nada que têm. Eles andam a pé de uma cidade para outra,
sujos e desgrenhados, e ninguém pensa em dar nem eles pensam em pedir carona,
coisa que foi tão comum nos tempos da minha juventude, nos tempos em que a
filosofia hippie tinha explodido pelo mundo, e andar de carona era a coisa mais
natural possível.
A estes homens,
ninguém dá carona, e, como já disse, nem eles se atrevem a pedir. Vão a pé –
uns muito raros empurram ou puxam um carrinho com alguns miseráveis trastes – a
maioria leva muito menos: coisas envolvidas num cobertor, ou uma ou duas
sacolas de plástico onde ainda cabe o seu tanto de esperança. É o que lhes
resta. E a cada um que encontro eu fico pensando atrás de que esperança que vão
– por que estão indo para outra cidade?
Há quilômetros e quilômetros vazios entre uma cidade e outra – será que
pensaram em levar água, alguma coisa de comer?
Onde dormirão quando a noite chega sem que a outra cidade chegue? E onde
se abrigarão em dias de chuva, como hoje?
O fato é que há homens
sem nada andando pelas beiras das estradas onde passam, velozmente, os carros
importados, de luxo. Sempre são homens, nunca são mulheres. As mulheres deles
ficaram em algum lugar, porque decerto têm crianças, e há que sobreviver nos
tais lugares, e alimentar as crianças. Talvez sejam humilhadas em empregos sem
dignidade. Talvez tenham que fazer coisas piores. Já não têm seus homens para
protegê-las. E os homens já não têm nada. E caminham entre uma cidade e outra.
E quando os vejo chegando perto de Blumenau, penso que talvez venham porque um
certo padre, aqui, organizou cozinhas comunitárias para homens assim, onde é
certo pelo menos, o prato de comida. Mas eles não andam só nesta direção. Andam
em todas as direções. E estão sujos. E estão magros. E são homens.
Dentro deles vivem
coisas iguais às que eu sinto, às que você sente: eles sonham com um futuro melhor,
eles se lembram de um passado em algum lugar, eles têm saudade dos que já não
sabem mais onde estão, eles têm necessidade de amor, de banho, de carinho, de
comida. Imagino que, quando anoitece, dormem sob a proteção de pontos de ônibus
que existem ao longo das rodovias – que pensarão dentro da sua solidão ladeada
pelas luzes velozes dos carros de luxo? Provavelmente, sentirão fome;
certamente, sentirão a falta de alguma mulher, sentirão desejos aos quais já
não têm direito, porque um monstro chamado Capitalismo os castrou de alma e de
corpo e os tornou escória, lhes tirou todos os direitos além do direito de
serem desprezados.
Alguém de vocês que
passa pelas rodovias nos seus carros de luxo ou não já se perguntou quem são
aqueles homens sem mulher e sem bagagem que caminham em todas as direções, bem aqui no dito rico (?) e sem
problemas estado de Santa Catarina? Alguém já parou e lhes perguntou os nomes,
ou de onde eram, ou se queriam alguma coisa? Aposto que não. A polícia deve
pará-los, às vezes, com certeza, para se certificar que não são bandidos. Eles
já não têm forças nem energia para serem bandidos. Talvez já não consigam mais
nem roubar um pão, o que seria justo para quem têm fome.
E revistas e jornais
ficam falando maravilhas de Santa Catarina, dizendo que é o próprio paraíso
terrestre. E muitos catarinenses estão convencidos de que o mundo gira em torno
do seu umbigo. Mas os homens sem nada continuam caminhando. Em todas as
direções. E não poderão continuar caminhando sempre. Um dia eles acabarão
fazendo valer os seus direitos de seres humanos. Por enquanto, ninguém se
importa. Mas neste dia de chuva, estou aqui, preocupada a respeito deles. Onde
se esconderão em dias assim?
Blumenau, 26 de
setembro de 2003.
* Escritora de Blumenau/SC, historiadora e
doutoranda em Geografia pela UFPR, autora de mais três dezenas de livros, entre
os quais os romances “Verde Vale” (dez edições) e “No tempo das tangerinas” (12
edições).
Os mais sensíveis veem, sentem compaixão e o pensamento já lhe foge. Ler um texto como este é como se nos fosse esfregada na cara a dor do outro, em nós, gente tão indiferente.
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