Do choque estético às medalhas
* Por
Adailton Medeiros
Nos últimos meses
venho me dedicando ao projeto Cine Literário como se fosse um achado – e olhe
que ele teve início em 2004. Desde o seu lançamento ele vem sofrendo várias
arrumações, aparos de arestas, lapidações, até que no ano passado (2011)
achávamos – eu e a equipe do Ponto Cine – que ele havia ganhado o formato
perfeito. Finalmente o Cine Literário passou a ser compreendido como um projeto
com duas vertentes.
A primeira como uma
Mostra de Filmes Brasileiros baseados em Livros da Literatura Brasileira, onde
as exibições aconteceriam seguidas de debates com os respectivos diretores dos
filmes e escritores dos livros que os originaram. Cada um falando do seu
processo criativo, circunstâncias históricas, políticas, sociais e geográficas
que os influenciaram; e suas técnicas para adequar a sua criação ao suporte
adotado, ou seja, um o livro; outro, o filme.
A segunda, com
distribuição de Midiotecas às Escolas Públicas, onde nelas seguiriam um acervo
com cinquenta títulos de livros e cinquenta filmes em DVD construídos a partir
dos livros, todos duplicados (cem e cem). Um catálogo contendo informações
sobre os livros e filmes. Uma TV de alta definição de 47” e um Blue-Ray Player.
E dez programas de auditório filmados e editados. Ou seja, aqueles debates com
escritores e diretores falando dos seus processos criativos. E aí nos deparamos
com mais uma surpresa, o projeto não estava tão redondo ainda.
Lembramos que durante
os debates constantemente havia perguntas, tanto para os escritores quanto para
os diretores, que os deixavam de saias justas. Ou seja, cansamos de registrar
respostas dadas por eles do tipo: “quando eu escrevi não pensei nisso que você
está falando”, ou “o que você enxergou eu nunca vi no meu filme, pra mim é uma
novidade”.
Percebemos que
tínhamos que dar voz e imagem a mais um inventor neste processo, a plateia –
leitores e cinéfilos, ou aspirantes a esses dois segmentos. Desta forma os
programas ficariam completos e estimularia ainda mais os professores e
estudantes a realizarem debates em suas escolas após as leituras e exibições
promovidas por eles. E, por outro lado, desmistificaríamos as figuras dos
escritores e diretores: alunos e professores perceberiam que eles são pessoas
comuns, que assim como qualquer mortal são capazes de fazer coisas
inconscientemente, mesmo dentro de algo tão pensado, como escrever um livro ou
dirigir um filme.
Aprimorado mais uma
vez, projeto arredondado, agora era embalar e vender. O que foi feito. Mas aí
entra a Vale, a Fundação Vale, nossa primeira investidora nesta nova edição do
projeto, e nos faz uma provocação: executar o Cine Literário nas suas Estações
Conhecimento de Deodoro e do Engenhão, em Engenho de Dentro, para um público de
atletas, ou melhor, futuros atletas. Meninos e meninas em idade escolar que vêm
superando as adversidades de suas vidas pobres e de poucas oportunidades. Em
curtas palavras, o desafio era juntar cultura e esporte.
De doer o fígado.
Depois de tudo pronto, mais essa. O que se há de fazer! Partimos para cima e para
a nossa surpresa o quanto vimos aprendendo. Que troca! Atleta tem disciplina, é
focado, obstinado por superação, quer vencer, mas de forma justa, honesta. O
superar-se é uma medida encontrada sempre no outro. Por isso que é importante
vencer o outro quando este está na sua melhor forma. E às vezes o outro é si
mesmo, é o tempo da sua melhor prova, é o seu próprio recorde. Que fantástico.
Aqueles meninos e
meninas do Estação Conhecimento só querem saber de medalhar – termo que nos
fascinou, que engenhosidade em transformar em ação aquilo que é mais
substantivo para eles: a medalha -, e nós ali, um corpo estranho. “Medalhar”,
“Corpo estranho…” é neste momento que a lampadazinha acendeu de novo. A liga
dos nossos ingredientes estava aí. O Corpo Estranho não somos nós e sim a
Literatura e o Cinema Brasileiro. Nós somos apenas os indutores desses corpos
estranhos que estão provocando um choque estético nesses meninos e meninas, que
pouco ou nenhum contato tiveram com estes dois segmentos da arte brasileira.
Como o Cine Literário
é um projeto de estímulo à leitura através do cinema e do cinema através da
leitura. E como aqueles meninos e meninas são obstinados, cada dia mais querem
livros e filmes. Chegamos à conclusão que devemos medalhá-los, também, por isso
– outro achado e um grande link com o esporte.
Quem receberá as
medalhas – ouro, prata e bronze -, na verdade, serão suas escolas. Não porque
estes garotos estão competindo entre si como quem leu mais obras que o outro ou
quem assistiu a mais filmes que o amigo, mas porque eles são verdadeiramente
vencedores em todos os aspectos. Estão superando a média anual de leitura por
brasileiro e estão assistindo a mais títulos de filmes brasileiros que a
maioria dos seus compatriotas.
Suas escolas, em
breve, tornar-se-ão exemplos, não como instituições que encerram em si o
conceito de Educação, mas como Instituições agregadoras e abertas, conectadas
em rede, capazes de associar todos os conjuntos de informações, conhecimentos e
práticas internas e externas.
Ah, e da parte do Cine
Literário, quando uma escola estiver com seu quadro de medalhas virtuais cheio
não significa o fim, apenas o encerramento de um ciclo. Neste momento ela
mudará de faixa, da branca para a laranja, por exemplo, como os vencedores nas
artes marciais, e esta simbologia estará lá no site do projeto para todo mundo
ver. Mais ai já é outro papo.
Hoje o Cine Literário
conta, também, com os patrocínios do ONS – Operador Nacional do Sistema
Elétrico -, e Chemtech. O projeto acontece no Rio de Janeiro, mas em breve
seguirá para Recife, Brasília e Florianópolis. Ainda faltam captar algumas
cotas. Estamos na cara e na coragem, no risco e na crença. Assim como aqueles
meninos e meninas, seremos vitoriosos.
*
Fundador e Diretor do Cinema Ponto Cine – 1ª Sala Popular de Cinema Totalmente
Digital do Brasil -, e único cinema no mundo a só exibir filmes brasileiros.
Recebeu da Ancine – Agência Nacional de Cinema – o Prêmio Adicional de Renda em
2007, 2008, 2009, 2010 e 2011. E pela Secretaria de Estado da Cultura do Rio de
Janeiro o Prêmio de Estímulo à Exibição Cinematográfica, em 2009, 2010 e 2011.
Adailton Medeiros foi ganhador do Prêmio Faz Diferença do Jornal O Globo, 2008,
Categoria Segundo Caderno/Cinema, pelo trabalho de difusão e democratização do
acesso ao cinema brasileiro.
Nenhum comentário:
Postar um comentário