Devaneios de uma roqueira 5
* Por
Fernando Yanmar Narciso
CAPÍTULO 2 (PARTE 2/3)
Conservatório
Artístico Maria Verônica Rotscheider... Well, it’s show time! Sei que é outra
coisa que não tem lá muito a ver comigo, mas num raro dia feliz cheguei ao
conservatório meio que desfilando pelo corredor sem me dar conta de que
desfilava, como numa cena dos filmes adolescentes de John Hughes.
Pra minha surpresa, no
dia seguinte eu era a hashtag nº1 no Twitter graças a um vídeo com meu gingado
chinfrim editado em slow-motion com a ópera Carmina Burama. E hoje tem até quem
me cobre o bailinho nos corredores quando chego mais acanhada. Ainda ‘tava’
trocando pernas por causa da noitada de sábado, mas enfim...
Óculos escuros na
testa, juba bem rebelde e esvoaçante, sorrisinho, pose de modelo e there we
went! Como sempre funcionários, professores e alunos entortaram os pescoços,
feito a menina do Exorcista, só pra ver euzinha passar. Porém, até esse
teatrinho tem seus limites, e assim que entrei na sala me esparramei na cadeira
e comecei a chorar e esgoelar de ódio de tudo que continuava a acontecer comigo
desde aquele show amaldiçoado.
De tão danada comigo
mesma, nem percebi que a classe já ‘tava’ completa dentro da sala. Os meninos e
meninas me acordaram de meu transe auto-piedoso com um sonoro BOA TARDE, PROFª
MOURA!
- AAAAAH! Uau!- Quase
me espatifei da cadeira- Holy crap, que susto!
- Tá tudo bem,
Alexia?- Perguntou um aluno.
- Eeeehr... Sim, sim.
E ‘ocêis’, como foram de FDS?
Já começava a tirar o
violão do estojo, tentando não pensar na ressaca nem ‘naquela coisa’, mas assim
que me virei de costas meu beloso se abriu num V e revelou o monstro de
Godzilla aninhado em minhas costas. O espanto, evidentemente, foi geral, e
fiquei tão envergonhada que minha cara ficou mais vermelha que minhas madeixas.
- Que tattoo é essa,
‘fessora? Parece que vai levantar voo!- Logo a classe inteira começou a me
trolar e rir de mim ‘respeitosamente’.
- Eeeeeehr... Bom...
Que me dizem de um acordo: Se todo mundo me acompanhar direitinho, prometo que
conto no final da aula como essa coisa foi parar nas minhas costas, mas depois
não espalhem a história pra mais ninguém, tá beleza?
O resto da tarde
correu tranquilamente. Acreditariam se eu dissesse que, mesmo sendo desse jeito
todo torto, fui a ÚNICA professora a conquistar 100% de aproveitamento das
classes nos últimos quatro anos? Um feito que dizem que desde a fundação do
conservatório, nos idos de 1982, ninguém havia conquistado antes de mim!
Pode-se dizer que entendo como a tal Professora Helena se sente...
Já era quase nove da
noite quando consegui encerrar o expediente, com não mais que três cafezinhos,
duas aspirinas e um pão-de-queijo fofinho como um bico de All-Star no estômago.
As sete classes que atendi me seguiram very nicely. A única chatice com que
tive de lidar foi a já tradicional ameaça de demissão de segunda-feira do Dr.
Anacleto, coordenador do conservatório.
Nem levo mais a sério
esse papo, pois sei que se for demitida meus capetinhas vão crucificá-lo num
poste elétrico. (Risos) Quase desmaiando de fome, consegui arrastar minha
bundinha pra fora do prédio que cheira a fungos e tem clima de necrotério. E lá
continuava Ulysses ao lado do portão, pitando seu cachimbo de estimação e
maquinando sua próxima malandragem. Durante a tarde fiquei muito mal por tê-lo
escorraçado da minha frente...
- Passou o azedume,
Vermelha?- Lá veio ele de novo.
- Um tiquinho... Dia
ruim pros negócios?
- Rotina é rotina.
Pelo menos assim fico mais tempo de papo pro ar... Mas what about you, Lexi?
Sumiu da cidade no FDS!
Adivinhem com quem
peguei a mania de falar frases em inglês?
- A gente foi dar um
showzinho numa festa de aniversário em Juiz de Fora sábado à noite. Rolou um
bundalelê daqueles no camarim, e aí... Só acordei hoje, com isso aqui nas
costas.
- Ai! Credo, Lexi! Quê
que te deu na cabeça, menina? Olha que Jah castiga, hem? Dizaí, gostou da cor
nova da caranga? Também fui a Juiz no FDS dar uma pimpada no Fleetline. Pensei
em grafitar a capa do Legalize It no capô mês que vem...
- Bonitona... Ele
ainda consegue andar com essa placa aí em cima? É do tamanho duma escada de
bombeiro... - Me referia ao imenso letreiro instalado no teto, escrito REI ULI
Ltda. COMPRO, VENDO, ALUGO, ETC. PRODUÇÕES ARTÍSTICAS, mais um badulaque que
não me lembrava de ter visto semana passada...
- Claro que anda. Com
o turbo que eu descolei dá pra voar até Marte com o velho Fleet aqui. 380
cavalos de rugido! ‘Óia’, não quer ir ali comigo, bater um rango no bar do
escocês, ou tomar umas? Tá parecendo tão fraca... Suas pernas tão balançando
mais que plantação de trigo!
- Ah, Ulysses, eu
faria tudo pra ficar bem quietinha hoje... Tô doida pra pôr algo sólido na barriga
e apagar pelo resto da noite... Cair na farra, nem morta, mas se ‘ocê’ quiser
me deixar lá em casa, eeeeeeeu...
Desmaiei em cima dele.
Ai que vergonha!
- E eu tenho escolha?
Vamolá, gata...
(CONTINUA...)
*
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