E se o lampião apaga?
* Por
Ana Deliberador
Era sábado e o
movimento de carroças, na avenida, intenso. O entra e sai nas lojas sugeria a
prosperidade da vila. Sentado em frente à venda, Porfírio tocava com paixão. O
tosco banco, branco de tanto lavado, gemia e entortava sob seu peso. Ficou ali
por horas e horas, até que o ar fresco da noite o levasse para casa.
Caprichosamente colocou o violão na prateleira. Lavou-se na bacia de ágate,
apagou a lamparina e deitou-se ao lado de Maria que, instintivamente,
encolheu-se no seu canto para ceder-lhe espaço.
As primeiras luzes da
manhã a encontraram soprando as brasas para avivar o fogo. Coou o café,
sentou-se no rabo do fogão com uma caneca da bebida, doce e fraca, em uma das
mãos, e uma grossa fatia de pão sovado na outra.
Estranhando a quietude
do marido, voltou ao quarto. Esperou algum tempo, acercou-se dele: estava
pálido, o peito não se movia. Chacoalhou-o, mas…nada! Saiu correndo, assustada,
atrás de Dona Anita, Mas nada se pôde fazer e Porfírio foi dado como falecido. Na
sala, os parcos móveis deram lugar ao defunto e deu-se início ao velório. Pouco
a pouco as pessoas foram chegando, até que toda a vila estava por ali. Que dia
mais apropriado para morrer, o domingo; ninguém tinha mesmo o que fazer!?
Zé Corrêa colocou as
mãos sobre as do morto, orou por ele e afastou-se, pensativo. Deu uma volta,
conversou um pouco, retornou para o lado do caixão. Observou longamente o
falecido, novamente orou com as mãos sobre as dele e, novamente saiu,
ensimesmado. À tarde o cortejo fúnebre seguiu pelas ruas poeirentas até a
pequena igreja – o padre aguardava para encomendar o corpo – e dali partiu para o cemitério que, graças a
Deus, ainda era habitado por poucos.
Ao final da cerimônia,
sem alarde, pediu ao coveiro que deixasse o caixão aberto até o dia seguinte – pedido
acatado como ordem. Anita, que percebera seu ar taciturno, esperava. Sabia que,
fosse o que fosse, o marido dividiria com ela.
- As mãos dele estavam
quentes! –José não tardou em dizer.
A mulher levou um
choque! Confirmara a morte de Porfírio mas, afinal, era farmacêutica e não
médica. Olhou para o marido, assustada, sem coragem de verbalizar sua dúvida.
A noite chegou e, com
ela, a chuva que se anunciara desde a manhã. À medida em que sua intensidade
aumentava, aumentava a inquietude de Zé Corrêa; já bem tarde, quando não
agüentou mais. Levantando-se abruptamente, pegou o lampião que estava sobre a
mesa, puxou a mulher pela mão.
– Vamos fechar o
caixão!
Tremendo por dentro,
Anita aquiesceu com um gesto. O caminho para o cemitério estava escuro; nuvens
pesadas escondiam o clarão da lua. Percorreram todo o trajeto em silêncio, a
água escorrendo pelos impermeáveis. Chegando à beira da cova – botas afundadas
no lamaçal grudento em que se transformara a terra vermelha recém afofada –
Anita, suando frio, pegou o lampião.
Já no primeiro passo
José escorregou, caiu de costas e foi deslizando até estatelar-se lá no fundo,
em cima do pobre e agora frio e encharcado Porfírio. Gemendo alto – de dor ou
de medo não se sabe – levantou-se e correu a escalar a parede. Quando conseguiu
sair, enlameado até o último fio de cabelo, segurou firmemente o lampião com
uma das mãos; com a outra, agarrou a mão de Anita e, sem dizer nada nem olhar
pra trás, tomou rapidamente o caminho de casa.
Porfírio que ficasse
para o dia seguinte. Afinal, já estava morto mesmo!?
* Professora, pintora e escritora
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