A grandeza de servir
Por Pedro J. Bondaczuk
As
grandes obras, tanto as legadas pelos antepassados, quanto as produzidas pelas
pessoas da presente geração, que se constituem em preciosos e perpétuos
patrimônios da humanidade, não são, apenas, as materiais, concretas, palpáveis,
visíveis e manipuláveis. Não se restringem, portanto, ao âmbito da ciência, da
tecnologia, das artes ou da indústria.
Por
outro lado, não se prestam a avaliações somente pelos critérios econômicos,
pelo quanto as pessoas que as desejam estão dispostas a pagar para tê-las. Isso
conta, evidentemente, ainda mais numa civilização consumista, como a nossa.
Todavia, não é o essencial.
Atos de solidariedade, de grandeza, de
dedicação ao próximo e de desprendimento (infelizmente cada vez mais raros
nestes tempos “bicudos” que vivemos), podem imortalizar os que os praticam e
fazê-los respeitados, admirados e sobretudo reverenciados através dos anos, dos
séculos e dos milênios. Embora seja o óbvio, raramente nos damos conta que do
mundo nada levaremos, quando viermos a morrer, mas apenas “deixaremos”: obras,
idéias, conceitos, exemplos, lembranças etc. Se bons ou maus, só o tempo irá
mostrar.
Muitas dessas pessoas especiais,
abnegadas e nobres (diria, a grande maioria), não deixaram nem mesmo registros
pessoais do que fizeram. Não nos legaram nenhum escrito, nenhuma autobiografia
e nem mesmo um simples diário. Foram, porém, imortalizadas por artistas de
renome, como personagens de romances, de contos ou de peças teatrais ou como
fontes de inspiração de crônicas, ensaios e biografias, pela impressão que
deixaram, tamanha a magnitude do que fizeram. Limitaram-se a agir, sem se
preocupar com o que os outros pensavam. E tornaram-se imortais.
Uma das figuras maiúsculas da nossa
época, ganhadora de um Prêmio Nobel da Paz, e que entrava, com a mesma
dignidade e desenvoltura, tanto em faustosos palácios dos poderosos, quanto em
miseráveis e infectas choupanas, foi uma humilde e frágil monja, que trajava um
hábito rústico e remendado, mas que punha “alma”, determinação e entusiasmo no
que fazia. O leitor, certamente, sabe a quem me refiro. À Madre Teresa de
Calcutá, claro.
Se não tivermos, pois, talento para as
artes; se não contarmos com aptidões técnicas para pesquisas, para a produção
de bens ou para administração, ainda assim poderemos legar à humanidade uma
obra sólida, vasta, valiosa e inesquecível. Como? Dedicando-nos a servir os
desvalidos, os necessitados, os doentes e os miseráveis (que não são poucos,
convenhamos, mas dois terços da população mundial, algo em torno de 4,5 bilhões
ou mais de pessoas).
Ocorre que a idéia predominante na
sociedade é a de que os que são servidos é que têm poder. São os que podem
“comprar” nossos serviços e, de quebra, posar, com ares de superioridade, como
todo-poderosos, não raro humilhando e espezinhando os que os servem. Parasitas
é o que eles são! Quem serve, mesmo que o faça por necessidade, para custear a
sobrevivência pessoal e da família, o faz porque “pode”. Tem saúde, disposição
e preparo para isso. E mais valioso ainda é o seu ato quando o faz por
convicção, e não por precisão, livre e espontaneamente. Isto é força! Isto,
sim, é poder, embora não seja reconhecido como tal em nossa sociedade corrupta
e alienada!.
Madre Teresa exerceu sua abnegada ação
nos lugares mais miseráveis e violentos do Planeta, nos confins da Índia, até
dias antes da sua morte, já fragilizada pela doença (mas sem lhe passar nem de
leve pela cabeça interromper sua missão), com convicção, com amor e, sobretudo,
com entusiasmo. Pôs em jogo tudo o que era. Mas não em busca de dinheiro, ou de
elogios fáceis ou de efêmera e enganadora glória. Agia assim porque era
necessário e isso lhe bastava. Fazia o que fazia porque alguém tinha que fazer!
Fernando Pessoa, nas “Odes de Ricardo
Reis”, escreveu:
“Para ser grande, sê inteiro: nada
teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa.
Põe quanto és
no mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda
brilha, porque alta vive”.
Madre Teresa nunca correu atrás de fama
e de fortuna. Pelo contrário, dividiu o pouco que tinha (que não era quase
nada), e tudo o que era (tão grandioso que não existem sequer parâmetros para
medir), com os desvalidos, com estranhos com os quais não tinha nenhuma
obrigação ou qualquer laço de consangüinidade e que, mesmo que quisessem, não
teriam como lhe retribuir.
Foi uma pessoa que pôde olhar para
trás, no momento da morte, e dizer, para a obra que havia “esculpido”, o mesmo
que Michelangelo Buonarrotti exclamou diante da perfeita escultura que tinha
acabado de elaborar: “Parla, Moses!!!” (“Fala, Moisés!), tão perfeita era a
estátua do líder hebreu que havia produzido. Em sua humildade, porém, não agiu
assim. Certamente lamentou, achando pouco o muito que tinha feito!
* Jornalista, radialista e escritor.
Trabalhou na Rádio Educadora de Campinas (atual Bandeirantes Campinas), em 1981
e 1982. Foi editor do Diário do Povo e do Correio Popular onde, entre outras
funções, foi crítico de arte. Em equipe, ganhou o Prêmio Esso de 1997, no
Correio Popular. Autor dos livros “Por uma nova utopia” (ensaios políticos) e
“Quadros de Natal” (contos), além de “Lance Fatal” (contos), “Cronos &
Narciso” (crônicas), “Antologia” – maio de 1991 a maio de 1996. Publicações da
Academia Campinense de Letras nº 49 (edição comemorativa do 40º aniversário),
página 74 e “Antologia” – maio de 1996 a maio de 2001. Publicações da Academia
Campinense de Letras nº 53, página 54. Blog “O Escrevinhador” – http://pedrobondaczuk.blogspot.com.
Twitter:@bondaczuk
Difícil acreditar que tenha realmente existido.
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