Amor, valores e
limites
* Por Rodrigo
Ramazzini
O festejo na despedida do Major
Porfírio, pela primeira vez o emocionara dentro do exército. Os anos que
passara servindo a corporação tinham-lhe dado os valores e a ética para,
segundo a sua crença, tornar-se um grande sujeito. Saía com o sentimento de
dever cumprido, pois tinha disciplinado centenas de recrutas, com a melhor
ordem e conduta que um homem carece ter. Era viúvo há quase 15 anos.
Aposentar-se-ia para se dedicar à sua outra paixão, o piano. Até já tinha se
matriculado em um curso para aperfeiçoar-se.
Viveu uma vida íntegra, correta, sem
nenhum deslize moral. A carreira militar ensinou-lhe a ser duro e extremamente
disciplinado, a ponto de separar suas cuecas pela cor. Dificilmente sorria.
Mantinha um bigode bem aparado, que passava a impressão de ser uma pessoa
extremamente ranzinza. Exigia da rua onde morava a disciplina que conduzia a
sua vida, isso lhe gerou inúmeras brigas com os vizinhos.
Como vivia sozinho, o piano sempre lhe
fora a melhor companhia. Já tinha iniciado o curso três vezes, nunca o acabara,
sempre alegava falta de tempo. Tempo esse que terá de sobra agora, com a sua
aposentadoria. Não gostou, inicialmente, da idéia de dividir a professora com
outro aluno, mas como era a aluna, o major preferiu não polemizar. O
entrosamento com essa aluna, chamada Berenice, foi aumentando com o decorrer
das aulas, de forma muito inesperada, ambos tinham a sensação que se conheciam
há anos.
Os mesmo interesses musicais,
literários, televisivos... Etc. Reacendeu no major a flâmula da paixão, não
falhava uma aula, e não resistindo aos encantos de Berenice, mesmo muito sem
jeito, afinal, há anos não se relacionava com uma mulher, convidou-a para um
jantar.
O namoro já estava completando um mês
quando o major mencionou a Berenice que não conhecia a sua casa, e que iria
visitá-la no sábado. Uma apreensão apoderou-se de Berenice. Replicou um não
nervosamente. E chamou-o para uma conversa no sofá.
“O que é certo ou errado nesta vida?”,
indagou-se o major. Ficou a pensar nesta questão, incomunicável, trancado em
casa, por dois dias ninguém o viu. Saber que Berenice era casada, tinha um
filho de dois anos e meio, mexera demais com o ser Porfírio. Ela dissera que
estava separada do marido, e que só permanecia em casa a pedido dele, pois
queria ver o filho criado até os quatro anos com os pais, e que depois disso,
apesar de amá-la, Berenice poderia ir viver sozinha.
Nestes
dois dias em que o major estivera fechado em casa, Berenice ligara centenas de
vezes, não fora atendida em nenhuma, queria explicar-se melhor, pois Porfírio a
expulsara de sua casa no meio da conversa. Apesar dos insultos que recebera do
major, Berenice não se magoou, entendia-lhe a raiva, por isso o procurou ao
terceiro dia.
Ao
chegar à casa do major, estranhara o gramado cheio de folhas e as janelas
fechadas. Chamou-o pelo nome, sem resposta. Forçou o trinque da porta da
frente, estava chaveada. Fez a volta na casa, repetiu a ação, a porta abriu-se.
A casa estava com cheiro de mofo, tudo jogado ao chão, parecia que um furação
por ali passara. Gritara: - Porfírio! Porfírio! Dirigiu-se ao quarto, a porta
encontrava-se encostada, abriu-a. Um não ecoou pela casa. Encontrara o corpo do
major jogado ao chão, com um tiro na cabeça. Lágrimas rolaram, abraçou o corpo,
olhou para cima indagando Deus, então, notou na parede pichada, os últimos
escritos de Porfírio:
Suicido-me
por amor! Meus valores não nos deixariam vivermos em paz...
*
Jornalista e contista gaúcho
Que drama terrível. A correção extrema leva a decisões extremadas.
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