Um jogo de palavras
* Por Clóvis Campêlo
Que o futebol veio parar no Brasil, na virada do século XX, trazido da
Inglaterra pelos filhos da nossa aristocracia, todos já sabem. Como
consequência, durante décadas, as palavras de origem inglesa predominaram na
nossa terminologia futebolística até se aportuguesarem ou serem substituídas
por palavras da nossa língua.
Desse modo, durante muito tempo, zagueiro foi full-back;
chuteira, boots; centroavante, center-four; cabeça de
área, center-half; escanteio, corner; empate, draw;
finta, dribbling; goleiro, goal-keeper; toque de
mão, hands; pontapé inicial, kick-off;
bandeirinha, linesman; jogo, match; juiz, referee;
impedimento, off-side; jogador, player; cara ou
coroa, toss; apito, whistle; etc.
Essa linguagem "antiga" nos veio novamente à tona durante a
Copa do Mundo dos Estados Unidos, em 1994, e durante a Olimpíada de Atlanta, em
1996, ambas na terra de Tio Sam. Utilizada pela televisão americana nas
transmissões, constituiu-se novidade para as gerações mais recentes, enquanto
que para as gerações mais velhas trouxe recordações dos tempos voluntariosos do
nosso futebol.
A influência da televisão na utilização de novos termos no jatgão
futebolístico, aliás, deu-se a partir da Copa do Mundo de 1970, no México, a
primeira a ser televisionada para quase todo o planeta. Quem não se lembra do
famoso repeteco que a televisão mexicana exibia no vídeo a
cada jogada repetida na telinha? Era o progresso tecnológico operando o milagre
da multiplicação das imagens e influenciando diretamente o nosso modo de falar.
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ORIGENS E EQUÍVOCOS
De um modo geral, dos neologismos criados e que enriqueceram o linguajar
do futebol alguns merecem destaque, como, por exemplo, a palavra gandula.
Os modernos dicionários definem o termo como "menino incumbido de ir
buscar e devolver a bola que sai de campo". Poucos sabem , porém, que o
termo originou-se de um jogador argentino chamado Gandula que atuou no Vasco da
Gama, do Rio de Janeiro. Muito gentil, ele apanhava a bola fora do campo para
entregar ao companheiro de profissão encarregado de repô-la em jogo, mesmo
quando era um adversário.
Dois outros termos interessantes, mas que não vingaram no gosto popular,
foram balípodo e ludopédio. Tanto o primeiro,
formado com os radicais gregos bales (bola) e podos (pé),
quanto o segundo, do latim ludo (jogo) e pedes(pé),
foram criados pelos puristas de plantão para substituir o anglicismo futebol,
sem sucesso. Consta ainda que o escritor Lima Barreto, por não suportar o
esporte bretão, criou a palavra bolapé, usada por ele com um
sentrido pejorativo. Avesso às novidades modernosas, o escritor carioca via no
futebol uma transgressão aos costumes da época.
Alguns outros termos criados são interessantes por fazerem referência
direta ou indireta a jogadores que marcaram época no futebol brasileiro de
outrora, embora muito destes termos já estejam em desuso. É o caso de belinada,
rebatida violenta conforme o estilo de Bellini, o nosso capitão na Copa de
1958; charles, jogada inventada pelo hoje conhecido Charles Miller
e que é feita com a parte lateral externa do pé; domingada, jogada
defensiva falha e que foge ao estilo clássico com que Domingos da Guia domiva a
apelota (outros, porém, consideram que o termo originou-se como uma referência
pejorativa ao penalte sem bola cometido pelo grande jogador brasileiro na Copa
de 1938); elástico, drible rapidíssimo inventado por Roberto
Rivelino; jogar o fino, jogar bem e com inteligência, numa
referência ao antigo jogador Danilo Alvim, que, por sua magreza, era conhecido
como "o fino da bola"; folha-seca, chute de muito efeito,
com a bola parada, inventado pelo bicampeão Didi, e, garrinchada,
usado quando um jogador tentava, sem sucesso, imitar os dribles desconcertantes
de Mané Garrincha.
OUTRAS PALAVRAS
Outros termos tornam-se interessantes por fugirem ao sentido original,
assumindo outras conotações: amarelar(correr do jogo por medo ou (vosismo); armandinho (jogador
sem ímpeto ofensivo); arrepiar (jogada brusca e decidida na
defesa); banheira (impedimento); bonde, perna-de-pau e
cabeça-de-bagre (jogador de baixo nível técnico); cartola (dirigente
de clube ou federação); catimba e cera (atitudes
retardam o jogo e irritam o adversário);chapéu, lençol e banho-de-cuia (jogada
aérea de efeito); frango ou peru (gol tomado
facilmente pelo goleiro);morcego ou chupa-sangue (jogador
que não esforça); traíra (jogador que se vende ao
adversário); corta-luz,chuveirinho, etc.
Um grande criador de termos e máximas do futebol foi o falecido técnico
Gentil Cardoso, que marcou época no futebol brasileiro nas décadas de 50 e 60.
É dele, por exemplo, a expressão dar zebra, criada para determinar
um resultado inesperado, numa referência ao clandestino jogo-do-bicho, já que a
zebra não se encontra entre os vinte e cinco animais que o compõem.
Para finalizar, o termo canarinha, utilizado hoje para
designar a seleção brasileira de futebol, devido a cor amarela das camisas, só
surgiu a partir da Copa de Mundo de 1954. Antes, a nossa seleção utilizava
camisas brancas como primeiro uniforme, abandonadas após a fatídica derrota na
Copa de 1950. Para o nosso escrete, amarelar foi uma atitude
que deu certo.
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Poeta, jornalista e radialista
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