Olimpíadas como fonte inesgotável de
histórias
As Olimpíadas – quer as originais, da Grécia Antiga, quer as
contemporâneas, criadas pelo Barão de Coubertin – são uma fonte praticamente inesgotável de boas
histórias, bastando, somente, que algum escritor talentoso e criativo se
aproprie delas e produza magníficos contos, romances, novelas ou seja que tipo
for de gênero literário. É certo que os Jogos atuais – que, na prática, começam
nesta quarta-feira, neste cenário magnífico de uma das mais belas cidades do
mundo, nosso maravilhoso Rio de Janeiro – favorecem mais, pelo menos num
primeiro momento, jornalistas. A eles compete relatar, com a máxima fidelidade,
o que está acontecendo para os consumidores das respectivas mídias a que servem:
televisão, rádio, internet com seus vários canais de difusão, jornais e
revistas. Porém, se eles levam vantagem no aspecto instantaneidade, têm, contra
si, esse mesmo fator. Ou seja, a premência de tempo, o que lhes exige precisão
absoluta, fartas e confiáveis fontes e muito, muitíssimo, imenso jogo de
cintura.
Já o escritor conta com todo o tempo do mundo para pinçar as
melhores histórias e, com método e criatividade, trazê-las aos leitores, e com potencial de permanência, ao contrário do
trabalho do jornalista, cujo fruto é sumamente perecível. Que tem “vida” só
enquanto novo fato não ocorra e não torne o que apurou com tanto afinco e
tamanho afã defasado e ultrapassado. Ademais, o escritor nem mesmo precisa se
ater a personagens reais, de carne e osso, e muito menos aos atuais,
protagonistas das Olimpíadas de 2016 no Rio de Janeiro. Tem a possibilidade de “criar”
seus próprios “atores”, dando-lhes, contudo, a maior verossimilhança possível,
o que nem mesmo é tão difícil. Não se tiver talento e disciplina para fazê-lo.
Além disso, tem, ao seu dispor, algumas centenas de Jogos
Olímpicos da Antiguidade, com fartura de fontes de pesquisa proporcionada pelo “milagre”
da internet. Hoje, com um simples clicar do mouse, temos acesso às mais
completas bibliotecas do Planeta, a praticamente tudo o que quisermos (ou que precisarmos)
saber. Por isso, estranho que o assunto seja, até aqui, tão pouco explorado,
notadamente pelos escritores atuais, já que os de um passado ainda recente não
contavam com os magníficos recursos com que hoje contamos. As competições
esportivas, e não importa a modalidade, apresentam praticamente toda a gama de
ações, reações e de emoções do ser humano no correr da vida: ambição,
frustração, euforia, orgulho, inveja, superação, autodisciplina etc.etc.etc. Já
imaginaram quantos, e psicologicamente tão ricos personagens estão à disposição
de quem tenha talento, imaginação e criatividade para criá-los?!!!
Da minha parte, caso me proponha algum dia a beber dessa
inesgotável fonte de inspiração (e penso seriamente em fazê-lo), se o fizer,
provavelmente me concentrarei em Olimpíadas antigas. Talvez não tão remotas
assim, a da época, por exemplo, em que foram criadas, por volta do ano de 776
a.C. Todavia, também não tão próximas, do período em que a Grécia foi
conquistada pelo Império Romano e os Jogos entraram em decadência. Se escrever
um conto a respeito (o gênero mais provável a que recorreria, por ser aquele em
que me sinto mais à vontade), situarei minha história, digamos, por volta do
ano 300 a.C. Já consegui material de consulta dessa época, para descrever, com
certa verossimilhança, cenários, comportamentos, vestuários e tudo o que é
necessário para a narração de uma boa história que se pareça a fato real.
Por falar no piradíssimo imperador romano Nero Cláudio
Augusto Germânico, que por 14 longos anos “desgovernou” a maior superpotência
do passado, é oportuno lembrar a influência negativa que ele exerceu sobre os
Jogos Olímpicos. Por exemplo, adiou a realização da 211ª Olimpíada (que deveria
ocorrer em 65 a.D) para 67 a.D, para que ela coincidisse com a época que havia
marcado visita à Grécia. Tinha, então, poder para isso. Porém, não se contentou
em simplesmente participar do evento como mero espectador, posto que ilustre.
Decidiu competir, em princípio na modalidade “corrida de quadrigas”. Deu
vexame. Caiu duas vezes e sequer completou a prova. Adivinhem, porém, quem foi declarado
o vencedor? Bingo! Foi ele mesmo, Nero. Como se vê, a arte da bajulação e do
puxassaquismo não é nada nova. Já era uma realidade e creio que desde o início
do que convencionamos chamar de “civilização”. Bem, é verdade que os juízes
pensaram na própria sobrevivência. Afinal, não é nada prudente contrariar um
louco, com ego maior do que o Império Romano.
Nero, porém, não se contentou em se tornar “campeão olímpico”
de corrida de quadrigas. Exigiu (e claro, foi atendido), que se instituíssem
três novas modalidades nos Jogos: canto, representação teatral e poesia. Creio
que nem mesmo é necessário informar quem levou os louros da vitória em todas
elas. Claro que foi Nero!!! Quem teria a coragem de reivindicar a vitória? Eu,
se vivesse naquela época e se participasse daquela excepcional 211ª Olimpíada,
é que não seria maluco de desafiar alguém mais louco do que eu (ou de qualquer
outro participante). E você, prezado leitor, como agiria?
Boa leitura.
O Editor.
Acompanhe o Editor pelo twitter: @bondaczuk
Melhor usar (ainda que, no nosso caso com Nero, de forma secreta) a tática do técnico da Seleção Brasileira perdedora em 1978 na Argentina. Cláudio Coutinho disse que o Brasil era Campeão Moral daquela copa.
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