Crônica esportiva
Volta
e meia sou questionado, principalmente por estudantes, se a crônica
esportiva, notadamente a que versa sobre essa paixão mundial, que é
o futebol, é literatura. Minha resposta, invariavelmente, é a
mesma: depende de quem a escreve e da abordagem que lhe confere. Há
pessoas que, embora lidem com texto e façam dele seu ganha pão, não
vibram com o que escrevem. Sua escrita é chata, monótona, formal e
sem graça.
Um
redator talentoso, criativo e original é competente o suficiente
para fazer de uma bula de remédio literatura de primeira linha. E há
outros tantos que, por melhor que seja o assunto que se propõem a
abordar, se perdem em bla-bla-blás sem pé e nem cabeça e despidos
de conteúdo.
A
crônica, esportiva ou não, para merecer de fato essa designação,
não pode ser factual. Ou seja, não pode se esgotar tão logo o
acontecimento que a gerou se esgote. Textos assim têm designação
própria: são artigos. Estes sim têm que se ater rigorosamente a
fatos e não fazem concessões a reflexões e muito menos a
divagações. A maioria das pessoas confunde, a todo o momento, os
dois gêneros, um jornalístico e o outro literário.
Tenho
lido com assiduidade grandes cronistas esportivos, dos quais o mestre
dos mestres foi, sem dúvida, o já saudoso Armando Nogueira. Ele
comentava, sempre com elegância e inteligência, mas sem jamais
fugir do rigor dos fatos, não apenas futebol, mas todo o tipo de
esporte, mesmo os menos praticados e mais exóticos. E mesmo quando o
assunto era aparentemente factual, todo ele calcado num determinado e
transitório evento esportivo, ele conseguia, por artes “mágicas”,
tornar o texto perene e, mais do que isso, imortal.
Tenho
crônicas de Armando Nogueira dignas de figurar nas melhores
antologias do gênero e, claro, com merecido destaque. Oportunamente,
comentarei algumas delas, irrepreensíveis do começo ao fim, sem que
o mais severo e ácido dos críticos possa encontrar o mais ligeiro
senão e fazer a mínima restrição.
Outro
cronista esportivo da minha predileção é Eduardo Gonçalves de
Andrade, ou melhor, Doutor Eduardo Gonçalves de Andrade. Dito assim,
o leitor pensará com seus botões: “O Editor, hoje, pirou, ou
bebeu. Não conheço esse cronista, de quem nunca ouvi falar”. Pois
bem, e se eu disser que se trata de um dos melhores jogadores que
este país pentacampeão do mundo já produziu, melhora? Vocês
estão, mesmo, lentos de raciocínio. Pois bem, já que não mataram
a charada, lhes revelo o apelido pelo qual ficou conhecido, quer nos
gramados, quer na crônica esportiva: Tostão.
Ah,
agora caiu a ficha! Pois é, o grande centroavante da Copa de 1970,
originalmente um meia, a exemplo de Pelé, Rivelino e Jairzinho,
revela-se tão bom na escrita quanto foi jogando bola. Seus textos
são como os do mestre Armando, embora ambos tenham estilos
totalmente diferentes. Mesmo os que parecem ser factuais, não o são.
Leiam qualquer de suas crônicas. Tomem, por exemplo, uma escrita há
dez anos. Não lhes parece que Tostão a escreveu ontem? Isso não é
jornalismo (e mesmo que fosse, seria da melhor qualidade), mas
literatura pura.
Quando
abordo determinados assuntos, principalmente os mais populares, como
este, evito, sempre que posso, de citar nomes. Por que? Para não
cometer injustiças das quais venha a me arrepender, omitindo gente
boa, que mereceria ser citada, mas que, ou por lapsos de memória (é
impossível lembrar-me de tudo o que preciso, nos momentos de maior
necessidade), ou por falta de espaço, acabo não dizendo nada a seu
respeito. E, invariavelmente, tenho que me penitenciar na sequência.
Mas
temos (felizmente), gente muito boa, jornalistas ou não, escrevendo
excelentes crônicas esportivas. Citaria, sem ter que pensar
bastante, Fernando Calazans, por exemplo, ou Márcio Guedes, ou Paulo
Vinícius Coelho, ou Juca Kfoury, ou André Plihal, ou Xico Sá (que
desmistifica o gênero e escreve textos deliciosos, com irreverência
e humor). Fosse citar todo mundo que gosto, gastaria os cinquenta
textos que programei para escrever, sobre literatura e futebol,
apenas digitando nomes. Claro que não é o que vocês esperam de
mim.
Creio
que a área em que o jornalismo brasileiro está melhor servido é,
justamente, esta, a dos esportes. Aliás, corrijo: do futebol.
Porquanto outras modalidades esportivas importantes, como o vôlei, o
basquete, o atletismo etc., vivem à míngua, com seus dirigentes e
praticantes vibrando de emoção quando conseguem, pelo menos, ser
citados, mesmo que de passagem e em apenas umas poucas linhas.
O
tema é amplo e é claro que voltarei a ele. Seria impossível fazer
sequer sua introdução em um espaço tão restrito, por maior que
fosse meu poder de síntese (que ademais é pequeniníssimo, já que
sou daqueles redatores prolixos, apreciados por poucos e um tormento
para os que não gostam de ler).
Boa
leitura!
O
Editor.
Para mim é uma festa.
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