Celebração
das marés
*
Por Alexandre Bonafim
Do
poema nada nos resta
a
não ser essa viagem
rumo
aos mares,
esse
gosto de naufrágio
ao
findar das paixões,
esse
astrolábio partido.
A
leitura do poema,
peixe
cego, barco amputado,
nada
nos ensina,
em
nada modifica
a
força das marés.
Rastro
de espuma
na
pele dos acasos,
o
poema finca suas âncoras
no
sal, na eternidade,
onde
nossas ausências
ardem
o grito dos corais
O
poema é nudez precária,
procela
sem ventos, sem nuvens.
Quando
nele adormecemos,
acordamos
com os ossos fraturados,
vergastados
pelas maresias.
O
poema é tão inútil
quanto
o mar ao fim da tarde.
Por
isso seu esplendor é límpido
como
a beleza da morte.
*
Poeta, contista, cronista, crítico literário, professor e mestre em
Literatura. Autor dos
livros
“Biografia do deserto”, “Sobre
a nudez dos sonhos” e “Arqueologia dos acasos”..
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