Conversa de doido?
“A
vida só é possível
reinventada.
Anda
o sol pelas campinas
e
passeia a mão dourada
pelas
águas, pelas folhas...”
“Sou
raiz e vou caminhando
sobre
as minhas raízes tribais...”
“É
por aqui que passam meditando
que
cruzam, descem, trêmulos, sonhando,
neste
celeste, límpido caminho
os
seres virginais que vêm da Terra,
ensanguentados
da tremenda guerra,
embebedados
do sinistro vinho...”
“O
que é isso?”, perguntará, atônito, o leitor. “É conversa de
doido?!”. Não, não é! Aliás, pelo contrário, são palavras dos
seres, provavelmente, os mais lúcidos do Planeta: os poetas. São
estrofes de poemas célebres, colhidos a esmo, para ilustrar nossas
considerações.
Os
primeiros versos, por exemplo, são de Cecília Meirelles. Trazem,
como se vê, belíssima metáfora do sol. Abrem seu tão conhecido
poema “Cada palavra uma folha”. Já a segunda citação é de
outra poetisa, não menos célebre, Cora Coralina, uma das mais
inspiradas da Literatura Brasileira. A metáfora da raiz é outro
inteligentíssimo achado. Foge, claro, ao senso comum. Quem não está
habituado a ler poesia, e tenta interpretar essas palavras,
literalmente, não vê sentido algum nelas. Classifica-as como
conversa de doido. Pena! Deixa de usufruir belo momento de sabedoria
e sensibilidade. Esses versos são os que abrem o poema “Sou raiz”.
Finalmente,
a terceira citação é de um poeta que me toca fundo na alma, não
apenas pelo seu tremendo talento, mas pela trajetória de vida que
teve, filho que era de escravos, numa época em que a escravidão era
coisa normal no Brasil (e os poetas é que são considerados
loucos!). Refiro-me ao catarinense João Cruz e Sousa, lídimo
representante da corrente literária que se convencionou chamar de
“Parnasianismo”. São os dois tercetos com que encerra o soneto
“Caminho da glória”.
Ler
poesia, para quem não está preparado para tal, e interpretá-la ao
pé da letra, é, de fato, o mesmo que ouvir conversa de doido.
Parece não haver nenhum nexo. Evidentemente, há! E que nexo!
Em
editorial que escrevi tempos atrás para o “Literário”, espaço
do qual sou editor, intitulado “Jeito de ler”, afirmei: “A
poesia é, sabidamente, um dos gêneros mais difíceis, se não for o
mais difícil, da Literatura e exige do poeta talentos especiais para
a produção de obras consistentes, duradouras e de real valor
literário. O leigo não entende que seja assim. Escreve textinhos
tacanhos, não raro eivados de erros de toda a sorte, e acha que se
tratam de ‘poemas’ transcendentais, embora tenham rimas pobres
(quando têm) e lugares-comuns em profusão”.
E
não é o que ocorre? Quem não é do ramo, se espanta com a
linguagem do poeta. Interpreta-a, reitero, como “conversa de
doido”, que é o que de fato parece. Parece... mas, evidentemente,
não é. Ali há talento, há visão e, sobretudo, há criatividade.
E como se deve ler um poema? Como se lê qualquer outro texto – um
jornal ou revista, por exemplo, ou mesmo uma placa de publicidade?
Evidentemente, não!
No
referido editorial, observei: “O poeta expressa seus sentimentos,
via de regra, através de metáforas que, se forem interpretadas ao
pé da letra, soarão como conversa de doido. Expressões como ‘brado
dos sapos em lagoas de luz’ ou ‘lágrimas de estrelas’, claro,
não podem ser interpretadas em sentido literal”. E nem “anda o
sol pelas campinas/e passeia a mão dourada/pelas águas, pelas
folhas...”, claro.
E
prossegui no editorial: “Há um jeito diferente de se ler poesia.
Requer-se uma predisposição emocional para se entender a mensagem
que o poeta quis transmitir. É um tipo de texto para ser ‘sentido’
e não meramente interpretado pelo cérebro. A melhor forma de lê-lo,
para ‘senti-lo’ em toda a sua grandeza e profundidade, é fazê-lo
em voz alta, atentando para a pontuação (quando existir)”.
Recomendo-lhe,
pois, leitor amigo, que “aprenda” a ler poesia. A primeira
vantagem que terá com isso será um prazer estético como poucos
outros que você já teve ou possa vir a ter. A segunda, é que
aprenderá a enxergar a vida por um outro prisma, menos árduo, menos
sofrido e violento e mais onírico, amoroso e casual.
Encerrei
o citado editorial dessa forma: “Quem adquire o hábito de ler
poesia, jamais o abandona. É um prazer estético como poucos. Vibra
com cada metáfora bem construída e chega a sentir na pele a emoção
que o poeta transmite. É, de fato, um gênero difícil, mas também,
dos mais belos (se não o mais belo) quando quem a ele recorre o faz
com talento e competência”.
Conversa
de doido? Palavras sem senso e sem nexo? Os poemas (os bons,
evidentemente) podem até soar dessa forma àqueles que Nelson
Rodrigues costumava classificar de “idiotas da objetividade”.
Colocar um poeta na categoria dos loucos é, de fato, manifestar a
própria insanidade. Ademais, admitindo que sejam, digamos, “um
tanto fora de centro”, eu exclamaria, como fiz em relação a
Vincent Van Gogh, ao mencionar que morreu em um hospício da Holanda:
“Bendita loucura!!”
Boa
leitura!
O
Editor.
Acompanhe o Editor pelo twitter: @bondaczuk
Dá trabalho ler poesia. Leio devagar, em voz alta e releio na sequência. Nem sempre gosto. Algumas vezes canso, mas não desisto. Gosto quando trata do tema aqui.
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