Amigos, amigos, bonecas à
parte
*
Por Michelle Rachel
Chegou o sabadão. O telefone
toca repetidas vezes, mas Solange não quer atender. A cabeça dói,
os olhos lacrimejam, um horror. De tanto trim-trim na cabeça e
gritos da mãe, resolve atender o impaciente:
- Aaaalô –
com a voz mais slow
motion
já ouvida na Terra.
- Sola, tô passando aí em
quinze minutos! Tututututututututu – lá se foi a ligação.
- Mas...
Não houve tempo de terminar a
frase. Ou melhor, de começá-la. Ah, pouco importava quem quer que
fosse a pessoa do outro lado ou o que queria; o mau-humor estava
reinando no quarto de Solange. De pijamas às cinco e vinte e cinco
da tarde, que não tirara o dia inteiro, a moçoila ajeita as
pantufas nos pés e coça o bumbum. A cabeça lateja e lateja.
- Hoje não tô pra ninguém,
cama...
Alguém entra arrombando a
porta.
- Sola, Solinha do meu
coração...!
Anely enforca Solange na
tentativa de dar-lhe um abraço. Solange fica sem ar e se joga de
cabeça na poltroninha rosa próxima à penteadeira. As duas caem no
carpete e quase se machucam. A cabeça de Solange, a essas horas, não
apenas latejava, mas dóia de verdade. O “galo” cantou na testa
da garota.
- Que diabos! – Solange
balança os braços com raiva.
- Eita lelê...que bicho te
mordeu, mulher?!
- Cala essa boca, Anely... já
não me bastam meus problemas e você invade o meu quarto, me derruba
e ainda fica gritando na minha orelha? Tenha dó!
Anely faz um bico e abaixa a
cabeça, com dois galos enormes na testa.
- Me desculpa...é a euforia
de sábado. É normal, você sabe...
- Ó, vou te desculpar desta
vez, mas que minha porta nunca mais seja arrombada deste jeito. Tá
louco, viu! Não sei porquê você é assim. Hoje estou com uma baita
dor de cabeça, não vi a cor do sol ainda e você me apronta. Olha
este galo aqui, tá vendo? Agora mesmo é que não saio na rua! Uiii
!
- Snif, snif...sniiiiiiif...
De rabo-de-olho, Solange
percebe que a amiga soluça baixinho, cabisbaixa. Senta na quina da
cama, com as mãos entre os joelhos.
- Vim te buscar para ir ao
cinema... hoje é a estréia do filme do Grad Fitt com a Anfelita
Jallie. Ia pagar sua entrada porque hoje é o seu ani...
- Não termina, não termina!!
Pelo amor de Deus, não terminaaaa...
- Mas hoje é o seu
aniversário!
- Mandei não terminar! Ai,
minha cabeça!
- Dia de aniversário deve ser
um dia de festa, não dia de vestir este pijama horroroso aí.
- Veja lá como fala do meu
pijama!
- E é dia de pentear os
cabelos!
-Arrrgh...
- E também é dia de escovar
os dentes como nunca! Que bafo, Jesus!
- Vem aqui, agora – Solange
tenta agarrar a cabeça de Anely, que sai correndo.
As duas começam a dar voltas
em torno da poltrona.
- Peraí. Peraíiii.
- Você me tira do sério!
- Vamos conversar.
- Depois que você levar o que
merece!!
Anely pára. Solange bufa e
seca a testa molhada de suor.
- Amiga, hoje é seu
aniversário. Uma data linda, 18 anos de existência.
- Este é o problema!
- Já fiz 19 e estou super
feliz!
- Mas eu estou triste
hoje...18 anos! Pra quê?
- Vamos lá...quero te dar os
parabéns. Me dá um abraço,vai.
- Não vou conseguir, você
está muito gorda, Anely.
- Olha, não seja ingrata. São
19 anos de excesso, viu, excesso de gostosura.
As duas ficam de braços
dados, tentando se abraçar sobre a barriguinha saliente de Anely.
O celular de Solange toca.
- Quem? A Anely? Tá aqui sim.
Tá. Fala com ela.
- É ela. Se vamos? Vamos,
sim. De pijaminha da She-ha? Quiá,quiá, pode ser.
- O que foi? Vamos aonde?
- Se troca pra gente sair.
- Não quero deixar este
quarto hoje. 18 anos de ...
- Blá,blá,blá. Onde ficam
suas blusinhas? Nesta porta?
- Nãaaaaao abr...!!
Bum! Cataploft!
- Quem mandou mexer aí??
- De onde você tirou tantos
brinquedos??
- São meus...desde que nasci.
Há 18 anos ganhava meu primeiro patinho de borracha.
- Meu Deus do céu! Estou
perplexa com você! Patinho de borracha! Me parece que aqui há mais
de quarenta bonecas...quase todas intactas...olha ali, uma que nem
foi tirada da caixa!
- Sempre tive de tudo. Mais do
que precisava. Mas o que quero mesmo, isto não tenho.
Anely pega no colo uma
boneca-bebê.
- Mas o que você não tem,
menina?
- Amigos sinceros.
- Eu sou sincera.
- Mas queria mais amigos,
amigas...
- Não diga isso. Todo mundo
te ama.
- Não acredito. Hoje ninguém
lembrou do meu aniversário.
- Ah...então é isso? Você
está chateada porque se sente abandonada, sei.
- Não é isso...
- Vem cá!
Anely puxa a amiga pelo braço,
a pantufa fica presa ao tapete e lá se vão as duas para o chão
novamente. Mesmo assim, com muita pressa, Solange é puxada pelos
cotovelos até a porta.
- Espera! Vou tropeçar de
novo! Meu celular está tocando!
- Deixa isso pra lá e vem
aqui. Cuidado com os degraus.
A casa estava silenciosa. Tudo
arrumadinho na sala e na varanda. Solange fica sem entender bolhufas.
- Siga-me – Anely fala com
um ar muito sério, jamais visto por Solange.
- Estou assustada com seu
jeito.
- Shhhhhh! Silêncio nesta
hora – sussurra reclamando.
As duas caminhavam em direção
à cozinha andando com a ponta dos pés.
- Acho que você enlouqueceu
aos 19 anos, Anely...não estou entendendo nada! Raios!
- Gire esta maçaneta e abre a
porta devagarinho,vai! Anda!
Solange fica ressabiada. Mas
resolve abrir a porta da cozinha conforme Anely dissera.
- Surpresa!!!!!!!!
Amigos, muitos amigos. Mãe,
pai, vizinhos fofoqueiros (não dava para perder a festa surpresa da
Solange, né). Até cachorro e gato formavam um coro a cantar
“Parabéns pra você” à moçoila do começo da história.
Solange ria e chorava ao mesmo tempo, queria abraçar a todos.
- Fizemos esta surpresa porque
você é muito especial para nós, Sola.
- Nunca soubemos expressar
tantas alegrias que você nos deu, Solzinha.
- Que Deus continue te fazendo
esta pessoa tão gentil.
- Ah...não sei dizer nada tão
chique...vem cá e me dá um abraço, Solange!
Foi ouvindo estas palavras que
a aniversariante terminou o seu dia. Acabou adormecendo ao lado da
amiga no sofá da sala. De pantufa, descabelada, sem escovar os
dentes sujos de bolo de chocolate e brigadeiro. Estava feliz.
Descobriu aos 18 anos que amigos são assim mesmo: muitas vezes não
dão as caras, te deixam de lado, mas jamais te esquecem. Cortam os
cabelos, pôem Botox, ficam velhos e rechonchudos, mas jamais te
esquecem. E mais: são essenciais para a vida de qualquer um, nem que
o primeiro seja um patinho amarelo de borracha.
* Jornalista e professora
de Inglês na Faculdade de Campo Limpo Paulista desde 2003
Sacanagem. Deveriam ter-lhe inventado uma desculpa e feito ela se arrumar.
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