Concorrência e parceria
Há
pessoas que encaram a vida de forma permanentemente belicosa. Estão
sempre com duas pedras nas mãos para atirar no primeiro incauto que
lhes cruze o caminho. Vivem de mau humor e não têm o menor
escrúpulo em descarregar sua bílis nos outros. São incapazes de
vislumbrar beleza, grandeza e transcendência ao seu redor. Tenho
analisado muito este tipo e criei, até, uma legião de personagens
com essas características. Afinal, “modelos” é que não me
faltam e eles andam dando sopa por aí..
Outros
tantos não entendem o sentido da palavra concorrência. Acham que
quem concorre com eles é, liminarmente, seu inimigo. Vislumbram a
vida como uma grande competição (e em certo aspecto é), em que
somente os fortes e os espertos se saem bem. Nem sempre é assim (ou
pelo menos não deveria ser) Não consigo assimilar essa postura,
embora a respeite. Procuro, porém, por questão de prudência,
colocar distância de trilhões de anos-luz de pessoas assim. Prefiro
apostar em parcerias.
Encaro
meus colegas escritores não como competidores por um mesmo espaço e
muito menos como adversários aos quais devo derrotar, sob pena de
ser derrotado por eles. Posso, perfeitamente, competir com alguém e
ainda assim tê-lo como parceiro. Afinal, temos importante afinidade,
a literatura e se formos sábios e práticos, partilharemos nossos
conhecimentos e habilidades e ambos cresceremos. Para que um cresça,
não é condição sine qua non que o outro diminua até desaparecer.
Podemos (e devemos) crescer juntos.
Tive
um imenso privilégio de conviver com escritores talentosíssimos,
alguns já falecidos, que infelizmente não tiveram projeção
proporcional aos seus inegáveis talentos. Três se destacam em minha
memória, dos quais recebi profunda influência, que me tem sido
utilíssima neste complicado, às vezes tenebroso e não raro
frustrante mundo das letras: Mauro Sampaio, Maurício de Moraes e
Uassyr Martinelli. Claro que há muitos outros, mas minha convivência
com os três citados foi muito mais duradoura e profícua (e creio
que para eles também).
Foram
eles, por exemplo, que me abriram os olhos para determinadas nuances
da poesia que antes de conhecê-los eu não havia atentado. Foram
eles que vislumbraram em mim um poeta, coisa que até então eu
duvidava (e que, sinceramente, ainda tenho grandes dúvidas).
Éramos,
simultaneamente, concorrentes e parceiros. À primeira vista, pode
parecer um paradoxo. Paradoxal ou não, porém, era assim que nos
sentíamos. Estabelecemos uma “concorrência” de alto nível,
cada um buscando superar o outro em sensibilidade e, acima de tudo,
em criatividade. Líamos, uns para os outros, nossas produções e
criticávamos, sem dó e nem piedade, o que entendíamos que fosse
criticável.
Tais
críticas, contudo, jamais chegaram a abalar nossa amizade, sequer a
arranhá-la. Porquanto, não nos limitávamos a criticar, mas
apontávamos os defeitos detectados nos respectivos textos e
sugeríamos formas de correção. Éramos (e nos sentíamos assim),
concorrentes, mas, simultaneamente, também parceiros. Muitos dos
meus melhores poemas têm que ser partilhados com esses irmãos de
fé, pois só ganharam qualidade por eu acatar seus reparos a eles. E
vice-versa, claro.
Sempre
que posso, trago, em meus textos, seus nomes e suas produções
literárias à baila. Em um país sem memória, infelizmente foram
esquecidos. Contudo, voltam a ser lembrados (e admirados) quando
reproduzo trechos de seus magníficos poemas, crônicas e contos em
todos os livros que tenho escrito, que, de uma forma ou de outra,
melhoram a qualidade do que escrevo.
Fomos
concorrentes, sim, mas jamais adversários e muito menos inimigos.
Concorremos, sem dúvida, mas como pessoas que sempre se admiraram,
quiseram bem umas às outras e principalmente se respeitaram. Sem
abrir mão de nossos respectivos estilos e personalidades, fomos
fiéis e leais parceiros e, muito mais do que isso, amigos no sentido
lato do termo. E o lucro dessa parceria foi, é e sempre será
partilhado, em idênticas proporções, por nós.
Boa
leitura!
O
Editor.
Admirável parceria.
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