A
ex-esquerda caiu por sua derrota ideológica
* Por
Bruno Lima Rocha
Afirmo de maneira
categórica: A ex-esquerda sucumbiu por ignorância ou subestimação do conceito
de ideologia e a consequência direta da falsa ideia de hegemonia na sociedade
brasileira. Como também afirmo há tempos, chegando ao ponto da exaustão por
repetição do conceito, não trato da hegemonia de tipo superficial ou rasteira,
quando se entende – de maneira equivocada – a “ter hegemonia” a simplesmente
impor alguns nomes para certos cargos-chave em instituições importantes dentro
de uma sociedade estruturalmente desigual. Isso não é hegemonia, talvez
hegemonismo, velho vício das esquerdas encantadas com a tentação autoritária.
Ouso afirmar que passamos ainda pela doença de um certo “hobbesianismo
distributivista”, e muito além não vai o pensamento de tradição stalinista e
também neovarguista. Neste segundo, tendo como aliados os primeiros, localizo a
posição ideológica do ex-presidente Lula e do fenômeno do lulismo. E, assim
como em 1954, perde-se tudo por não entender o tipo de sociedade pós-colonial
onde nos encontramos. Ou pior. Perde-se tudo por acreditar na
institucionalidade burguesa mais do que a própria oligarquia nacional e os
estamentos que agora se aventuram na tomada do poder de Estado (tal como
magistrados e procuradores). Enfim, perde-se o Poder Executivo por não
acreditar em nenhum momento em criar ou reforçar agentes coletivos com poder de
veto. Logo, perde-se o Poder Executivo Pós-colonial, criollo e burguês por não
querer nada com o Poder Popular.
Muito se há especulado
a respeito da perda absurda do poder por parte do segundo governo Dilma
(2015-2016). Podemos realçar o papel das empresas de marketing digital e centro
de fomento do neoliberalismo; também a função estratégica da mídia massiva para
formar um novo consenso conservador; a ação do imperialismo através da Operação
Pontes e com a instalação da Força Tarefa da Lava Jato (praticamente
incontrolável e em cooperação direta com os EUA); e obviamente a ação traidora
do ex-aliado político, encabeçado pelo vice-presidente eleito e reeleito com a
ex-ministra da Casa Civil de Lula. Mas, insisto, a ação do inimigo estratégico
era subestimada pelo lulismo, que a via apenas como adversário circunstancial.
Logo, ao não assumir a impossibilidade de uma aliança de longo prazo e
consequente “defesa da estabilidade institucional”, Lula, Rui Falcão, José
Dirceu e outros dirigentes de peso, conseguiram impor seu consenso e
autoconvencimento sobre uma legenda com milhares de filiados, mas com pouca
democracia interna na tomada de decisões centrais.
A derrota ideológica
passa por confiar em demasia e não ter um trunfo, uma carta na manga. Ninguém
em sã consciência pode se “surpreender” com a conduta de Michel Temer – a
começar pela carta onde este se apresenta como “candidato” em pleno exercício
da Vice Presidência – sendo este operador filho político de Adhemar de Barros e
projetado nacionalmente através de Orestes Quércia. Considerando que a Direção
Nacional do PT e o próprio Lula têm carreira em São Paulo, não se pode alegar
desconhecimento ou má interpretação. Vou além no raciocínio. A derrota
ideológica é uma posição de antemão, onde um dos agentes centrais em um
conflito simplesmente o nega, por supor que o antigo inimigo já não o considera
mais “inimigo” por este tentar se apresentar como “fiável e comportado”. Ocorre
que basta um mínimo de compreensão das sociedades concretas da América Latina –
Brasil incluído e não fora, como se estivéssemos de costas para o Continente –
para verificar que a mesa pode ser virada a todo instante. Se não bastassem
nossos mais que convincentes processos históricos, bastava observar os golpes
brancos, institucionais e bem sucedidos de Honduras (com a deposição de Manuel
Zelaya Rosales, eleito em janeiro de 2006 e derrubado com o aval da Suprema
Corte em junho de 2009) e Paraguai (quando o então presidente Fernando Lugo,
assumiu em agosto de 2008 e derrubado após um controvertido impeachment em
junho de 2012). Como a arrogância e a prepotência são filhas diretas do
exercício do poder político, imaginaram que “no Brasil não ocorrem mais destas
coisas; não somos uma republiqueta”. Não, claro que não. O Bananão se afirmou
por cima das instituições e o estamento togado trouxe para si o papel de Poder
Moderador, legislando por jurisprudência e súmula vinculante.
Mídia, bestialização e
a ausência das ideias de câmbio
“E o povo
bestializado, assistiu à proclamação da tal da república”. Assim encerra a
narrativa clássica dos que acompanharam o golpe militar de 15 de novembro de
1889, quando o gabinete da Guerra derruba a monarquia brasileira a quem o
marechal Deodoro da Fonseca servia. A mudança de regime político sempre tende a
ser um momento traumático para operadores, elites em disputa ou setores de
classe dominante perdendo interesses diretos. Mas, para a maioria, ainda quando
há alguma inclinação popular no governo de turno, se esta não for organizada na
defesa de suas bandeiras e conquistas diretas, a tendência é se dedicar a
sobrevivência diária. Na ausência de sujeitos sociais com organicidade e
referências desde a base, o povo brasileiro, infelizmente, percebe os sintomas
dramáticos apenas quando se sente atingido. É como alguém caminhando no escuro
e recebendo murros, sentindo as dores, mas não reconhecendo quem golpeia.
Quando temos um país
com sujeitos sociais desorganizados, mesmo sendo estes tão beneficiados por
programas de governo, não é a melhoria material que vai levar a uma
significação ou câmbio de consciência. Assim, ainda que a vida melhore, a
maioria vai perceber que o dinheiro em conta, o emprego direto e os benefícios
materiais vão implicar em mais trabalho e compromisso, e não em mudança
ideológica. Por um período, estes beneficiados terão alguma identidade com o
líder carismático – no caso, o ex-presidente Lula. Mas, assim que o modelo
começa a ruir, o voto cativo fica “liberto”, em geral caindo na abstenção,
branco ou nulo, conforme se verificou no primeiro turno das eleições municipais
de 2016.
Como a vida cotidiana
de amplas camadas das classes C e D melhoraram, mas não ao ponto de transformar
as relações cotidianas, e nem mesmo diminuindo significativamente os índices de
violência urbana, a identidade política com o “ex-sindicalista que nunca foi de
esquerda” (frase do próprio Lula) não chega ao ponto de ser totalmente
transferida para a sucessora. A ruína do modelo macroeconômico caminhou lado a
lado e foi impulsionada pela permanente exposição seletiva e julgamento
midiáticos, com foco no “conjunto da obra” do lulismo. Diante da possibilidade
de subordinar o governo que fez de tudo para agradá-los, os conglomerados de
mídia, liderados pela Globo e secundados por Estadão, Folha e Abril, costuraram
o consenso conservador, auxiliados pelos neoliberais no andar de cima e os
neopentecostais na base da pirâmide social. Deu no que deu.
Apontando a conclusão
óbvia
Na ausência de
organização social, é impossível defender práticas indefensáveis sem sequer
entender a perda de direitos que já está ocorrendo. Para organizar a maioria, é
urgente construir, pouco a pouco, um novo consenso dos sujeitos sociais que
conformam esta maioria, apontando para a defesa de interesses e identidade
popular totalmente antagônica às representações simbólicas da classe dominante
colonizada.
*
Jornalista e cientista político
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