Biblioteca virtual
A era da informática vem contribuindo
decisivamente para a racionalização da vida urbana, fazendo, por exemplo, sem
esforço, aquilo que as autoridades vêm tentando fazer (sem grande sucesso,
através dos inconvenientes, mas necessários, rodízios): tirar centenas de
milhares de veículos motorizados das ruas, objetivando combater vários tipos de
poluição (atmosférica, sonora, visual etc.). Como? Através das chamadas
"cidades virtuais".
O cidadão já pode, se quiser, realizar
operações do cotidiano, como pagar e receber contas, fazer depósitos e saques
em bancos, comprar produtos em supermercados e lojas etc., sem sair de casapelo computador,
celular ou tablete. Quando John Naisbitt previu, no livro
"Megatendências", a possibilidade das residências se transformarem em
extensões das grandes empresas e corporações, muitos viram na previsão novo
exercício furado de "futurologia". Hoje, milhões e milhões de
pessoas, mundo afora, trabalham em suas casas, com computadores próprios ou
bancados pelos seus empregadores. Como se vê, o futuro já chegou e não nos
espantamos com ele!
Todavia, a mim, que sou um leitor
compulsivo e obsessivo (ambos simultaneamente), o que mais me fascina, nessas
“cidades virtuais” que percorro, diariamente, há mais de vinte anos, são as
suas bibliotecas. Obras raras, às quais pensei que jamais teria acesso – o que
me causava, sem dúvida, imensa frustração e despeito – estão agora ao meu
dispor, sem que eu precise sequer despender um único centavo (a não ser a taxa
mensal do Virtua e, claro, a conta de luz). Fora o fato que não tenho que sair
de casa para me dar esse prazer intelectual e esse privilégio cultural.
Com toda a despesa que eu possa ter com
meu computador, sai, portanto, evidentemente, muito mais barato valer-me das
bibliotecas virtuais, do que adquirir esses livros, não importa onde que,
ademais, precisaria encontrar em sebos e/ou livrarias. Muitos, no entanto,
estão, há anos, esgotados e não foram reimpressos há já décadas.
Em uma das minhas férias, por exemplo,
pude ler, nas tantas “bibliotecas virtuais” que visito, cujos links estão entre
os meus sites favoritos, os dois únicos romances de Machado de Assis que não
possuo: “Esaú e Jacó” e “Memorial de Aires”. Procedi, em relação a eles, como
tenho feito em relação às outras tantas obras que possuo em minha razoavelmente
bem sortida (de mais de quatro mil volumes), mas caótica biblioteca. Ou seja,
elaborei as respectivas fichas de leitura (que faço questão de serem manuais,
naquela minha letrinha miúda e exótica), anotando os trechos que considero
fundamentais dessas obras-primas do “Bruxo do Cosme Velho”, como Machadão
chegou a ser chamado na intimidade.
É verdade que a leitura na telinha do
computador, ou do tablete, é mais cansativa do que em papel. Com o tempo,
porém, a gente se acostuma. Para quem não se acostumar de maneira alguma,
existe o recurso de gastar pacote e meio de sulfite e imprimir os livros que queira
ler. Apesar dos pesares, prefiro o método novo. Ou seja, leio-os na tela do
computador (ou do tablete) por achar que me concentro mais e sequer
sobrecarrego a memória da máquina.
Quando quiser reler qualquer coisa,
basta fazer o link da biblioteca virtual em que o tal livro estiver disponível,
de forma rápida e direta, mais cômoda, até, do que ter que me levantar da minha
cadeira e procurar determinado volume nas minhas abarrotadas e bagunçadas
estantes. Essa procura seria demorada demais. Afinal, não tenho uma
bibliotecária que ponha ordem nessa imensa mixórdia.
Nas estantes da minha biblioteca
misturam-se, de forma aleatória e ilógica, tratados de filosofia com romances;
poesia com livros de antropologia; ensaios com sociologia e o diabo a quatro.
Não raro, em minhas pesquisas, chego a gastar um dia inteiro à procura de um
determinado volume que, por obra e graça (mais graça, convenhamos) do tinhoso, geralmente
está no lugar mais inacessível possível de determinada estante.
Já na biblioteca virtual isso não
acontece. Basta acessar o índice dos livros disponíveis, dar um clique no mouse
sobre o seu título e imediatamente o texto está sob os meus olhos. Outro livro
que li, e com o qual me deliciei, em uma das férias foi “Brasil, país do
futuro”, de Stefan Zweig. Abrindo um parêntese, garanto que não conheço
abordagem mais lúcida, de nenhum escritor brasileiro, sobre o nosso povo, a
nossa história e nossas potencialidades, do que as desse austríaco que se
apaixonou perdidamente por nosso país. Pena que na atual geração poucas pessoas
tenham lido essa obra, que recomendo, com entusiasmo, aos meus pacientes
leitores.
Uma das maiores invenções de todos os
tempos, que nós, pessoas modernas, não valorizamos devidamente, dada a
facilidade de obtê-la (nem sempre foi assim, pelo contrário) é o livro. Ele
permite o acúmulo de sabedoria, de experiências e de emoções de indivíduos
especiais e possibilita o acesso a elas de gerações e mais gerações, por séculos
e mais séculos (às vezes milênios) afora, após a morte destes. Agora, nesta
incrível era da informática e, sobretudo, da internet, seu acesso tornou-se
mais fácil ainda.
É verdade que o número de livros
disponíveis nas várias bibliotecas virtuais que se multiplicam, internet afora,
ainda é relativamente pequeno (creio que menos de 1%) em relação à quantidade
de títulos lançados anualmente pelas editoras, em todo o Planeta, orçada, de
forma bastante conservadora, em torno de 60 milhões. Ainda assim, quem ler “apenas”
essas obras, e com a devida atenção e capacidade de apreensão, terá,
certamente, cultura acima, muitíssimo acima da média. Que mundo fascinante a
informática nos descortina!
Boa leitura!
O Editor.
Acompanhe o Editor pelo twitter: @bondaczuk
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