Como
nós, velhos, brincávamos: uma aula na Edem
* Por
José Ribamar Bessa Freire
"I am out of the game. I am ready, my Lord". (Leonard
Cohen)
- "Tuturubim tetê
tique-taque tambarola teje dentro teje fora".
Fora? Fora quem? Era
assim que, no bairro de Aparecida, em Manaus, a gente escolhia, nos anos 1950,
quem ficaria na berlinda ou ocuparia lugar de destaque nas brincadeiras. Essa
fórmula de sorteio, que a TV substituiu por "uni duni tê", foi
ressuscitada nesta terça (21) na escola EDEM, em Laranjeiras, no Rio, numa aula
para crianças do 1º ano do Ensino Fundamental. Aos seis anos, elas estão
estudando as fases da vida e se interessaram em conhecer a rotina de um idoso.
Esse velhinho aqui, quase septuagenário, foi escolhido para conversar com a
turma, atendendo indicação de sua neta à professora.
- Te comporta, vovô -
advertiu minha neta. Por causa dela, eu me comportei. Durante uma hora, as
crianças me bombardearam com dezenas de perguntas para comparar as nossas
respectivas infâncias. De saída, um menino com cara sapeca me provocou:
- Você era muito
bagunceiro?
Fui sincero:
- Muito! Aprontei
muuuuuito! Eu tocava o terror - respondi
sem disfarçar o orgulho. O menino abriu um sorriso cúmplice e sacana, pedindo
detalhes. Mas a expressão discretamente aflita da professora me fez omitir as
travessuras, que só conto em particular para minha neta (e assim mesmo longe
dos pais dela), porque afinal, sem insubmissão não haveria História. Além do
mais, alguém tem de ensinar - que seja o avô - que uma transgressãozinha aqui e
ali pode fazer um bem danado à vida, à sociedade e ao insubmisso. Em certas
circunstâncias, bien sûr. Ah, se os soldados nazistas tivessem aprendido a
desobedecer!
Uma menina: - Você
lembra o nome da sua primeira professora?
A pergunta me permitiu
recuperar lá do fundo do baú uma freira inesquecível, a irmã Cecília e, com
ela, organizar a memória da infância, de seu jardim e de seu quintal.
O que é Mbaravija?
Queriam saber como era
meu trabalho de professor de gente grande na UERJ e na UNIRIO. Nada disse sobre
as aulas na graduação e na pós. Por ser monotemático, lhes falei dos cursos de
formação de professores indígenas que ministro. Mostrei o livro Maino´i rapé -
o caminho da sabedoria, que fizemos com os professores guarani. As crianças
adoraram um cartaz bilíngue guarani x português com adivinhações:
"Mbaravija, Mbaravija? - O que é, o que é?", editado pelo Museu do
Índio com assessoria do antropólogo Luís Doniseti. Acertaram quase todas as
adivinhações com que os velhos guarani desafiam os netos.
- Na sua época tinha
dinossauros? - me perguntou uma menininha linda, quando soube que no mundo da
minha infância não existiam tablets, celular, videogame, internet, computador,
televisão, shopping. Coitadinho do vovô! Como é, então, que eu brincava?
Desafiado, fiz uma enorme lista parecida ao Jogos Infantis, o óleo sobre tela
do Pieter Bruegel, o Velho, com crianças em roupas alegremente coloridas se
divertindo na praça, no jardim, nas ruas, dentro de casa e até na beira do rio,
colecionando mais de 80 brincadeiras de sua época, o século XVI.
O velho Bruegel
certamente se entusiasmaria com alguns
brinquedos amazônicos caseiros: óculos de caroço de marimari, time de
botão e bolinha de gude de tucumã, pião da goiabeira, curica de papel, telefone
de caneca de leite condensado, trator de lata redonda cheia de areia
atravessada por arame, aro de bicicleta rodado com vareta. Havia ainda
brincadeiras mais universais: perna de pau, barra bandeira, macaca
(amarelinha), queimada ou cemitério, cabo de guerra, 31 alerta, manjalé, alguns
descritos por Thiago de Mello em seu Manaus, Amor e Memória.
Tinha brincadeira
sazonal. Na época das chuvas, milhares de tanajuras, fêmeas das saúvas, voavam
à tardinha, buscando acasalar. Corríamos em bandos, cada um com uma lata,
gritando repetidas vezes como numa ladainha: "Cai, cai tanajura, tua bunda
tem gordura". A autonomia de voo delas era pequena. Caíam, atordoadas. Com
farinha, dava uma farofa supimpa. Isso o Walter Benjamin faria nas ruas de
Berlin, se lá existissem formigas aladas.
Estreita, estreitinha
A brincadeira que os
Makuxi deixaram para a atividade motora das crianças amazonenses foi a do
Gavião e da Galinha, personagens representados pelas duas crianças maiores.
Detrás da galinha se enfileiravam os pintinhos. Diante deles, o gavião, aos
pulos de um lado ao outro, atacava: "Quero comer galinha assada". A
galinha e os pintinhos se defendiam e respondiam em gritos cadenciados, sempre
saltitando: "Não há de comer, não há de comer". De um por um, o
gavião vai pegando sempre a última criança da fila, que passa a pular detrás
dele. A brincadeira termina quando a galinha fica sozinha.
As brincadeiras eram
quase sempre iniciadas com vários tipos de sorteio como o tuturubim. Um deles
trazia a voz do mundo rural e católico, separando sílaba por sílaba:
- "Fui no mato
cortar lenha, santo Antônio me chamou, quando santo chama a gente, que fará o
pecador? Anambu, Anambu, quem está fora és tu, Anabela, Anabela, quem está fora
é ela".
Brinquei muito de ciranda
com minhas nove irmãs e me preparei psicologicamente para pagar o mico na EDEM
cantando cantiga de roda. Na minha memória constavam várias: "Esta menina
que está na roda, já tem idade, idade de casar", "Bom dia, Vossa
Senhorinha, matutiro, tirulá",
"Pombinha quando tu fores, me escreve pelo caminho",
"Pombinha branca, o que estás fazendo?" "Janeiro vai, janeiro
vem, tu és de todas de mim também", "Machada minha machadinha",
"Onde mora a bela condessa" ou "Eu sou leiteira, eu sou
leiteira, eu vendo leite, na cidade de Lisboa".
Não foi possível
cantar porque o tempo se esgotou. No final, me pediram para deixar uma
brincadeira para a turma. Hesitei entre "Berlinda", "Tome esse
anelzinho e não diga nada a ninguém" e "Larga, Estreita,
Estreitinha". Optei pela última. As crianças ficam todas sentadas, aquela
que for sorteada pergunta à primeira delas:
- Você quer comprar
fita?
Diante da afirmativa,
nova pergunta:
- Fita larga, estreita
ou estreitinha?
Se a resposta for
"larga", as duas crianças trocam um abraço. "Estreita" um
aperto de mão" e "Estreitinha" um beijo na bochecha. O jogo, que
revela as relações de afeto, de cumplicidade e de distanciamento, prossegue até
a última criança. Quando era com a Socorro da dona Maria Rosa, eu sempre
respondia "Estreitinha".
Dentro do jogo
Fiz uma única pergunta
à turma: para que serve um avô? As respostas foram as mais variadas, mas o
suficiente para perceber a importância das relações do avô com seus netos e netas.
Duas gracinhas que não fiz, mas tive vontade: 1) Não, na minha infância não
tinha dinossauros, só na época do Sarney. 2) No tuturubim tetê gostaria muito
que a última sílaba caísse em Michel Temer.
O Brasil seria outro
se o modelo da Escola Dinâmica do Ensino Moderno (EDEM) pudesse se espalhar
pela escola pública como na França, onde professoras aposentadas são convocadas
para contar histórias na escola, teatralizando a narrativa e recuperando a
memória oral em uma sociedade digitalizada. Esse espaço de liberdade, essa
integração família e escola é o que alguns professores índios também estão
fazendo, chamando os velhos para apoiá-los.
O tempo da aula e da
vida passou rápido. De qualquer forma, as crianças da EDEM me fizeram sentir
que ainda não estou fora do jogo. O professor normalista que sou, formado no
Curso Pedagógico do Instituto de Educação do Amazonas, aluno de Orígenes
Martins e Mercedes Ponce de León, se sentiu realizado. Ao contrário do Leonardo
Cohen, I am not out of the game, I am not ready, my Lord.
P.S. - As crianças
querem saber como se brincava na Angola e em Portugal. Querido Nuno Pereira, a
bola agora é tua, mas por favor, te comporta.
*
Jornalista e historiador.
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