É
proibido...
* Por Pedro J. Bondaczuk
As primeiras palavras que mentalizamos, na tenra infância,
tão logo começamos a engatinhar e a tomar contato ativo com o mundo, é no
sentido de restrição. "Não mexa nisso, não faça aquilo, não ponha isso na
boca" e vai por aí afora.
Claro que os que nos dizem essas coisas (no caso nossos
pais), agem no intuito de nos proteger. Mas é a nossa primeira "lição de
ditadura". Muitas outras virão a partir de então, ao longo de toda nossa
vida. E as proibições vão aumentando de grau e de intensidade à medida que crescemos. E passam a ser uma constante
no lar, na escola, no trabalho etc.
Trata-se de um duro aprendizado para a vida em comunidade,
onde precisamos abrir mão de parcela considerável de liberdade individual, em
favor do grupo. É óbvio que algumas proibições são exageradas, outras são
tentativas de domínio de pessoas despreparadas, que extrapolam sua autoridade
para se impor e outras são tão ridículas, que só merecem risos.
É claro que as restrições são incômodas, antipáticas e
impopulares. O homem, no entanto, somente é totalmente livre nos estritos
limites da lei. Desde que ela seja, logicamente, justa, aplicável e que abranja
a todos os indivíduos, indistintamente, sem exceções de qualquer espécie.
No meu tempo de jovem, criou-se um slogan que refletia bem a
rebeldia de minha geração contra certos tipos de imposição: "É proibido
proibir". Tínhamos em mente uma liberdade que hoje sabemos ser impossível.
Para existir, na intensidade que pretendíamos, seria necessário que não
houvesse um único indivíduo que desconhecesse o limite do que pode ou não
fazer, por estar violando direitos alheios.
Muitos utilizavam essa reivindicação (ou exigência?), para
defender, por exemplo, a liberalização da maconha. É certo que uma proibição
liminar nesse sentido tem se mostrado contraproducente. O que é preciso é
convencer as pessoas da estupidez de se recorrer às drogas, que têm todas as
desvantagens e perigos possíveis, sem a contrapartida de um único benefício.
Até por que, mentes mais fracas julgam que a violação de uma
norma, mesmo que implique em prejuízos à própria saúde ou até em riscos à sua
sobrevivência, é uma manifestação de ousadia, ou de coragem, ou sabe-se lá do
quê. Neste caso (e na maioria dos outros) não é. Em geral, é um suicídio a
médio prazo, um caminho sem retorno.
O padre Antônio Vieira tem um magnífico e lapidar sermão
sobre a dureza da palavra "não". Há, é verdade, alguns impeditivos
sem razão de ser e que acabam não vingando: ou pelo seu evidente exagero, ou
por sua absoluta desnecessidade ou por falta de autoridade ou legitimidade dos
que os procuram impor.
A esse propósito lembro-me de um incidente ocorrido em uma
escola em que estudei. O colégio era cortado por amplas e sinuosas avenidas,
que margeavam enormes gramados, em cujo centro havia a invariável placa:
"É proibido pisar na grama". No entanto, esses imensos "tapetes
verdes" possuíam trilhas bem marcadas, que mostravam que os alunos
ignoravam a proibição, cortando caminho sobre eles. Como a menor distância
entre dois pontos é a reta (já ensinava o geômetra grego Euclides há 400 anos
antes de Cristo), o desrespeito a essa restrição era até questão de lógica.
Os responsáveis pela disciplina da instituição faziam
freqüentes "sermões" nas salas de aula, apontando o fato de se pisar
na grama como grave manifestação de "falta de educação" dos
estudantes. Não haveria, no caso, brutal falta de respeito da escola para com
os alunos?. Não seria mais lógico e racional fazer passar uma viela, ou
travessa, ou passagem calçada, na parte do gramado em que todos transitavam,
formando a referida trilha?
Esse é o tipo da proibição que sempre vai cair no vazio,
pela desnecessidade. Aliás, sobre restrições, há um magnífico poema de Lewis
Carrol, intitulado "Minha Fada", em que o autor de "Alice no
País das Maravilhas" escreve:
"Tenho sempre uma fada do meu lado
que diz que não devo repousar.
Quando chorei um dia de magoado,
censurou-me: 'não deve chorar'.
Se dou uma risada divertida,
ela ralha: 'Não deve alegrar-se'.
Um dia eu quis tomar uma bebida,
impediu-me:
Não deve embriagar-se'.
E quando eu quis provar alguns quitutes
proibiu-me: 'Não deve provar'.
Quando fui para a guerra, disse-me:
'Escute, não deve, tampouco, guerrear'.
'Que posso então fazer?', gritei
cansado
de tantas proibições conjuntas.
A fada respondeu, sempre ao meu lado:
'Não deve é fazer essa pergunta'.
Moral: 'Você não deve'".
E não é sob esses exageros constantes, das pequenas às
grandes coisas, que transcorre nossa vida? Restrições em casa, regras na
escola, proibições no trabalho, sanções na sociedade, e vetos de toda a sorte
até em nosso lazer etc. E quando rompemos uma dessas normas estúpidas, impostas
muitas vezes (quando não na maioria) por pessoas sem nenhuma autoridade para
tal, procuram fazer com que nos sintamos culpados. Ou nos aplicam as mais
variadas sanções, das físicas às patrimoniais. E, em casos extremos, a pena de
morte...
O que deveria ser proibido (e banido do Planeta) é o ódio. É
a intriga. É o preconceito. É o egoísmo. É o mau humor. É a chatice. É a
desonestidade em todos os sentidos. O romancista alemão Bruno Frank, no conto
"O Besouro Dourado", resume com maestria o que quero ressaltar:
"Não somos separados uns dos outros como pensamos; onde estão os limites?
Quem poderá se atrever a separar, a dividir, a dizer: assim é esse e assim é
aquele, e isso é bom e aquilo é mau?". Sim, quem poderá?!!?
*
Jornalista, radialista e escritor. Trabalhou na Rádio Educadora de Campinas
(atual Bandeirantes Campinas), em 1981 e 1982. Foi editor do Diário do Povo e
do Correio Popular onde, entre outras funções, foi crítico de arte. Em equipe,
ganhou o Prêmio Esso de 1997, no Correio Popular. Autor dos livros “Por uma
nova utopia” (ensaios políticos) e “Quadros de Natal” (contos), além de “Lance
Fatal” (contos), “Cronos & Narciso” (crônicas), “Antologia” – maio de 1991
a maio de 1996. Publicações da Academia Campinense de Letras nº 49 (edição
comemorativa do 40º aniversário), página 74 e “Antologia” – maio de 1996 a maio
de 2001. Publicações da Academia Campinense de Letras nº 53, página 54. Blog “O
Escrevinhador” – http://pedrobondaczuk.blogspot.com. Twitter:@bondaczuk
Dai a importância de se escolher bem os legisladores, que, em tese deveriam ser pessoas bem preparadas, pois,segundo você escreveu, as leis regulam a liberdade. Então, vivam as leis! As boas leis.
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