sábado, 16 de janeiro de 2016

Sobre os reis e seus sábios


* Por Paulo Coelho


O reino deste mundo

Um velho ermitão foi certa vez convidado para ir até a corte do rei mais poderoso daquela época.

“Eu invejo um homem santo, que se contenta com tão pouco”, comentou o soberano.

“Eu invejo Vossa Majestade, que se contenta com menos que eu”, respondeu o ermitão.

“Como você me diz isto, se todo este país me pertence?”, disse o rei, ofendido.

“Justamente por isso. Eu tenho a música das esferas celestes, tenho os rios e as montanhas do mundo inteiro, tenho a lua e o sol, porque tenho Deus na minha alma. Vossa Majestade, porém, tem apenas este reino”.

***

Os ossos do ancestral

Havia um rei da Espanha que se orgulhava muito de seus ancestrais, e que era conhecido por sua crueldade com os mais fracos.

Certa vez, caminhava com sua comitiva por um campo de Aragón, onde - anos antes - havia perdido seu pai em uma batalha, quando encontrou um homem santo remexendo uma enorme pilha de ossos.

“O que você está fazendo aí?”, perguntou o rei.

“Honrada seja Vossa Majestade”, disse o homem santo.

“Quando soube que o rei da Espanha vinha por aqui, resolvi recolher os ossos de vosso falecido pai para entregar-vos.

Entretanto, por mais que procure, não consigo achá-los: eles são iguais aos ossos dos camponeses, dos pobres, dos mendigos e dos escravos”.

***

Chame outro tipo de médico

Um poderoso monarca chamou um santo padre - que todos diziam ter poderes curativos - para ajudá-lo com as dores na coluna.

“Deus nos ajudará”, disse o homem santo.

“Mas antes vamos entender a razão destas dores. Sugiro que Sua Majestade se confesse agora, pois a confissão faz o homem enfrentar seus problemas, e o liberta de muitas culpas”.

Aborrecido por ter que pensar em tantos problemas, o rei disse:

“Não quero falar destes assuntos; preciso de alguém que cure sem fazer perguntas”.

O sacerdote saiu e voltou meia-hora depois com outro homem.

“Eu acredito que a palavra pode aliviar a dor, e me ajudar a descobrir o caminho certo para a cura”, disse. “Entretanto, o senhor não deseja conversar, e não posso ajudá-lo. Mas eis aqui quem o senhor precisa: meu amigo é veterinário, e não costuma conversar com seus pacientes”.

Diário de Pernambuco, 16/4/2012


* Escritor, membro da Academia Brasileira de Letras.

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