A pokã*
** Por
Clevane Pessoa de Araújo Lopes
À mesa, semblantes
severos. Tios e tias de luto. O patriarca se fora e mal ousavam falar. Para a
morte, alguns eufemismos: partir, passar para, descansar. E lá merecia o velho
feroz algum descanso, pensava a adolescente retirada no meio da noite do leito
morno e quase surpreendida em sua doce lascívia das mãos curiosas sob os
lençóis? Ainda bem que no dia seguinte, deveria apresentar o trabalho de
pesquisa sobre a Guerra do Irã (ou seria Iraque?). Quase nada pesquisara, mesmo
pela Internet, pois a Pat fizera quinze anos na véspera e batera pé para a
festinha na cobertura ser no mesmo dia, não no sábado. A mãe não pudera com a
birra, temendo ser catalogada de atrasada, em relação à sua própria, que não
ousara proibi-la ao ser comparada à da Pat, tão "in". Combinação de
meninas: uma citava a mãe da outra para conseguir qualquer coisa... Cada mãe,
temente de ser "out" e perder o amor da filhota mimada.
Levanta os olhos de
grandes pestanas douradas, meio desfocados. Avalia os comensais. Um deles faz o
mesmo e a apanha na teia de aranha que se instala entre ambos, de imediato. Ele
aponta com o queixo, os demais, faz movimentos cômicos, taxando-os de chatos.
Ela aquiesce mudamente, sorriso a meio, pronto para desmanchar-se se alguém a
surpreendesse no mudo colóquio.
Ele apanha farinha e
escreve "fofa", sobre o feijão frio. Ela devagar, lambe os lábios,
coração disparado. Pat lhe dissera, com a sabedoria das mocinhas de quinze
anos, que os homens ficavam maluquinhos quando viam a ponta da língua. Por isso
chamavam as mulheres de gatinhas. Ele arregala mais ainda os olhos sombreados,
passa as mãos pelo queixo onde espetam centenas de fios de barba. Também fora
acordado no meio da noite para o enterro do avô. O telefone vibrara logo após
uma "petit mort". Seqüente a um grande gozo.
Subitamente, deixa o
sapato do pé direito cair, sem alarde algum. Mocassim fácil de tirar. Estende a
perna e deixa o pé descansar sobre as coxas úmidas da adolescente. Esbarra com
calças jeans. Ela estremece. Ele escreve com a farinha: "Tira". A
garota o interroga com o olhar. Escreve então, da mesma farinheira: Como?
O moço ri. Apanha uma
pokã. Descasca-a sem pressa. Pega dois gomos e mostra-os com calma à quase
menina. Entreabre-os. Coloca entre eles, o polegar. A garota estremece de prazer.
O coração parece que desceu e pulsa nela, lá em baixo, entre os gomos túmidos.
Tenta, sob a toalha de
linho, imensa, fazer o mínimo possível de gestos, muito devagar, vai
desabotoando os botões de metal. A calça apenas cobre o púbis. Consegue ir
levantando as nádegas. Puxa as pernas da calça. Noite abafada na sala de
fazenda, sem ventiladores. Acomoda o pé invasor. Segura-o como se isso bastasse
para impedir um abuso maior. Mas tem vontade de acariciar o pé, um mini corpo.
Quando se distrai, é tocada, qual uma corda de violão. Estremece e geme. Todos
a olham, de súbito. Está vermelha. A mãe pergunta, preocupada:
— O que foi?
Ela fala baixinho, só
para a inquisidora ouvir:
— Cólicas...
O pé já se recolhera.
A mãe se aproxima e pergunta alto: Onde ela vai dormir? A tia mais velha
conversa com outra, decidem logo e ela é convidada a ir tomar banho, antes de
deitar-se. As adultas agora estão num canto, falando de absorventes, coisas de
mulher. O primo primogênito apanha os gomos do desejo e os põe na boca. Todos
se levantam. A empregada, ao recolher a louça, vê sobre o feijão escuro, a
frase: Que pena! No quarto da donzela, sob o chuveiro, ela revê esses gomos
sumarentos ao fechar os olhos. E com os olhos dos dedos, imita os dedos do
sedutor.
Em pé, na varanda, ele
pensa na fêmea madura que deixara à sua espera. Enquanto come os últimos gomos
da dourada pokã...
* Forma como é grafada
nas feiras livres e nos mercados do interior do estado de S. Paulo a tangerina
poncã.
**
Poetisa
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