Atraso
* Por
Flora Figueiredo
O que faz essa tarde luminosa
desacatar o lírio, aborrecer a rosa?
É que o trem que traz a noite está atrasado.
A tarde quer encontrar seu namorado
e não tem quem deixar em seu lugar.
Se o trem que traz a noite não chegar,
vai haver bastante alteração:
o dia vai ficar bem mais comprido
e acabar pisando no vestido
da manhã de amanhã que aguarda a vez.
Quando o trem que traz a noite vir o que fez,
vai tratar de acertar a sua hora
pois um trem que se preza não demora
no vaivém que vem e vai de lá pra cá.
Ninguém segura a paixão abrasadora
entre uma tarde luminosa e um sabiá.
*
Poetisa, cronista, compositora e tradutora, autora de “O trem que traz a
noite”, “Chão de vento”, “Calçada de verão”, “Limão Rosa”, “Amor a céu aberto”
e “Florescência”; rima, ritmo e bom-humor são características da sua poesia.
Deixa evidente sua intimidade com o mundo, abraçando o cotidiano com vitalidade
e graça - às vezes romântica, às vezes irreverente e turbulenta. Sempre dentro
de uma linguagem concisa e simples, plena de sutileza verbal, seus poemas são
como um mergulho profundo nas águas da vida.
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