Historietas*
**Por
José Calvino
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Joca de Casa Amarela
Rir ainda é o melhor remédio
Vamos rir? Esta
aconteceu lá pelos anos 50, os cinéfilos de Casa Amarela foram assistir na
soirée, no cinema Rivoli “Uma Noite no Cairo”, que o então candidato a
vereador, Joca, com seu Ray-Bam, à noite, havia anunciado no seu comício em
pronunciar: “Cairó”! Foi alvo de gozação por muito tempo... Mais outra do
candidato Joca de Casa Amarela, anos 50, Joca fazia os seus comícios por toda
Casa Amarela, pouco fazia nos bairros adjacentes. Nos seus discursos iniciava
sempre com o slogan: “Povo de Casa Amarela”... Resolvendo fazer também a sua
campanha política no bairro do Arruda, o Joca como era muito engraçado e era
festa naquele tempo iniciou: “Povo de Casa Amarela”, o seu cabo eleitoral
cochichou: “Aqui é Arruda, seu Joca!” Joca meio surdo afobou-se, sem largar o
microfone: “Fale alto, não gosto de cochicho”. Então o cabo repetiu, saindo as
vozes pelo alto-falante: Tanto faz Casa Amarela como Arruda
tudo é uma merda só”, para a risadagem do público.
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Paixão de Cristo
Era Semana Santa.
Antigamente todos os anos no bairro de Casa Amarela, Zona Norte do Recife, era
armado o circo Tomara que não chova (por não ter empanada). O proprietário do
circo havia dado, uns dias antes do espetáculo, uma pisa num rapaz, em razão do
mesmo haver dado uma cantada em sua amante.
Mas o que aconteceu? O
referido rapaz é contratado pelo diretor do espetáculo, junto aos demais
desocupados para fazer o papel de soldado (os algozes de Jesus). Jesus
carregava a cruz ao calvário, após colocarem a coroa de espinhos (feita de
palha) na cabeça. Na hora em que os soldados chegavam a ele diziam:
"Salve, rei dos judeus!; e davam-lhe falsas bofetadas, açoitando-o com
sacos de estopa.
O rapaz inimigo,
premeditadamente, colocou um "quiri" (pau) dentro do saco e danou
pelo lombo do Cristo. Ao reconhecer o dito cujo, Jesus soltou a cruz e foi em
cima do inimigo. Foi aí que começou a inesperada comédia. Brigando, Jesus leva
desvantagem... e outras cacetadas foram dadas. Cristo então corre, para alegria
da platéia, que gritava: "Jesus frouxo!", "Jesus frouxo!".
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Honestos e desonestos
Vejamos algumas das
causas mais freqüentes de problemas para as empresas e que podem interferir na
sua sobrevivência: Custos, Preços, falta de Capital de giro, Inadimplência dos
clientes...
Somente com uma gestão
adequada e muito controle financeiro é que se poderá obter os resultados
pretendidos de manter a sustentabilidade financeira (sic).
Pasmem com o que um
ex-comerciante falido disse: "É melhor ter empregados desonestos do que
honestos!" Perguntei o motivo e ele respondeu: "O honesto é
reivindicador e não atende bem a clientela. Já o desonesto não pede aumento e
trata bem os clientes. E ainda tem uma coisa, o honesto coloca você na justiça".
Isso foi o principal motivo que o levou à falência. É a cara do Brasil.
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O samba de um calouro
Esta aconteceu lá
pelos anos 50, durante um dos diversos programas de calouros da Rádio Clube de
Pernambuco, a PRA-8. Um matuto de Glória do Goitá, a fim de ganhar uma
bicicleta "Raleigh", que era o prêmio principal, se apresentou ao
animador do programa e disse que iria cantar um samba. E logo um samba de sua
autoria, o que deixou platéia e apresentador surpresos. Foi dado o sinal para a
orquestra e se iniciou uma verdadeira batucada. O matuto entra bem lento, com o
seu cabelo "royalbriado" e trunfinha "a la Tyrone Power",
um dos astros de Hollywood da época:
- A primeira casa... –
e o solista, com o seu piston, melodiava: "Táá...rá...rá...rááá..."
E o matuto prosseguia:
- A segunda casa... –
E o pistão: Táá...rá...ráá...rááá..."- A terceira casa..., - a quarta
casa..., a quinta casa..., a sexta casa..., a sétima casa..."- já na
batida de samba rasgado – - A vigésima casa..." Sem sair deste ritmo, o
matuto conseguiu arretar o locutor do programa. Este fez sinal para a orquestra
parar, dizendo:
- Vá fazer Vila
Popular na casa da puta que o pariu.
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Ônibus/Sopa/Beliscada
Antigamente, o povão
chamava os ônibus de "sopa" e, um dia, uma mulher viajava na linha de
Nova Descoberta-Casa Amarela. Em dado momento, ela reclamou ao cobrador que
estava sendo beliscada pelo mágico Seu Alegria, dono de um pequeno circo, em
Casa Amarela, e apelidado de Tomara-que-não-chova (por não ter empanada).
O mágico se defendeu,
dizendo que era o galo que carregava no colo. Foi bem pior. O cobrador disse
ser proibido levar animais no coletivo. "Seu Alegria" não teve
dúvidas e jogou a ave pela janela. Ao descer na parada do Vasco da Gama, lá
estava o galo de novo no braço de Seu Alegria para surpresa de todos. Aí Seu
Alegria gritou para dona:
"Segue a tua
viagem beliscada", para a risadagem dos passageiros. Por isso, até os anos
60, muita gente também chamava os ônibus de "Beliscada".
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Sargento Peba
No regime militar
havia muitas promoções por atos de bravura ou merecimento. Principalmente na
Polícia Militar de Pernambuco, chamavam os promovidos sem curso de
"Peba", "Joly" ou "Mobral". Em 67, aconteceu um
espetáculo grotesco: Um cabo "peba", comandando uma guarnição da
radiopatrulha, ao passar pela ponte do Pina, avistou uma velhinha pescando com
um arame "unha-de-véio" (crustáceo). O peba ordenou o soldado
motorista parar a viatura, desceu, e resolveu jogar-se em cima da velhinha
derrubando-a na lama. A velha quase morre de susto! Ambos melados de lama foram
parar no Hospital da Polícia Militar. Na outra semana cantou no Boletim Geral a
promoção do peba a sargento por ter praticado "um ato heróico no
salvamento da vítima de afogamento..."
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Almas penadas
Zezinho trabalhava na
padaria de seu Manoel, um português avarento da peste, a padaria ficava na Rua
Padre Lemos em Casa Amarela, bem perto do cemitério.
Desde pequeno que ele
tinha medo de alma. Além de trabalhar no balcão, fazia papel também de
"pãozeiro" (anos 50 era quem entregava de madrugada nas casas dos
clientes). Certo dia, quando passava pela calçada do cemitério, ouviu uma voz
fanhosa:
- Ei, me dá um pão.
O susto foi tão grande
que Zezinho derrubou o balaio cheio de pães e voltou às carreiras para a
padaria mais branco do que cal. Só não viu o vigia "Fom-fom" (apelido
de ter a voz nasal) morrendo de rir. Na padaria, o portuga carola tranqüilizou
Zezinho:
- Fique calmo, Deus é
pai. Vou descontar os pães de seu salário. Agora, você deve acender velas toda
segunda-feira, à noite, para as almas penadas.
Zezinho pediu demissão
na hora, dizendo:
- Alma, eu não quero
ver mais nunca, nunca, nunca, nunca...
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Trem de brinquedo
“(...) A mãe
trabalhando na cozinha, ouvia o filho brincar com o novo trem à pilha na sala
de estar. Ela escutou o trem parar:
- Todos os
filhos-das-putas, que querem desembarcar, saiam desta porra de trem agora,
porque essa é a última parada! – dizia o filho fazendo papel de locutor – E
todos os filhos-das-putas, que estão embarcando nesta porra de trem, sentem
suas bundas no assento, porque essa merda partirá daqui a dez minutos!
- Nós não usamos esse
tipo de linguagem aqui em casa! – disse a mãe, aborrecida.
– Vá, já para o seu
quarto e fique lá de castigo por duas horas.
Duas horas depois, o
garoto sai do castigo e volta a brincar com seu trem. Logo o trem pára e a mãe
ouve:
- Todos os passageiros
que estão desembarcando do trem, por obséquio, lembrem-se de levar os seus
pertences. Nós agradecemos, a todos, por viajarem conosco e esperamos que
tenham feito uma ótima viagem, muito obrigado.
A mãe estava
contentíssima. Valeu a pena o castigo. Aí o garoto acrescenta:
- E para os que estão
putos da vida com o atraso de duas horas, reclamem com a minha mãe que ta lá na
cozinha.
***
Canto do Poeta
(então Bar Savoy)
Clodoaldo de Freitas
era um frequentador assíduo do então famoso Bar Savoy. Aos 80 anos, gosta de
contar algumas historietas em torno do poeta Carlos Pena Filho. Seguem algumas
delas:
Mentir ou morrer
Carlos Pena Filho
chega ao então Bar Savoy e já encontra o professor Samuel McDowell, mestre em
Direito Internacional. Mas no Savoy suas aulas eram sobre Shakespeare ou
Baudelaire.
Carlos, preocupado,
diz que se saiu mal numa prova oral. Arnóbio Graça, catedrático de Economia
Política, não era brincadeira.
“Enrolei na resposta,
ele perguntou onde ouvira tal coisa. Eu disse que estava no tratado do famoso
scholar de Harvard, o Frederick Zinneman”
Havia estreado no
cinema São Luís o western clássico de Fred Zinneman, Matar ou morrer.
Dia seguinte, McDowell
diz a Carlos (os dois se encontravam diariamente na calçada do Savoy, raramente
na Faculdade de Direito onde teoricamente um estudava, e o outro, ensinava):
“Olha, rapaz, o Arnóbio me disse que também vai a cinema. Mas, te deu nota
suficiente para passar de ano.”
***
Carlos Pena era
afilhado do general Cordeiro de Farias. Eleito governador de Pernambuco, o
general fez o poeta ser nomeado para alto cargo, Procurador do Serviço de Obras
Contra as Secas. Carlos, na verdade, nunca soube onde ficava a repartição. O
garçom Careca, como era chamado por todos, já trazendo o chope caprichado, bem
tirado, como os mais velhos contam: “Freqüentador do Savoy que se preza, vai
mesmo é de chope.” Quando chega o Alecrim (nome fictício), senta-se e começa a
falar mal, dizer horrores do general Cordeiro. Que, governador do Rio Grande do
Sul, ficara conhecido como general Lustre. Carlos pergunta: “Ilustre?” O outro
repetiu: “Lus-tre! Porque levou para casa os lustres de cristal do Palácio do
Governo.”
O dito cujo afinal foi
embora. Carlos Pena Filho pediu outro chope e disse:
“Não é por nada, mas
de fato acho que costeleta, oposição e sapato de duas cores só ficam bonitos
nos outros.”
***
Toda a poesia
Tudo é motivo para
poesia. Estavam à mesa do Savoy, Carlos, Clodoaldo, Maviael (meu irmão), Otávio
de Freitas e Fernando Jorge de Lima. Carlos Pena faz um comentário rigoroso
sobre os oradores do Parque 13 de Maio: “Uns totais ignorantes. Nem sabem que
não sabem coisa alguma. Mas, se consideram gênios. Cada um crê que tem o
borbulhar do gênio.”
“Deve ser ameba mal
tratada”, diagnosticou Otávio, médico e escritor.
- A gente é feito
sabonete Vale Quanto Pesa (Foi preferência nacional das décadas de 50/60).
Carlos Pena Filho
incorpora a boutade ao poema em que ridiculariza aquele grupo:
“Cada qual sente um
gênio
dentro de si
borbulhar.
E, coitadinhos, nem
sabem
que o que borbulha é a
ameba
que não puderam
tratar.”
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Gravado em disco – fev/2003.
Extraído
dos livros “Miscelânea Recife” e “Trem Fantasma”.
**Escritor,
poeta e teatrólogo pernambucano
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