Sapatinhos de cristal
* Por
Urda Alice Klueger
(Para S. R. V. S.)
Ela vinha andando
dentro do tempo, pequena libélula do Passado, com suas asas transparentes
adejando dentro da tarde de frio e de sol, e usava sapatinhos de um cristal
mágico, que tinham a textura do diamante. Caminhava no seu passinho seguro de
quem aprendeu a dominar os medos e as asperezas da vida e ter uma imensa
compreensão das coisas. Vinha pela calçada por onde já passara tantas vezes,
decerto onde um dia brincara no tempo em que no lugar da calçada houvera erva
boa de pisar – vinha segura, creio, porque decidira que era o tempo de saber
mais. Saber mais é uma coisa que faz bem, mesmo quando, às vezes, possa nos
encher de angústia, como quando se compreende a natureza vil das guerras.
Não era guerra, no
entanto, mas uma passarela de paz que se estendia por aquela calçada que ela
pisava, decidida, com seus sapatinhos de cristal. Levava na bolsa, como num
relicário, um fugaz instante do Passado materializado de tal forma que
resistira ao Tempo, e toda a Magia do mundo cabia dentro dele.
E andava
decididamente, e os tacãozinhos dos seus sapatos mágicos iam deixando marcas de
diamante por onde passava, faiscantes marcas como pequenos diamantes que eu
continuo a ver a cada vez que passo por aquela rua, depois disso, faiscantes
diamantezinhos tão cheios de brilho, mesmo em dias de chuva, que a cada vez que
passo me deixam como que ofuscada de felicidade.
E a cada passo ela
vencia o Tempo e marcava a sua passagem com os sapatinhos de cristal, e mais
adiante eu a esperava segurando no côncavo das mãos meu coração que pulsava
toda a violência da emoção e as tantas ansiedades da espera que não sabia que
um dia teriam termo, pois não imaginara, nunca, receber tanto da vida!
E, borboleta que me
era difícil não ver libélula, agitando as asas transparentes, espargindo
diamantes por uma calçada que fora comum, mas que nunca mais seria a mesma, ela
foi se aproximando decididamente. Embora eu sequer tivesse coragem para
olhá-la, sabia da sua grandeza e dos seus sapatinhos de cristal, e tinha tão
pouco para lhe dar em troca daquela mão estendida... Dissera-lhe apenas:
- Tenho um cachorro
preto e um carro vermelho...
Ela era muito
grandiosa, porém. Passou pela barreira do Tempo e me cumprimentou como se o
fizesse todos os dias, coração enorme que podia abarcar o mundo e deixar
diamantezinhos fulgurantes por onde passava! Nunca será possível esquecer.
Blumenau, 11 de Abril
de 2015.
*
Escritora de Blumenau/SC, historiadora e doutoranda em Geografia pela UFPR,
autora de mais três dezenas de livros, entre os quais os romances “Verde Vale”
(dez edições) e “No tempo das tangerinas” (12 edições).
Misteriosa Dama da Paz, com seu sapatinho de cristal, feito borboleta, dona do tempo, tal qual libélula, aspergindo diamantes por onde passava o seu efeito transformador. Mistérios da escritora sensível em falar de horripilantes guerras. E em cena um cachorro preto, que bem pode ser seu amado Atahualpa. E as iniciais lá no alto? Mais um instigante mistério.
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