O shopping
* Por
Gustavo do Carmo
Fazia oito horas que estava no
shopping. Acompanhava a esposa que tentava fazer compras. Tentava porque em
cada loja que ela entrava ficava uma hora experimentando vestidos e calçados. Não
levou nenhum deles. Dizia que não ficavam bonitos nela. Mesmo provando mais de
dez peças por boutique.
Até as seis primeiras lojas, Naldo a
acompanhou. A partir da sétima, decidiu sentar-se no banco mais próximo ao
lugar onde estivesse Sabrine. Não aguentava mais bater perna no shopping.
Sabrine já não precisava e nem queria mais o marido ao seu lado, reclamando. Ela
o autorizou a fazer o seu roteiro pelo shopping. Ele estava livre para ir a uma
livraria, a uma banca de jornal, babar pelos aparelhos eletrônicos ou procurar
alguma roupa ou acessório masculino.
O que Naldo queria mesmo era descansar
e comer alguma coisa. Subiu até a praça de alimentação, no quinto piso do
shopping. Estava no primeiro. Encontrou o setor das lanchonetes lotado. Aliás,
o shopping inteiro estava lotado. Era véspera de Dia das Mães. Voltou para a
área das escadas rolantes, onde tinha alguns bancos. Sentou-se exausto. Apagou.
Não viu o tempo passar. Acordou em uma
cama. Não a sua, mas uma forrada com lençol de algodão puro. Recostava a cabeça
em dois travesseiros forrados com fronhas do mesmo tipo. Estas tinham estampas
de coração, bordadas a mão pela dona-de-casa ou sua filha que, com certeza, costumava
dormir naquele quarto, pois a roupa era cor-de-rosa e de solteiro. A cabeceira
era de mogno trabalhado.
Uma bela moça entrou no quarto. Pele
alva, cabelos negros, olhos amendoados, também da cor de ébano. Usava um
vestido azul claro de linho com renda branca como o laço de fita de cetim
ajeitado em seus fios ondulados e repartidos ao meio. Parecia ter um corpo
bonito, mas estava escondido sob a roupa comportada. Ela perguntou:
— Você está bem?
— Onde eu estou? Quem é você? O que eu
estou fazendo aqui?
— Eu te encontrei caído lá na varanda
dos fundos. Estava delirando. Por isso eu te trouxe para cá.
— Que lugar é esse? Eu estava no
shopping com a minha esposa.
— Shopping? O que é isso?
— Shopping Center. Local onde a gente
compra roupas, eletrodomésticos. Tem boutiques, lanchonetes...
— Nós fazemos as nossas roupas com a modista.
O papai e o meu irmão, no alfaiate. Eletrodomésticos nós compramos na Avenida
Rio Branco, na Rua da Carioca ou na do Ouvidor. Agora, lanchar, nós lanchamos em
casa ou na confeitaria. É isso que você quis dizer?
— Mas em que mundo você...
— Calma. Você ainda está delirando.
Dorme mais um pouco. Eu vou falar com a minha mãe.
Ainda sem entender onde estava, Naldo
acatou a ordem de descanso dada pela bela jovem e permaneceu deitado no quarto
que lhe parecia muito antigo. Naldo começou a desconfiar que voltou no tempo. Estava
sonhando. Levantou da cama e se viu vestido com uma camiseta branca e um short
de malha. Roupas bem diferentes da camisa pólo e calça jeans que usava no
shopping com Sabrine.
Aproximou-se da porta e ouviu a moça
conversar com um homem que logo acreditou ser o irmão, pois uma mulher, que era
reprimida naqueles tempos, nunca falaria para o pai ou marido que encontrou um
homem na rua. A menina também parecia ser muito ingênua. Naldo ouviu a moça
implorar para que o irmão mantenha segredo para os pais. O rapaz, aparentemente
mais velho, prometeu e entrou no quarto.
Naldo, rapidamente, voltou a se deitar
na cama quando sentiu alguém se aproximando. O homem, um moreno alto e
musculoso, olhos apertados pela maçã do rosto fortemente inchada, cabelos raspados
nas laterais e na nuca, entrou no quarto e perguntou autoritário:
— Vem cá, rapaz! Quem é você? De onde
você veio?
— Eu não sei. Eu estava no shopping
fazendo compras com a minha esposa, quando sentei no banco, dormi e acordei
aqui.
— Aqui no quarto da minha irmã????
Perguntou o homem musculoso, furiosamente, puxando Naldo pela gola da camisa.
— Calma, Ulisses. Eu que o trouxe para
cá. Interveio a moça, preocupada. — Ele estava caído na varanda. E também disse
que estava nesse tal de shopping com a esposa.
— Então você tem esposa. E como veio
parar aqui? Cadê ela?
— Eu não sei. Deixei ela em uma
boutique e subi para a praça de alimentação no quinto andar.
Os dois irmãos ficaram perplexos com as
palavras que ouviram do hóspede.
— Noêmia, esse cara é maluco. Como é
que você traz um cara desses pra cá? É a última vez que eu vou acobertar essas
ações de caridade que você tem mania de fazer. Da próxima eu falo para o papai.
— Ele deve ter perdido a memória. Disse
a moça, já apresentada pelo irmão com o nome de Noêmia, que tentava compreender
a loucura de Naldo, sem sequer desconfiar que ele veio do futuro.
— É verdade. Eu não me lembro de mais
nada. Esqueci até o nome da minha esposa.
— Está bem, disse o irmão, resignado. —
Eu vou dizer para o papai que você é um amigo meu do quartel e estava na guerra
comigo.
— Guerra? Que guerra?
— De que planeta você veio, hein? Da
Guerra Mundial, ora! Eu estou começando
a achar que você é um extra-terrestre! Brincou o rapaz.
— Desculpa, eu não me apresentei. Meu
nome é Noêmia.
— E o meu é Ulisses.
— Prazer, Reginaldo. Mas os mais
íntimos me chamam de Naldo.
— Fique à vontade, Naldo. Eu ia te
emprestar algumas roupas, mas vi que a Noêmia já fez isso. Vamos para o meu
quarto antes que os nossos pais te vejam no quarto dela.
— Posso perguntar uma coisa?
— Claro.
— Que dia é hoje? Em que ano nós
estamos?
— Credo. Você está desmemoriado mesmo.
Parece até que esteve na guerra. Hoje é dia vinte de abril de mil novecentos e
quarenta e sete.
A revelação da data já seria suficiente
para Naldo despertar do sono. Já era noite quando foi apresentado, como parceiro
do front de Ulisses, à mãe do casal de irmãos, Dona Gertrudes. Uma senhora
muito bondosa como a filha, que vivia na cozinha, exceto na hora em que Naldo foi
encontrado, porque estava costurando na sala. Ela era alta, magra e tinha
cabelos castanhos claros e compridos, presos num rabo-de-cavalo.
Naldo já estava sentado à mesa de
jantar quando chegou Seu Floriano, um senhor gordo, baixinho e com calvície
acentuada. Estava apreensivo e pálido. Queria contar uma notícia importante
para a família, mas ficou com vergonha de revelar na frente do cara que
acreditou ser o amigo do filho.
O desespero de Floriano era tanto que ele
nem deu atenção a Naldo durante o jantar. Aliás, nem quis jantar. Ficou sentado
na poltrona de couro, lendo jornal. Além da poltrona, havia uma cadeira tripla.
Não existia televisão. No buffet ficava o rádio, daqueles de madeira, cunhada
como um arco, com alto-falante amarelado. Dona Gertrudes, os dois filhos e
Naldo jantaram na mesa, em silêncio.
O visitante sentiu que o clima da
família não estava bem. Quis ir embora. Ulisses não deixou. Naldo insistiu. Seu
Floriano, querendo ficar a sós com a família, pediu ao filho para deixá-lo ir.
Ulisses explicou que ele não poderia sair sozinho na condição que ele estava.
Disse ao pai que ele estava desmemoriado e acabou confessando que ele mesmo
(para proteger a irmã) o encontrou na varanda da cozinha, dizendo que estava em
um tal de shopping-center fazendo compras com a esposa.
— E como ele veio parar aqui? Perguntou
o pai, assustado.
— Ele não sabe.
Enquanto ouvia pai e filho discutirem,
Naldo começou a ter alucinações. Parecia que ia voltar ao presente. Parecia que
Sabrine o acordaria para voltar pra casa, com as mãos carregadas de sacolas.
Naldo teve um estalo.
— É isso! Esta casa aqui ocupava o
terreno do shopping onde eu estava. Eu voltei sessenta anos no tempo!
Todos na casa ficaram assustados com as
palavras de Naldo. Tiveram certeza de que ele era louco. Naldo ainda disse que
vários prédios e casas da rua iriam abaixo para dar lugar a edifícios que
tocariam no céu. O mar em frente seria aterrado para transformar-se em uma via
expressa. A cidade se tornaria bastante violenta. O Brasil iria perder a Copa
de 1950 no Maracanã para o Uruguai por 2 a 1, com gol de Gigghia no final, calando os
torcedores no estádio, mas a seleção ainda ganharia cinco vezes o torneio. A
primeira conquista seria em onze anos.
Seu Floriano ficou ainda mais pálido.
Desmaiou. Nem ouviu o resto da profecia de Naldo. A mulher e os filhos o
acudiram. Reginaldo saiu de fininho de casa. Sentiu o ar fresco do Rio daqueles
bons tempos, como o cheiro da enseada que ainda não estava aterrada. Ao lado da
casa da família onde se hospedou, havia um colégio onde Noêmia e Ulisses
estudaram. No outro lado da esquina, existia outra casa. A cidade era calma apesar
do trânsito já um pouco intenso de bondes e carros. Naldo estava pronto para
voltar ao presente.
Depois de algum tempo foi chamado. Por
Ulisses. Voltaram para casa e sentaram-se na varanda. O filho do dono da casa
contou que o seu pai está à beira da falência e ofereceram-lhe uma boa quantia
em dinheiro para vender o terreno da casa. A casa onde ele e a irmã nasceram
seria demolida para a construção de um prédio de dez andares que abrigaria
vários escritórios comerciais.
Naldo desculpou-se por ter assustado a
família e prometeu evitar falar do futuro. Ulisses não se aborreceu. Disse que
o amigo tinha razão. Um dia, a casa realmente acabaria e eles teriam que ir
embora. Os filhos precisavam se casar. Naldo e Ulisses atravessaram a noite
conversando na varanda calma e segura de um Rio que já se foi. Sessenta anos
depois, Sabrine comprava no shopping o sapato que procurava há séculos.
*
Jornalista e publicitário de formação e escritor de coração. Publicou o romance
“Notícias que Marcam” pela Giz Editorial (de São Paulo-SP) e a coletânea
“Indecisos - Entre outros contos”.
Seu blog, “Tudo cultural” - www.tudocultural.blogspot.com é bastante freqüentado por leitores
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