Homens e ratos
O
escritor russo, Máximo Gorki, escreveu magistral conto, intitulado “A Mãe”, em
que narra a história de uma criança paralítica, incapaz de se defender, que tinha
várias partes do corpo comidas por ratos. Parece fantasia do genial autor, mas,
creiam-me, é, pelo menos, verossímil. Já aconteceu algo parecido na vida real e
vezes sem conta. No conto, os roedores produziram chagas enormes no menino
indefeso, que sua mãe adolescente, imatura e irresponsável, não pôde ou não quis
evitar. Todavia, como constatou Fedor Dostoiéwsky, “a realidade sempre supera a
ficção” em termos de crueza e dramaticidade. E nem é preciso ir muito longe
para encontrar casos que superam, em muito, as mais loucas e apavorantes
fantasias de escritores de ficção.
Algumas
situações no Brasil contemporâneo, por exemplo, em pleno terceiro milênio da
Era Cristã, num país que é detentor da sexta ou da sétima maior economia do
mundo, são tão insólitas, que nem o mais criativo dos dramaturgos ou o mais
cruel dos sádicos conseguiria inventar. É o caso da história de Edileusa Félix
da Silva, na época (1994) com 24 anos de idade, que era catadora de lixo na
cidade pernambucana de Timbaúba, e que tinha um elemento comum com o citado
conto de Gorki: os ratos. Só que, ao contrário do menino da narrativa do
escritor russo, nem ela e nem sua família eram “comidos” pelos roedores. Comiam-nos.
E há muitos anos. Até apreciavam seu sabor, conforme admitiram na oportunidade.
Devoravam esses bichos, observe-se, não, evidentemente, por razões
gastronômicas, mas por causa da necessidade. Faziam-no premidos pela fome.
Na
época, citei esse caso, amplamente divulgado pela imprensa, em um editorial que
redigi para o jornal em que trabalhava, o “Correio Popular” de Campinas,
publicado na edição de 19 de outubro de 1994. Ressalte-se que Edileusa e sua
família não eram as únicas pessoas a lançarem mão desse desesperado recurso e
nem pretendi, então, caracterizar Pernambuco como Estado em que a miséria atingia
tais extremos. Ademais, não atingia. Tínhamos, então, nas periferias de São
Paulo e do Rio de Janeiro, gente que sequer esse animal asqueroso tinha para
comer.
Bem,
a situação, nesse aspecto, melhorou demais, com os vários programas sociais adotados
nos últimos anos. Ainda assim... Vocês acham que a miséria foi debelada? Que
não existe mais ninguém precisando comer ratos para sobreviver? Antes fosse
assim. Convenhamos, já não temos mais uma fome endêmica, como em passado
recente, para vergonha nacional. Mas, volta e meia, tomamos conhecimento de
casos como o de Edileusa e sua família em um desses tantos grotões deste País
de dimensões continentais.
Encontrei em meus arquivos, por
exemplo, matéria, publicada em 2013 pelo portal UOL, dando conta de que a escassez
de comida, por causa da seca, estava forçando os moradores do Distrito de
Brejinhos, no município de Assunção, no Piauí, a 273 quilômetros de Teresina, a
caçarem o chamado “rato-rabudo”, como única alternativa para prover seu
cardápio com proteínas. A região é caracterizada por muitas grutas, que servem
de abrigo aos roedores. Era comum (não sei se ainda é) ver moradores, em todos
os fins das tarde, saírem de suas casas para caçar. A caça, como explica a
matéria, era artesanal, com uso de toscas armadilhas, feitas com pedra e
gravetos;
Um morador de Brejinhos, identificado
como Genivaldo Bezerra, inclusive explicou como eram essas caçadas. "Quando
o rabudo passa pela armadilha, a pedra cai em cima e ele morre sufocado. No dia
seguinte, a gente vai logo cedo ao local buscar o animal para já ser consumido
no almoço", explicou ao repórter. Não sei se isso ainda é comum naquela
região. Presumo que não. Mas... certeza não tenho nenhuma.
Nunca consegui entender as reações de
muitas pessoas face casos como estes. Ficam chocadíssimas com histórias, como o
conto que citei, de Máximo Gorki, mostram-se indignadas, classificam-nas como peças de horror e de extremo mau gosto e
chegam a duvidar até, não raro, da sanidade mental dos autores. Todavia,... na
vida real, agem com olímpica indiferença quando sabem que seres humanos (muitas
vezes seus vizinhos) são forçados a comer
ratos e outras porcarias, não por prazer (óbvio), mas para sobreviver. E não
são poucos os que agem assim.
É fato que nem todos os comedores de
ratos fazem-no por necessidade. Em alguns países, esses asquerosos roedores,
transmissores de um sem-número de doenças, são considerados manjares muito
especiais. Duvidam? Pois não deveriam. Na Tailândia, por exemplo, esses animais
são devorados com prazer e glutonaria, em várias formas de preparo, com
receitas sofisticadíssimas. O mesmo ocorre na China, no Vietnã e em diversos
outros países da Ásia. Até em certas partes da França esses roedores são
consumidos, com todo o requinte e tempero da tradicional culinária francesa. E
para os que os apreciam, ratos é que não faltam. Dificilmente faltarão;
Uma estimativa recente da Organização
Mundial de Saúde deu conta de que haveria, no mundo, três desses roedores para
cada habitante da Terra. Fazendo as contas, concluímos que há, no mínimo, por
baixo, em cifras até subestimadas, vinte e um BILHÕES desses animais, que se
reproduzem a velocidades estonteantes, à disposição dos “gourmets” que apreciam
sua carne. Os biólogos apostam que serão os ratos, e não as baratas, como
muitos supõem, que herdarão o Planeta, tão logo o homem seja extinto (e este
faz a maior força possível para consumar a própria extinção). Afinal, enquanto
a população desses não menos asquerosos insetos diminui drasticamente, conforme
apontam pesquisas, a dos roedores cresce exponencialmente, mesmo sendo
devorados por muitos. Dostoiewsky tinha ou não tinha razão ao afirmar que “a
realidade sempre supera a ficção” em termos de crueza e dramaticidade? Ora se
tinha!!!!!
Boa leitura.
O Editor.
Acompanhe o Editor pelo twitter: @bondaczuk
Apesar da dramaticidade dos fatos, teve uma hora em que eu ri alto, e isso é um feito seu e do seu texto, Pedro, porque censo de humor é raro aqui, infelizmente. Foi quando você afirmou, e eu só posso concordar, que o homem faz tudo para concretizar o seu fim como espécie. Compartilhei, pelo motivo de sempre: muito bom.
ResponderExcluir