Ypiranga
com São João: Sampa
* Por Raimundo
Antonio
Essa semana eu ia para a academia na
companhia do meu amigo Mário Gérson e sua noiva, quando no rádio do carro
começou a tocar a música “Sampa” na voz de Caetano Veloso, música essa em que
ele homenageia a terra da garoa e imortaliza duas avenidas da referida capital:
São João com Ypiranga. Ri para o amigo e disse: “Mário, eu também imortalizei
as duas avenidas”.
Mário riu, me olhou com cara de quem
estava tentando adivinhar se eu estava de gozação, franziu o cenho e me
perguntou, meio cabreiro: “como?” Sua pergunta seca trazia embutida a
necessidade de saber, porém não querer cair em alguma pegadinha, que,
provavelmente, ele já dava como certa.
- Bati um fusquinha que eu dirigia,
numa Brasília guiada por um japonês, mesmo na confluência das duas avenidas. Na
dobra, como se diz.
Apesar do tom de brincadeira, era
verdadeiro o acontecido, isso pelos anos setenta. Mas, na verdade, sempre fico
nostálgico quando ouço essa melodia, onde o autor não só imortaliza suas
esquinas, mas também, destaca suas parcerias que as tornaram famosas.
Morava pertinho, na Rua Maria Antonia,
na Bela Vista e sempre estava na São João, ou para assistir a um bom filme em
seus vários cinemas espalhados ao longo de seus quarteirões, ou para jantar.
Seus restaurantes boêmios ainda traziam sua clientela vestida de paletós, onde
o malandro da gafieira se destacava com seu terno de linho, sapatos de duas
cores, chapéu panamá na cabeça e o tradicional cordão de ouro pendurado ao pescoço.
Suas meninas também eram famosas e
disputavam com as meninas da Avenida Ypiranga, onde havia o prédio conhecido
popularmente de sessenta e nove, a clientela diversificada, que ia de
profissionais liberais, office boys, nordestinos solteiros, até os homens de
terno e gravata.
Mas, o que eu gostava mesmo era de
andar na Praça da Avenida Ypiranga. Lá, existiam em suas calçadas os artistas
desenhistas com seus cavaletes que mediante um pagamento mínimo, retratavam seu
rosto e imortalizavam aquele momento. Era o aqui e o agora sendo praticado de
forma anônima, sem ser caracterizado de belo ou de arte.
E quando a noite chegava aquilo tudo se
transformava. As casas de espetáculos abriam suas portas e convidavam os
transeuntes, que por ali desfilavam, a todo tipo de show, que ia desde as
gafieiras, passando por strip-tease e culminando com as rodas de samba, onde a
malandrice dava a nota e varava a noite em acordes que viam o sol raiar em tom
maior.
Participei algumas vezes de suas noites
e de seus casarões coloniais e experimentei o gosto de me fazer narciso entre
os belos das duas avenidas, embora soubesse da ilusão de estar apenas
alimentando de saudade um coração ainda imaturo para se dar.
Porém, de todas as lembranças que
guardo das duas avenidas, uma sempre me vem à memória toda vez que escuto o
canto do bem-te-vi e seu gorjeio matinal: Ivanilson, conterrâneo meu, apelido “Bem-te-vi”,
por coincidências do destino, passava na Avenida Ypiranga numa tarde de segunda
e eu o conheci de longe.
Estava magro, sujo e suas roupas
denotavam o uso com que eram postas. Dei-lhe um abraço, vi-o chorar
copiosamente num misto de alegria, salvação e surpresa, e aproveitei para
dar-lhe, também, o que ele precisava naquele momento, e fiz o que qualquer um
teria feito na ocasião: devolvi-lhe a dignidade de cidadão, conseguindo-lhe
trabalho e moradia.
Ah! Sobre a batida? Bem, o danado do
japonês tinha comprado a dita Brasília naquela semana e já tinha batido duas
vezes. Precisa dizer quem estava errado?
* Cronista
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