Moscouzinho
* Por
José Calvino de Andrade Lima
O TREM já não corria
na linha férrea e as Estações estavam fechadas. Era a greve dos ferroviários.
Cristo Mulato ia pegar
o trem das sete e dez, quando então percebeu que a Estação Central do Recife
estava fechada e que muitos ferroviários, misturados com os passageiros,
anunciavam a greve. Cristo resolve pegar o ônibus (não para furar a greve) e
vai até a cidade do Jaboatão, certificar-se de que realmente aquela greve era
legal. No ônibus, os comentários eram diversos:
- Aquilo qui é home!
- Arraia apóia.
- Moscozinho é o QG
dos comunistas...
- A nossa sorte
dependerá do apoio da igreja, que não tivemos na primeira...
- É isto aí,
companheiros, na outra vez de igreja brasileira só teve o padre do catorze RI (14º
RI), que apoiou a nossa greve, colocando a bandeira do Brasil na linha do
trem...
“Arraia”, ele sabia,
se referia ao então governador de Pernambuco, doutor Miguel Arraes e
“moscouzinho” era a cidade de Jaboatão, considerada pelos militares o centro das
agitações subversivas, dado o diminutivo da capital da Rússia (ex-URSS). Fora a
primeira cidade do Brasil a ter um prefeito comunista.
Na plataforma da
Estação de Jaboatão estavam diversos camponeses que se distinguiam pelas vestes
e pelo linguajar, mas era observada a influência política de ideologia
diferente, principalmente para aquele povo ignorante. A maioria com radinho de
pilha ao ouvido. Cristo a tudo isto observava, inclusive a um politiqueiro, que
fazia um comício em praça pública:
- Meus companheiros de
ideologia e de sofrimento...
Dialogando com
Onivlakovitch sobre as greves, este advertiu ao Cristo:
- Não se meta nisso.
Lembre-se das palavras de meu pai: “A política é muito complexa, é como
religião”. Eu, mesmo, deixei até de ser protestante. Lá no quartel perguntaram
qual a minha religião e eu disse que era católico. Estou pensando que vai haver
uma revolução. Os camponeses, na semana passada, dormiram no quartel. Dizem que
foi ordem do governador...
- Irmão, eu estou
achando uma verdadeira anarquia. Lá na Estação de Floriano embarcaram no trem
um bocado de camponeses, com rádio portátil e enxada no ombro, apontando para o
quartel e dizendo: “Estes generais de saia...” No trem, o condutor solicitava:
“a passagem, por obséquio.” – eles respondiam: “Que nada, é por conta de Pai
Arraia e Julhão (ex-deputado Francisco Julião, líder das ligas camponesas, nos
anos 60).
Onivlakovitch
aproveita e comenta um assunto sigiloso ao Cristo:
- Esse assunto aqui
morre. Lá, mesmo, esses civis têm apoio do Governo e do Comandante Geral
coronel Hangho Trench. Ontem mesmo, um civil disse que tirava a minha farda,
porque era cabo eleitoral de um deputado desses...
- E o que você fez?
- Dei-lhe uns
conselhos e o mandei dizer ao padrinho dele.
- Eu o teria prendido.
- Prender não era bom,
porque iria ferir o provérbio popular: “não matei, nem roubei...”
- Acontece porém,
irmão, que nem todas as vezes podemos agir com cortesia, sendo às vezes preciso
um pouco de energia física.
- Em casos especiais,
não é?
- É claro.
- Você, porque não
entra na Polícia?
- Estou com vontade.
Um soldado, por exemplo, está ganhando mais do que eu, um telegrafista. Aliás,
nós lá não sabemos bem o que somos, já que são tantos os apelidos que botaram:
“Amostra grátis”, “golinha”, “rola voou”, “lá vai a guia, “G5...”. Cristo
Mulato foi então entrecortado por Onivlakovitch, admirado:
- Então está demais a
baderna e a corrupção lá na Estrada de Ferro! Por isso que eu segui os
conselhos do meu pai. Está vindo gente de lá assentar praça na polícia com medo
de ser demitido!
- Estão falando que a
gente só não vai ser demitido por causa do presidente João Goulart.
- Rapaz, é tanto cabra
safado politiqueiro nesse país, que já estão confundindo Deus com Pátria. Eu
não vejo patriotismo, vejo é cada um querendo subir às custas dos outros e o
resto é que se dane, se fodam.
- Irmão, eu não sei
como você entrou na polícia, o seu pai já foi preso e se ele fosse vivo eu acho
que ele não queria...- foi entrecortado placidamente por Onivlakovitch:
- O homem tem o seu
livre arbítrio. Papai foi preso, mas a culpa de sua prisão não foi da polícia,
foi da gretueste e dos seus falsos amigos.
Na manhã do dia 31 de
março, do ano de 1964, as emissoras de rádio transmitiam a todos os
trabalhadores que entrassem em greve geral. No outro dia, 1º de abril, às treze
horas mais ou menos, o Governo era deposto pelas tropas do Exército. Houve diversas
prisões em “moscouzinho”. Após uma semana, um oficial do Exército perguntou ao
Cristo Mulato qual era o lado dele e a resposta foi imediata:
- Brasil!
O referido oficial
achou a resposta muito irônica e resolveu prender o Cristo, enquadrando-o como
“subversivo” e anticristão.
No quartel do 14º
Regimento de Infantaria, em Socorro-Jaboatão, Cristo foi submetido a
interrogatório:
- Você vive pichando
muro lá em “moscouzinho”, não é?
- Não senhor. Deus me
livre!
- Você não acredita em
Deus e diz: “Deus me livre?” Olhe, moleque safado, nós já sabemos que você
garatujava os muros lá em Casa Amarela, criticando o nosso Senhor Jesus Cristo.
É mentira, hein?
- Senhor, eu gostava
de desenhar, era uma criança, mas agora que não faço mais isso.
- Você colocou uma
placa da propaganda política em sua casa. É mentira, hein?
- Não, apenas a casa
pertence à Rede Ferroviária, e o superintendente era candidato, junto ao chefe
de Relações Públicas, a cargos eletivos. Pediram e eu tive que obedecer, para
não sofrer perseguições...
- Continua... fale
mais, seu porra!
- Me respeite.
- Respeitar o quê? Dá
umas piabadas nesse moleque.
- Não façam isso
comigo, pelo amor de Deus!
A salvação do Cristo
foi um oficial superior que chegou na hora, e ordenou:
- Ninguém bate!, o que
fez esse moreno?
- Ele é comunista,
vivia no grupo dos pichadores em muros e fazendo política na Rede.
O imparcial militar
deu a ordem:
- Solta o moreno. – e
virando-se para o Cristo – Veja lá, você não apanhou, não se meta mais nisso.
Na próxima, já sabe como é, ahn?
- Muito obrigado, eu
nunca me meti em política. Muito obrigado...
Cristo saiu pensando:
“Será que foi por eu haver falado lá na Estação que estava em dúvida quanto à
existência de Deus? Ave Maria! Meu Pai do Céu, será que o portuga estava
certo?: “Puta que o pariu, nego safado!” Ele dizia... – e continuava a pensar:
“ Faça com que tudo dê certo, eu sou patriota. É a vida, Jesus nasceu pobre,
não caiu do céu, cresceu, viveu no meio do povão, alguns seguiram-no, a maioria
foram covardes e levaram-no a ser crucificado. Ele dizia ser o filho de Deus,
quem sabe? Mentir é necessário, quem é que não mente? A humanidade mente porque
mentir é realmente humano. Em relação à mentira, Abraão Lincoln disse: ‘ É
possível enganar parte do povo, todo tempo. É possível enganar parte do tempo
todo povo, jamais enganará todo povo, todo tempo.’”
Onivlakovitch era cabo
da Polícia, não exerceu a profissão de telegrafista porque o quadro era
restrito, achava melhor nas fileiras. As promoções eram rápidas. Lembrou ao
Cristo o acontecido no dia da revolução de 64, a morte do ex-soldado
“Barruada”, que foi abatido junto ao edifício JK, no Centro do Recife, durante
manifestação contra a deposição do governador Miguel Arraes. No protesto, um
grupo cantava o Hino Nacional e carregava bandeiras do Brasil. Os soldados
teriam atirado quando jogaram pedras contra as tropas revolucionárias, sendo
respondidos a balas, resultando em dois mortos e um ferido.
Cristo lembra do
ex-soldado da Polícia do Exército (PE) “Barruada”: “No Exército, ele fazia o
símbolo nazista nos tamancos, tinha idéias nazistas. Foi dar viva ao nazismo...
era um idiota, pois eu passei por vexame no 14 RI e não sofri porque realmente
não tenho experiência por nenhum partido. Sou adepto ao nacionalismo, como
patriota, e digo, sinceramente, que gente ruim tem em todos os setores, seja na
vida militar, seja na vida civil, como também existem pessoas compreensivas,
como foi o caso do Oficial que não deixou que me espancassem.”
“Barruada” era muito
jovem. Em 64, pelos cálculos, tinha uns vinte e dois anos. Era um meninão, um
adolescente... também a PE (Polícia do Exército), parecia com a Gestapo
alemã...
- Irmão, o silêncio é
importante, mas a verdade tem que ser dita. Aquilo tudo eu não acho que foi
revolução não, acho sim que foi um golpe militar... – foi entrecortado por
Onivlakovitch:
- Eu disse revolução,
mas, mais das vezes eu digo que foi o “golpe de 64”!
Em 1966 Cristo Mulato
entra na Polícia Militar do Estado. Lá, quase não falava, era considerado como
um bom Soldado ou Policial.
Nota do autor: No
Recife, o regime fez as suas primeiras vítimas: os estudantes Ivan Rocha Aguiar
e Jonas José de Albuquerque Barros (mortos) e um ferido, não identificado!
(Capítulo XIV do livro
“O Cristo Mulato”, ed. do autor – 1982).
*Escritor,
poeta e teatrólogo pernambucano.Vejam e sigam Fiteiro Cultural: Um blog cheio
de observações e reminiscências – http://josecalvino,blogspot.com/
Um colega do Instituto Histórico e Geográfico de Montes Claros, que se aposentou como coronel da Polícia Militar, afirma categoricamente que não houve torturas e nem mortes no Brasil durante o Governo Militar. Ninguém contradiz nosso tesoureiro, mas eu mesma fiquei a lembrar das afirmações do ex-presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad. Ele diz que não aconteceu o Holocausto. Cada um acredita no que quer.
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