O eclético escritor que amava o povo e
o futebol
O escritor uruguaio, Eduardo Hughes Galeano, que nasceu,
viveu e morreu (neste 13 de abril de 2015) em Montevidéu, é um dos tantos
latino-americanos que serão sempre citados (com pertinência, diga-se de passagem)
como mais um dos tantos injustiçados pelo Nobel. Ele tornou-se mundialmente
conhecido pelo seu livro “As veias abertas da América Latina”. Há quem ache que
essa foi sua obra “única” – a exemplo de Juan Rulfo, que só publicou “Planalto
em chamas” – o que é tremenda desinformação. Há muita gente que posa de “expert”
em Literatura, mas que, ao fim e ao cabo, entende muito pouco do riscado.
Galeano, além de escritor, foi notável jornalista, que tinha muito que ensinar
aos que exercem essa nobre profissão.
Quanto à sua bibliografia, esta é bastante considerável.
Ascende a mais de 40 livros, a imensa maioria abordando a história nem sempre
narrada com fidelidade dos povos latino-americanos. Desses, 13 foram traduzidos
para o português, o que não é desculpa para não ser lido no Brasil, e que são
os seguintes: “As veias abertas da América Latina” (1971); “Vagamundo” (1973); “Dias
e noites de amor e de guerra” (1973); “Memórias de fogo” – trilogia (1982 a
1986); “O livro dos abraços” (1989); “As palavras andantes” (1993); “O futebol
ao sol e à sombra” (1995); “Ser como eles” (1997); “Mulheres” (1997); “Pés
acima: a escola do mundo ao revés” (1998); “Bocas do tempo” (2004); “O teatro
do bem e do mal” (2002); “Espelhos, uma quase história universal” (2008) e “Os
filhos dos dias” (2012), a última obra que publicou, também lançada em nosso
país.
Eduardo Galeano nasceu em 3 de setembro de 1940, em uma
família de classe média, de ascendência européia. Batalhou muito para se
instruir, tendo, na adolescência, assumido funções bastante modestas, como as
de pintor de letreiros, mensageiro, datilógrafo e caixa de banco. O curioso é
que seu sonho de infância não era, propriamente, ser jornalista e nem escritor.
Era o de ser jogador de futebol profissional, certamente influenciado pelo
título mundial (o segundo da sua história) conquistado em 1950, pelo Uruguai,
no célebre episódio do “Maracanazzo”, ocasião em que tinha quase dez anos de
idade (que completaria meses depois da conquista).
Não por acaso, um dos primeiros livros que publicou, em 1968,
foi “Su majestad El futbol” (não traduzido para o português). Mas sua obra mais
conhecida, abordando este apaixonante esporte das multidões, data de 1995.
Trata-se de “O futebol ao sol e à sombra”, esta sim lançada no Brasil e
bastante conhecida, sobretudo da mídia esportiva brasileira. Neste livro, entre
outras coisas, Galeano compara esse esporte ora como teatro, ora como uma
guerra, com suas táticas e estratégias. E estava errado? Óbvio que não. Narra,
principalmente, a final de 1950 e tudo o que a cercou, antes e depois da
conquista uruguaia (e, consequentemente, do fracasso brasileiro considerado o maior
de nossa seleção até ser superado pelo de 2014, com a trágica goleada sofrida
diante da Alemanha por 7 a 1).
Apesar de “As veias abertas da América Latina” ser a obra
mundialmente mais conhecida de Eduardo Galeano, a que teve melhor acolhida por
parte da crítica internacional foi a trilogia “Memórias de Fogo”, uma espécie
de resgate da História da América Latina, com seu punhado de heróis e sua
multidão de vilões, sobretudo os vários caudilhos que governaram os países
latino-americanos e foram responsáveis pelo secular atraso do hemisfério. Ele
foi comparado (comparação com a qual concordo) com o norte-americano John dos
Passos e com o colombiano Gabriel Garcia Marquez. O renomado crítico do “The
Times”, Ronald Wright, chegou a escrever que "os grandes escritores
dissolveram gêneros antigos e encontraram novos. Esta trilogia de um dos mais
ousados e talentosos da América Latina é impossível de classificar". Da
minha parte, classificaria a obra de genial.
Quando afirmo que Eduardo Galeano é um dos tantos e tantos e
tantos injustiçados do Nobel não exagero e nem estou tecendo loas pelo fato
dele ter falecido. O escritor uruguaio inovou em Literatura. Conseguiu a façanha
de combinar em sua obra ficção, jornalismo, análise política e História.
Recorde-se que, nos mais de cem anos de existência da premiação, apenas seis
escritores latino-americanos foram premiados: Gabriela Mistral (Chile), em
1945; Miguel Angel Astúrias (Guatemala), em 1967; Pablo Neruda (Chile), em 1971;
Gabriel Garcia Marquez (Colômbia), em 1982; Octávio Paz (México), em 1990 e
Mário Vargas Llosa (Peru), em 2010. Só de brasileiros que mereceram o Nobel e
não foram sequer cogitados, poderia citar, na ponta da língua, pelo menos cinco
dezenas de escritores. De todos os injustiçados, considero como “pecado mortal”
irremissível o fato de Machado de Assis não ser, nem remotamente, cogitado para
o Nobel de Literatura. Afinal, “ignorância literária” tem limites, ou pelo
menos deveria ter.
Eduardo Galeano vem juntar-se – excluindo os brasileiros – a
escritores excepcionais da América Latina, nunca cogitados a esse prêmio. Como
os argentinos Jorge Luís Borges, Ernesto Sabato, Júlio Cortázar, Ricardo Piglia
e Adolfo Bioy Casares. Ou como o nicaragüense Ruben Dario. Ou como os cubanos
Alejo Carpentier, José Lezama Lima e Guillermo Cabrera Infante. Ou como o paraguaio
Augusto Roa Bastos. Ou como seus conterrâneos uruguaios, Horácio Quiroga, Juan
Carlos Oneti e Mário Benedetti. E a relação poderia se estender por páginas e
mais páginas. Além do que, não existe um Prêmio Nobel póstumo, para corrigir
tantas e tão gritantes omissões.
Boa leitura.
O Editor.
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