Outono
* Por Solange
Sólon Borges
Caem as folhas secas no chão
irregularmente,/
Mas o fato é que sempre é outono no
outono,/
E o inverno vem depois fatalmente...
Fernando
Pessoa
As flores vestem cores enganosas.
Somente com a luz clara do verão ou da primavera é possível vê-las na
totalidade. O que o outono me consente? O branco do fim da tarde avisa sobre o
vazio próximo, o inverno, e ele chega de vez, como se diante das intermitências
das nuvens todo um universo alicerçado em detalhes pudesse ruir. O branco
interior reflete minhas memórias encobertas por pátina, tempos que subsistem em
mim, teias ocultas, alma suspensa nesse suave retiro. No inverno não sei dizer
nada; no outono ainda sussurro.
Passeio nas últimas horas do dia para
ver a noite surgir com seus arminhos feéricos. Azulmente. Há uma plumagem aérea
que purifica uma ou outra palavra, e me desenrolo em versos, que enfeitam os
cantos desdobrados do meu quarto.
É minha estação de quietude, de teias
de aranha no alto do sonhos, quando aparo arestas íntimas, na estagnação lenta
dos hábitos que terá seu ápice em dias estranhamente frios. Embarco em mim, em
interiores onde nada se macula. Um Sol tímido arde nas janelas reverberando as
chamas tênues do fogo e essa suavidade me preenche com promessas.
Meu amado soluciona com habilidade
problemas matemáticos, mas não há como me alcançar com álgebras. Então, segura
minhas mãos pequenas para que eu tenha a certeza dos poentes e das portas
abertas. Não sou náufraga e faço uma amável viagem. Estou bem, informo, é só o
rito de passagem para que o que é voraz se aquiete e o que é excessivo silêncio
se nomeie. Quando sair dessa época de sombras irregulares serei esplendente,
nascente entre sóis invisíveis, amor ressuscitado, intervalo de sedas...
* Jornalista,
dedica-se a diversos gêneros literários. Entre outras atividades, atua em
alguns programas “O prefácio”, sobre livros e literatura. Um deles é o programa
Comunique-se, levado ao ar pela TV interativa ALL TV (2003/2004). Apresentou,
também, “Paisagem Feminina”, pela Rádio Gazeta AM (1999), além de crônicas
diárias na Rádio Bandeirantes e na Rádio Gazeta — emissoras das quais foi
redatora, repórter, locutora e editora.
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