Comunicação verbal
* Por Pedro J.
Bondaczuk
A facilidade de comunicação através da
palavra falada, ou seja, da conversa, do olho no olho, daquilo que os franceses
chamam de "tête-a-tête" é um dom. Alguns, são mais articulados,
outros, nem tanto, outros, ainda, têm dificuldades muitas vezes intransponíveis
de entender e de se fazerem entendidos pelos que os cercam.
De minha parte, vim a descobrir que
tinha essa vocação para falar em público há trinta anos, embora há 54 houvesse
trabalhado em rádio, profissão que voltei a exercer tempos depois, em Campinas,
de 1980 a 1982, na excelente Rádio Educadora (atual Band Campinas). Não me
refiro, porém, ao simples bate-papo, que sempre gostei, por apreciar as
pessoas, o ser humano, os indivíduos (claro, os positivos e inteligentes, que
não lesam ninguém e têm postura construtiva). Desde 1985, realizei na cidade (e
fora dela, inclusive em outros Estados) constantes palestras, proferindo
discursos em solenidades diversas, fazendo, até, conferências, e inclusive
dando aulas inaugurais em universidades.
Há oito anos, por questão de
dificuldade de locomoção, em decorrência da idade (afinal, não sou mais
menino), limitei essa exposição pública, que agora é bastante rara. O engraçado
é que até começar a palestrar, não me julgava capaz de enfrentar grandes
platéias. Sempre me considerei tímido, inibido, medroso em relação a estranhos.
No rádio não havia problema: ficava confinado em um estúdio, na companhia
somente do operador de som. Mesmo sabendo que do outro lado eu poderia estar
sendo ouvido por milhares, provavelmente milhões de pessoas, inclusive de
outros países, dado o incrível alcance das ondas sonoras, nunca me preocupei.
Até porque, voz (principal instrumento do radialista) sempre tive boa (pelo
menos os que me empregaram diziam isso, além dos ouvintes fiéis que consegui
conquistar).
Encarar um auditório, principalmente
desconhecido, como fiz freqüentemente, não é brincadeira. E interessá-lo de
formas a que me ouça por meia hora ou mais, sem impaciência, tédio ou
irritação, e aprenda alguma coisa comigo, é constante desafio. A arte da
oratória ajuda e tive a felicidade de fazer um curso desses, o que me deu pelo
menos autoconfiança, mas nunca me tirou o nervosismo.
Um orador (palestrante ou conferencista)
sente, antes de começar a falar, a mesma tensão de um ator. Fica dopado de
adrenalina. Tanto, que só consegue voltar ao normal duas ou três horas depois
de cada apresentação. Sua frio, a boca fica seca, o coração dispara e o sangue
lateja nas têmporas.
Quando o mestre de cerimônias me
anunciava, e todos os olhares se voltavam para mim, dava um medo terrível. Não
das pessoas ali presentes, é óbvio, mas do ridículo. A mesma coisa eu sinto
quando encaminho à editoria competente (não a que era responsável, é óbvio) um
texto para ser publicado, artigo ou crônica (não importa). Mas ao vivo, diante
de uma grande platéia, em geral desconhecida, a sensação de medo é muito pior.
A vista fica turva, a respiração
ofegante e entrecortada e é difícil dizer as primeiras palavras. Chegava a
ficar em pânico, embora ninguém percebesse. Ao contrário, em geral os que me
ouviam comentavam, depois, sobre a minha frieza, minha calma, minha
tranqüilidade. Mal sabiam que tão logo era anunciado, tinha, apenas, vontade de
fugir, de correr, de sair daquele local. Respirava fundo, olhava para todos os
lados do auditório e fixava o olhar na última fileira. É um truque que aprendi.
Parece, a cada pessoa presente, que o palestrante está olhando diretamente para
ela. Na verdade, não olhava especificamente para ninguém.
Feita a saudação de praxe, a tensão
baixava. A mente ficava clara e só tinha um objetivo: fazer-me entendido. O
nervosismo desaparecia por completo, substituído por uma euforia muito grande,
uma espécie de embriaguez. Essa sensação é que me garantiu sucesso no contato
com o público. Nestes trinta anos, fiz mais de quinhentas apresentações. E
posso contar nos dedos de uma só mão as que, na minha autocrítica – e no
consenso dos que me assistiram – não foram pelo menos corretas.
Os que me acompanharam nestes anos
todos garantem que 30% delas foram brilhantes. Acho exagerado. Talvez 5%,
quando muito, mereçam essa classificação. Medíocres, por outro lado, foram umas
dez ou doze, em que senti a platéia bocejar e alguns chegarem até mesmo a
abandonar o recinto. E qual a razão dessa arriscada exposição? Vaidade?
Dinheiro? Fome de elogios? Pode até ser. Mas o motivo maior era a generosidade,
a convicção de que devia passar adiante os conhecimentos e a experiência que
adquiri. Só mesmo ela poderia levar-me a
abrir mão da privacidade, vencer a timidez, superar o medo do ridículo e
enfrentar públicos dos mais variados e complexos, tornando-me
"viciado" em adrenalina.
*
Jornalista, radialista e escritor. Trabalhou na Rádio Educadora de Campinas
(atual Bandeirantes Campinas), em 1981 e 1982. Foi editor do Diário do Povo e
do Correio Popular onde, entre outras funções, foi crítico de arte. Em equipe,
ganhou o Prêmio Esso de 1997, no Correio Popular. Autor dos livros “Por uma nova
utopia” (ensaios políticos) e “Quadros de Natal” (contos), além de “Lance
Fatal” (contos), “Cronos & Narciso” (crônicas), “Antologia” – maio de 1991
a maio de 1996. Publicações da Academia Campinense de Letras nº 49 (edição
comemorativa do 40º aniversário), página 74 e “Antologia” – maio de 1996 a maio
de 2001. Publicações da Academia Campinense de Letras nº 53, página 54. Blog “O
Escrevinhador” – http://pedrobondaczuk.blogspot.com.
Twitter:@bondaczuk
Já tinha falado dessas mais de 500 palestras, mas não tão detalhadamente. Bom saber que todos passam por apertos para falar. Eu não sei fazer isso.
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