Andrômeda
* Por
Eduardo Oliveira Freire
Desde menino já me
percebia diferente. Os outros garotos implicavam comigo, alguns homens me
olhavam esquisito. Além de eu não gostar disso, meus pais começaram a achar a
minha beleza uma maldição. Deixavam-me careca, compravam roupas sóbrias e me
colocaram nas aulas de futebol. Não adiantou. À medida que crescia, aumentava o
fascínio ou repulsa que as pessoas tinham por mim.
Nesta época, começou a
passar na televisão um desenho sobre guerreiros que protegiam uma deusa contra
as forças do mal. Havia um personagem com o qual me identifiquei; sua
constelação era Andrômeda, que antes havia sido uma princesa mitológica,
acorrentada a um rochedo para ser devorada por uma besta que vivia no fundo do
mar. A personalidade do guerreiro se assemelhava com o mito da formação de sua
constelação protetora: era bondoso e estava sempre disposto a se sacrificar
para salvar o mundo. Ele usava correntes que reproduziam a nebulosidade da
constelação de Andrômeda e as utilizava só para se defender e lutar contra os
vilões. A armadura que vestia era rosada e o molde lembrava um corpo feminino.
Já os outros meninos da minha idade queriam ser os guerreiros com mais força de
combate.
As pessoas me cobravam
um posicionamento do que eu era. Não entedia a razão da cobrança. A pergunta
frequente era se gostava de homem ou de mulher. Eu não sabia responder, nunca
pensei nestes assuntos. Estava às voltas com minha imaginação, escrevendo e
desenhando reinos de criaturas fantásticas. Eu chorava com cada criação de uma
personagem e me apaixonava por elas, não por suas formas físicas, mas pela
essência. Uma vez me disseram que eu era uma aparição. Talvez, estivessem
corretos.
Outro dia, meus pais
me contaram que a noite em que me fizeram estava muito estranha. Quando
transavam, ele se sentia ela e ela se sentia ele. Nunca sentiram um prazer tão
intenso. Minha mãe deixou escapar que deve ser coisa do demo. Eu disse que não,
posso ser uma quimera.
Com o passar do tempo,
fui me tornando alheio a tudo e a todos. Passava horas visitando os meus reinos
de princesas, unicórnios, guerreiros, sereias e gigantes. De vez em quando,
sentia que mãos alisavam minha pele e comentavam que estava cada vez mais
sensível como uma pétala. Eu nem ligava, continuava na minha travessia.
Um dia, de repente, me
vi preso numa caixa escura. Senti uma pontada de medo. Aí abriu-se na escuridão
uma fenda para o universo. Emocionado, vi que era a nebulosa de Andrômeda e ao
longe ouvi o barulho da corrente do cavaleiro de Andrômeda, salvando-me. Fiquei
transbordando de felicidade. Posso viajar pelo universo e visitar sem pressa
meus reinos encantados através das correntes do cavaleiro de Andrômeda.
*
Formado em Ciências Sociais, especialização em Jornalismo cultural e aspirante
a escritor - http://cronicas-ideias.blogspot.com.br/
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