sexta-feira, 13 de março de 2015

Ato único: estar e não mais aqui estar


* Por Rodrigo Ramazzini

  
- Seu Dionísio sente-se, por favor, pois a notícia que lhe darei não é das melhores. O seu filho Joaquim acidentou-se em sua cavalgada. Foi socorrido, levado ao hospital, mas não resistiu aos ferimentos originados pela patada do animal...
  
Não somos preparados para surpresas, muito menos negativas. Aprendemos que a vida tem um curso básico, de progressão, e qualquer interferência neste “roteiro” estabelecido passa pelo plano do imaginário. A morte repentina, como o exemplo mais completo, ainda mais se o finado for jovem.
  
Um falecimento bestial tendo em vista a lógica humana. Fora averiguar as ferraduras do cavalo. Mas por que verificar isto, meu Deus? E o animal assustara-se. O coice acertou-o bem ao peito. Sem chances para o jovem Joaquim.
  
Uma cidade sensibilizada. Pobre Joaquim, morrera tão moço, na flor da idade, um belo rapaz. A morte santifica. Família conhecida, uma multidão no velório a dar as suas condolências e pêsames. Os pais, revoltados, moribundos, a olhar o caixão. Não acreditam no epílogo reservado ao seu “fruto”.
  
A namorada do Joaquim, a Tahira, estava a trabalhar (era vendedora em uma loja) quando soube da funesta notícia. Desmaiou. Tinham uma relação complicada, de inúmeras idas e vindas. Brigavam seguidamente. Eram ambos “geniosos”, não davam o braço a torcer. O que lhes sustentava unidos, segundo Tahira, era o sexo. Ou o costume?
  
O ser humano é confiável? Na noite anterior ao acidente, Tahira e Joaquim discutiram feio. Uma “briga normal”, como as demais que já haviam tido. Joaquim pegou a sua moto e rumou para um bar, para beber um pouco. Tahira produziu-se toda, como toda mulher magoada e vingativa sabe fazer, e saiu também. Estava linda. Todos a olhavam. Encontrou algumas amigas. Bebeu bastante, e conheceu o Jéferson.
  
O beijo aconteceu em frente à sua casa, dentro do carro do Jéferson. Era a primeira vez que Tahira agia desta forma. Traição! Foi uma ação rápida. Quando começaram a se beijar, a mãe de Tahira espiou-os pela janela. Assustada, saltou do carro. Dormiu a pensar em seu ato. Impulso?
  
Acordara com uma sensação estranha, um pressentimento talvez. Mas como os reclames para ir trabalhar eram diários, tais percepções não lhe tomaram a atenção. O lúgubre aviso chegou por volta das 10h30min da manhã, através de uma prima do Joaquim. Era o fim!
  
Levada ao hospital local, medicada, dirigiu-se, então, ao velório com os seus pais. No carro, os seus pensamentos vertiginosamente transcorrem entre o questionar lúcido da moral e a saudade. O que é certo ou errado? Chegam ao local.
  
Sobem uma pequena inclinação do caminho até atingirem o exato lugar. Tahira caminha de cabeça baixa, amparada pelo pai. Na porta é recepcionada por uma tia do Joaquim, que a conduz até os pais dele. Uma esperada comoção marca esse encontro. Então, Tahira vira-se para o escuro caixão, respira fundo, e lembra-se do encantador sorriso de Joaquim, e descobre: ele era o seu verdadeiro amor.
  
O arrependimento! Uma lágrima escorre na sua morena face. Aproxima-se do caixão, e passando a mão no rosto de Joaquim, lhe indaga, baixinho: “Perdoa-me?” Abraça-o, e chora até a terra úmida encobrir toda a matéria, e tudo virar saudade. O adeus!
  
As lamúrias de Tahira sensibilizaram os presentes, sendo que geraram todos os comentários após o enterro...
  
Mal sabem que as lágrimas não eram apenas pela dor da perda, mas também, por causa da consciência... A consciência pesa!


* Jornalista e cronista

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