Pequeno
Manual para Identificar Frescuras
Por André
Falavigna
Vamos esclarecendo a coisa logo de
cara: frescura e homossexualismo são duas coisas completamente distintas.
Muitas vezes andam juntas, mas não se misturam necessariamente. Por exemplo: o
sujeito que ler este parágrafo e acusar o termo “homossexualismo”, pedindo um
“homossexualidade”, é, sem sombra de dúvida, fresco. Mas não precisa ser, por
conta disso, homossexual, inclusive porque a burrice se distribui
democraticamente entre todos os apetites sexuais conhecidos. Já a frescura não
viceja a não ser em solo estúpido. Havendo burrice, poderá haver frescura. O
homossexualismo não tem nada a ver com isso.
Ocorre que é difícil safar-se da
frescura, porque ela, além de encontrar um ambiente adequado em quase todos os
setores da atividade humana, tem características meio assim como as das
trepadeiras. Vai se esticando e se enfiando em tudo quanto é buraco que
aparece. Assim, a frescura que medra feliz pelos campos do jornalismo
encontra-se, rápida e decidida, com a frescura que prospera sapeca pelas searas
da medicina, só para ficar no exemplo que mais me vem à cabeça agora e que,
mais tarde, voltará à baila neste mesmo texto. As redes de frescura vão então
se ampliando e se imbricando umas nas outras, até o ponto em que todo o
panorama do mundo visível é recoberto de frescura, frescura e mais frescura.
Por isso, urge criar alguns meios
identificadores do que é frescura e do que não é, sob o risco de continuarmos
recebendo e-mails com longas listas estúpidas enunciando bobagens a respeito do
assunto. Outro dia, recebi um que dizia que se alguém conhece mais de não sei
quantas cores, é porque é veado. Está claro que veado, aqui, é designação de
fresco e não de homem que gosta de homem, coisa totalmente diversa. A confusão
é clássica, mas não pode servir de desculpa. O importante é que há por aí uns
tipos que estão desesperados, sufocados pela frescura reinante, e que acabam
atirando para qualquer lado. Vamos estabelecer um ponto: conhecer cores, entender
de vinhos, fumar charutos, identificar autores de quadros, gostar de teatro,
ser alfabetizado, enfim, essas coisas todas, podem muito bem ser invadidas pela
frescura, mas não são essencialmente frescuras. Eu sei que é muito difícil
perceber quando o sujeito que gosta de cinema europeu é fresco e quando ele
simplesmente viu filmes europeus de que gostou. É difícil porque temos que
esperar o camarada dizer que “não assiste o circuitão comercial” para confirmar
que, espiritualmente, ele é um sodomita dos mais ferozes. E é diante dessa
dificuldade que me vejo obrigado a ensinar-lhes, por enquanto, apenas o básico
de meu Manual de Identificação, Isolamento e Extermínio de Frescuras.
Não se preocupe em identificar as
frescuras em si, no começo pelo menos. Identifique os frescos antes. Tudo o que
um fresco faz, é frescura, mesmo que seja uma atividade típica de pessoas de
bem (como a jogatina, por exemplo). Uma pessoa normal, quando viciada em jogo,
vai ao carteado, no máximo a um vídeo-pôquer. O fresco vai ao Bingo e fica
horas lá.
Um bom atalho é identificar os gostos
esportivos do elemento a ser analisado. Se ele gostar de automobilismo e não
for rico ou americano, tem grandes chances de ser uma bichona louca, no sentido
moral da coisa. Vocês podem, inclusive, reparar no seguinte: quanto mais
alternativa for a modalidade à qual o amigo for filiado, mas fácil é a
identificação do, digamos assim, prurido típico que o acomete. Nesse sentido,
os pendores pela Fórmula 01 estão até banalizados, ao passo que uma conversa
sobre stock car, caso não envolva morte e mutilações, é caso perdido. Mesmo
dentro do universo monolítico da frescura, há gradações. Se o “fã de esportes”
gosta de Nelson Piquet, ainda passa. Se for daqueles que fica brava toda vez
que alguém fala mal de Ayrton Senna, estejam certos: vocês estão diante de uma
Rainha Mãe do cupinzeiro. Todo cuidado é pouco.
Os únicos esportes praticados no Brasil
que se admitem numa conversa de pessoas normais são os seguintes: futebol,
basquete, boxe, turfe, baralho, palitinho e dados. Em época de Olimpíada,
admitem-se hipismo, atletismo e natação. Do resto, desconfie. Um esporte, em
especial, serve como um sinal vermelho na testa de seu admirador: trata-se do
vôlei masculino (nenhuma pessoa séria leva qualquer esporte feminino em
consideração, para nada). Todas as equipes brasileiras que obtiveram sucesso no
vôlei foram chamadas de “meninos do vôlei”. No vôlei não há indisciplina e todo
mundo tem “garra” (deve ser para dar umas unhadas mais fortes). Os jogadores de
vôlei comemoram tudo que dá certo, por mais idiota que seja, e ficam uns dando
tapinhas na bunda do outros sem mais nem menos. A terminologia que envolve o
esporte é repulsiva: block, deixadinha, manchete (meu Deus, o que é isso?), e
todo mundo que joga vôlei sabe perder. Nunca, na História do vôlei, algum jogo
acabou em pancadaria. A torcida de vôlei da seleção masculina é patrocinada por
uma estatal. Tudo isso torna o vôlei um assunto de morde-fronhas.
Outro bom meio de identificar um fresco
é sua alimentação. Todo homem que não compreende que o ato de comer é pura diversão
e que não tem nada a ver com a saúde é, além de um fresco, um nazista e um
filha de uma puta. Há quem não coma ovo
por conta do colesterol, há quem acredite que carne mal passada faz mal, há
quem se julgue alérgico a todo tipo de coisa, desde o leite até o azeite. Eu
acho muito engraçado. Mas há agora quem acredite que eu e você não devamos
comer ovos moles com bifes gordos que espirrem sangue fervendo no olho de
nossos vizinhos de mesa, porque estão preocupados com a saúde de todos nós. Aí
temos um exemplo de como a frescura, além de irritante, pode ser perigosa. O
fato mesmo de que médicos abram a boca para dar opinião sobre saúde pública já
é um descalabro proveniente da frescura. O conceito de Saúde Pública é uma
coisa bizarra: se não for para conter epidemias (daquelas clássicas, em que
criaturas microscópicas nos sacaneam, e não dessas subjetivas, como obesidade),
cuidar de mamães e distribuir vacinas, não consigo entender para que catzo sirva
uma política pública de saúde. Deve ser para lotar o mundo de ex-fumantes mais
insuportáveis do que qualquer fumaça de cigarro. Disso eu tenho certeza, porque
nunca fumei: nenhum cigarro do mundo é mais inconveniente, chato e fedido do
que um ex-fumante. O ex-fumante é um subproduto da frescura. Só o tabaco pode
salvar-nos dessa gente.
Aliás, aqui temos mais um elemento
identificador de frescos de todos os matizes: frescos sempre são muito
preocupados em serem homens e mulheres de seu tempo. Se você quiser saber o que
seria conveniente pensar para não parecer desalinhado, pergunte ao fresco. É
por isso que a torcida do São Paulo está repleta de frescos: não é porque há um
montão de homossexuais são-paulinos, coisa que até acredito que não haja. É
porque, dada a capacidade da frescura de penetrar em todas as frestas da vida,
é natural que ela precise de um lugarzinho só dela inclusive no futebol, no
palitinho (ou porrinha, como queiram) e, por último mas não somente, até no
homossexualismo mesmo.
O São Paulo Futebol Clube é, por uma
série de motivos cuja exposição não cabe aqui (sobretudo agora, perto do final
da crônica) o maior repositório de anseios afrescalhados de nossa crônica
esportiva; ele é, portanto, aquele lugarzinho que a frescura encontrou no
futebol. Daí ser tão fácil encontrar são-paulinos que acordam cedo, domingo de
manhã, para assistir Fórmula 01 e choramingar a ausência de Ayrton Senna da
Silva. Daí ser tão comum um sujeito alertar-nos à mesa acerca do que estamos
comendo e, citando-nos a capa da última edição da “Veja”, glosar nosso
cardápio, tudo isso entre um e outro elogio às coxas do Raí e aos cotovelos
filantrópicos do Leonardo. Encontrar um são-paulino é, quase sempre, encontrar
um fresco triunfalista.
O mais assustador disso tudo é que,
constantemente, fazemos concessões à frescura. O fazemos justamente por conta
da natureza afrescalhada dela, que não levamos a sério. Pois deveríamos. A
frescura opera basicamente pela consideração histérica de hipóteses histéricas
formuladas sobre aspectos superficiais do cotidiano. Todavia, os objetivos da
tentativa de sistematização e institucionalização da frescura são sempre
perversos. O Khmer Vermelho mandou muita gente para o espaço por motivos muito
frescos. Usar óculos era uma sentença de morte. Quando os frescos de hoje em
dia falam em alimentação saudável, aeróbica, planejamento e disciplina, eles
estão falando disso mesmo: alimentação saudável, aeróbica, planejamento e
disciplina. Eles querem tudo isso para você e para mim. E é aí que reside o
Mal. A cada concessão que fizermos, teremos dado mais um passo em direção ao
inferno: vamos todos acabar sendo obrigados a torcer pelos meninos do vôlei do
São Paulo Vôlei Clube. Esperem e verão.
(*) André Falavigna é escritor,
tendo publicado dezenas de contos e crônicas (sobretudo futebolísticas) na Web.
Possui um blog pessoal no qual lança, periodicamente, capítulos de um romance.
Colabora com diversas publicações eletrônicas.
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