Busca de ideais
* Por Pedro J.
Bondaczuk
O homem não pode viver – no sentido
mais amplo do termo, ou seja, o de ter uma vida "civilizada", com
qualidade – se não tiver um ideal, por mais absurdo que este seja. Precisa de
motivação, seja ela qual for – a imposição de uma fé, a obtenção de riquezas, a
satisfação da carne, a conquista do poder ou o reconhecimento intelectual, não
importa – para que possa se empenhar,
agir, fazer, ser. No confronto com a realidade, muitas vezes somos lançados em
crises existenciais agudas ou crônicas, que podem durar uma hora, um dia, um
mês, um ano ou mesmo até a hora da nossa morte, que não sabemos (felizmente)
qual é. Compete-nos reagir contra a tentação de manter o tempo todo os pés no
chão.
Precisamos da fantasia para sobreviver
enquanto seres pensantes. Aquela que é a matéria-prima das artes e a
consoladora mor dos homens. Ninguém resiste à realidade absoluta. É como olhar
diretamente para o Sol. Ela nos cega e até nos mata. Há um poema de Raul Leoni
que não me canso de citar em minhas crônicas, que diz, em determinado trecho:
"O homem desperta e sai, cada alvorada,/para o acaso das coisas...E, à
saída, /leva uma crença vaga, indefinida,/de achar o Ideal em alguma
encruzilhada..." Alguns conseguem e abraçam-no ferozmente, para que não
mais escape. Outros prosseguem nessa busca incansável, dia após dia, ano após
ano, em vão. Mas a simples procura já lhes preenche a vida.
Há os que teimam em se ater ao real, ao
concreto, ao absurdo que é esta existência, cujo objetivo verdadeiro ninguém
conhece com certeza. São uns infelizes. São amargos, maldosos, mesquinhos. São
dignos de dó. Para o quê o homem nasce? Para purgar hipotéticos pecados que,
ademais, não pode ter cometido no ventre da mãe? Para através do sofrimento
adquirir o direito a uma "vida eterna", alhures, em algum lugar do
espaço, chamado, de forma vaga e indefinida, de "céu"? Para
simplesmente existir, sem qualquer razão superior? Pode ser que sim...pode ser
que não...
Certeza mesmo ninguém tem de coisa
alguma. Precisamos sonhar para dar algum sentido a isto que aí está. Temos que
"criar" a nobreza de uma suposta finalidade para a nossa vinda ao
mundo. E isso tem que ser feito, principalmente, se não houver alguma e se não
passarmos de frutos do acaso. Se não formos mais do que um, em milhões de
espermatozóides, que venceu a corrida para fecundar um, dos múltiplos óvulos, e
desta forma ganharmos o prêmio (ou castigo?) de existir.
A arte é o caminho para a conquista
dessa grandeza. E esta nunca se faz com os pés no chão. Fernando Pessoa tem um
texto extraordinário a esse propósito. Diz o escritor dos heterônimos: "Os
realistas realizam pequenas coisas, os românticos, grandes. Um homem deve ser
realista para ser gerente de uma fábrica de tachas. Para gerir o mundo deve ser
romântico. É preciso ser realista para descobrir a realidade; é preciso ser
romântico para criá-la".
Se
a vida não tem qualquer sentido, nos compete lhe darmos algum. Se a religião
não passa de mera projeção dos desejos humanos, assumamos a ilusão de que há
algum tipo de Paraíso, de sobrevivência eterna, para o que convencionamos
chamar de alma. Se a morte é definitiva, façamos tudo o que pudermos para
preservar pelo menos nosso nome na memória das gerações vindouras, para que não
desapareçam todos os vestígios da nossa em geral sofrida existência. É nosso
papel darmos um sentido – se de fato não
houver algum – à vida.
Sinto que os artistas do meu tempo
estão perdendo a rota. Competem, por exemplo, com o jornalista, no afã de
recriar a realidade através da sua ficção. Mesmo a poesia, que é sentimento,
alma e emoção, se torna "concreta", feita de tijolo, cimento e
asfalto. Agora é crua, amarga e dolorida. Não mais atinge a sensibilidade.
Atém-se, simplesmente, à razão. Os poetas estão fazendo concessões à realidade.
Com isso perdem a graça, o charme e o encanto. Trocam as asas do condor pelas
inúteis patas dos répteis.
Mas Fernando Pessoa nos ensina: "A
poesia encontra-se em todas as coisas – na terra e no mar, no lago e na margem
do rio. Encontra-se também na cidade – é evidente para mim, aqui, enquanto
estou sentado. Há poesia nesta mesa, neste papel, neste tinteiro; há poesia no
barulho dos carros nas ruas, em cada movimento diminuto, comum, ridículo, de um
operário que do outro lado da rua está pintando a tabuleta de um açougue (...)
É que poesia é espanto, admiração, como de um ser tombado dos céus, a tomar
plena consciência de sua queda, atônito, diante das coisas. Como de alguém que
conhecesse a alma das coisas, e lutasse para recordar esse conhecimento,
lembrando-se de que não era assim que as conhecia, não sob aquelas formas e
aquelas condições, mas de nada mais se recordando". Poesia é o meu ideal.
É aquele que procuro encontrar, a cada manhã, em "alguma
encruzilhada". A arte o é...O sonho o é...A fantasia o é...E o ópio da
ilusão também...
*
Jornalista, radialista e escritor. Trabalhou na Rádio Educadora de Campinas
(atual Bandeirantes Campinas), em 1981 e 1982. Foi editor do Diário do Povo e
do Correio Popular onde, entre outras funções, foi crítico de arte. Em equipe,
ganhou o Prêmio Esso de 1997, no Correio Popular. Autor dos livros “Por uma
nova utopia” (ensaios políticos) e “Quadros de Natal” (contos), além de “Lance
Fatal” (contos), “Cronos & Narciso” (crônicas), “Antologia” – maio de 1991
a maio de 1996. Publicações da Academia Campinense de Letras nº 49 (edição comemorativa
do 40º aniversário), página 74 e “Antologia” – maio de 1996 a maio de 2001.
Publicações da Academia Campinense de Letras nº 53, página 54. Blog “O
Escrevinhador” – http://pedrobondaczuk.blogspot.com. Twitter:@bondaczuk
Remodelada, volta sua preocupação sobre dar um sentido à vida. Eu não consegui nem ser gerente de uma fábrica de tachas. Fiz tudo errado.
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